sábado, 19 de janeiro de 2013

O ex-coração peludo?

Muitos ex e atuais alunos consideram-no um coração peludo. Como professor, ele não aceita trabalho fora do prazo; atribui zero quando necessário e não sente remorso, não abona faltas quando não respaldadas em lei e não sofre mais se o aluno reprova no TCC. Se tivesse feito o mínimo passava, certo? Além disso, o aluno pode ter 25% de faltas pra que? Para situações que não são cobertas pela legislação.

Também, há estudantes que abusam. Matam a vó mais de uma vez, ficam doentes com frequência, colocam a culpa no pen-drive, na impressora, no amigo e ainda dizem que não sabiam que não podiam copiar trabalho alheio. Alguns acusam-no de não ser bonzinho, mas ele prefere ser justo e - quando justiça é feita - torna-se um coração peludo.  

De todas as características de uma cirurgia cardíaca: dores, restrição de movimentos, abstinência sexual (forçada) temporária (ainda bem!); remédios e mais remédios, uma chama a atenção. O alerta é dado pela psicóloga Maria Tereza Carvalho, do Hospital do Coração. A cirurgia cardíaca mexe com a família toda, que fica emotiva. É comum você se emocionar com mais frequência.

E não é que ela tem razão! Ao ir para o hospital no dia anterior à cirurgia, ele chorou pela primeira vez. Tinha medo de não voltar e deixar a Marlene, o filho Otávio e os filhos-enteados Maíra e Lucas. Medo de ser esquecido. Quando alguém morre, a comoção acontece nos primeiros dias, mas a rotina faz tudo se encaixar. Para a maioria, o morto é encaixado no esquecimento. A rotina é perversa com quem vai. 

Já na preparação, outra psicóloga pergunta de seus temores. Ele repete o medo de não voltar e também o choro agarrado às mãos da Marlene. O choro de emoção volta a se repetir em outras ocasiões, já depois da cirurgia. Com a Marlene na UTI e em várias vezes em casa; com a filha-enteada Maíra que foi visitá-lo no hospital; ao ver cenas do Profissão Repórter, que contava o drama de crianças e idosos internados (para sempre) em hospitais e que não recebem visitas; ao acompanhar uma apresentação de música gospel no hospital; no jantar do dia 31, quando nem conseguiu dizer direito, porque a voz empasletou, que ama a família.

É um choro comovido, de emoção mesmo. Não é um choro de culpa, de transferência de responsabilidade ou de questionamento: por que comigo? O choro vem; é uma emoção que se aflora de forma natural. Não precisa de explicação nem recibo. 

A emoção está ligada à sua religiosidade, que ele sempre exerceu, rezando diariamente e pedindo para fazer o bem, mesmo quando reconhecesse algum sentimento pouco cristão. Afinal, ninguém é 100% bom nem 100% ruim. Como diria Zeca Baleiro, os santos já foram homens de pecado. Mesmo exercendo sua religiosidade, ele admite suas dificuldades em estabelecer vínculos com as denominações, ou seja, com a igreja. 

É católico por formação: Batismo, Crisma, Consagração, Comunhão. Realmente, acredita em Deus, nos santos, nos anjos e no poder da reza. Com o santo, estima São José, o guardião da Sagrada Família. Ele identifica-se com o homem que aceitou ser na terra o pai de Jesus e, por isso, não acredita em meras coincidências. Com a cirurgia aproximou-se de Nossa Senhora Aparecida, de quem a mãe Iracy é devota ferrenha.

Por falar em choro e religiosidade, ele emociona-se sempre que ouve "Anjos de Deus", do padre Marcelo Rossi, música que ouviu recentemente, pela primeira vez, num canal de música na TV a cabo. Do padre Marcelo Rossi? Essa figura a quem ele acusou ser mais um homem da mídia e menos um homem de Deus? Pois é... consequências emotivas de uma cirurgia cardíaca.

Ele não acredita que vai se tornar fã da obra musical do padre Marcelo Rossi, mas admite que "Anjos de Deus", principalmente na voz de Sérgio Reis, numa gravação disponível no Youtube, faz um bem danado à alma e ao coração recém-reformado. Afinal...  

Se acontecer um barulho perto de você
É um anjo chegando para receber
Suas orações e levá-las a Deus
Então abra o coração e comece a louvar
Sinta o gosto do céu que se derrama no altar
Que um anjo já vem com a benção nas mãos

Tem anjos voando neste lugar
No meio do povo e em cima do altar
Subindo e descendo em todas as direções
Não sei se a igreja subiu ou se o céu desceu
Só sei que está cheio de anjos de Deus
Porque o próprio Deus está aqui  

Depois da cirurgia, ele reconhece estar mais próximo de Deus. Nada como um problema grande para aproximar o humano do Divino. Talvez seja uma estratégia Dele para conosco. E dá certo! Enfim... ele está feliz e não sente vergonha por chorar de emoção nem por causa de uma música do padre Marcelo Rossi. 

Então quer dizer que ele é um ex-coração peludo? Ele não tem a resposta definitiva. As aulas na universidade retornam em fevereiro de 2013. Seus atuais alunos poderão confirmar - até o final do semestre - se na cirurgia, a equipe do doutor Kengo Baba - além de trocar a válvula mitral - também depilou seu coração.

Um comentário:

Sonia Orquiza disse...

Obrigada, Reinaldo por dividir essa aventura!!! Tenho que confessar que me emocionei. Deus te abençoe!!!