sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O quarto

Depois de quase 100 horas na UTI, ele é transferido para o quarto. Anda com dificuldades. Respira com calma. Espirrar e tossir nem para ganhar dinheiro. O esterno ligado por fios de aço não recomendam as atividades. Vai doer e muito. Por isso, ele engole a tosse, agradece ao espirro e pede para voltar em dois meses. 

Em cadeira de rodas, ele sai da UTI. Agradece o pessoal da enfermagem e o médico plantonista. Seu sorriso não disfarça a felicidade de poder ir para um quarto, uma enfermaria com dois leitos. Café da manhã com café e leite. É demais. Mini-pão francês e margarina. 

"__Delícia, delícia // Assim você me mata", diria um sertanejo universitário que ainda não foi fazer estágio no exterior. Que pena! 

Poder comer sentado, ficar largado numa poltrona, ir ao banheiro, mesmo acompanhado, tomar banho, sendo esfregado e enxugado por outra pessoa. O preconceito não tem vez. Afinal, se o preconceito fala mais alto é porque o paciente já está bem e não precisa mais de cuidados de terceiros.

A televisão também é uma delícia. Desligada, então, um orgasmo. Que coração recentemente aberto aguenta tanta violência até na hora do almoço? Ele ainda fica tonto com a edição frenética dos programas e dos anúncios. Ainda bem que inventaram o controle remoto. Off. E não se fala mais nisso.

Conforme vai melhorando, ele sente necessidade de caminhar. As sessões - matutina e vespertina - de fisioterapia são pretextos para deixar o quarto e explorar o hospital. Corredores à esquerda. À direita. Elevador que, ainda bem! não eleva a dor. Eita trocadilho infame! A decoração do Hospital do Coração lembra mais um hotel que uma unidade hospitalar. E isso é bom. Ajuda na recuperação. O paciente sente-se mais humano e menos doente.

Conforme vai melhorando, sente mais fome. Café da manhã, almoço, lanche da tarde, jantar, lanche da noite. As refeições são feitas da forma como devem. Sem pressa. Sentir o sabor, mais dos alimentos e menos dos temperos. Afinal, comida de hospital não abusa dos condimentos. Numa situação limítrofe de uma cirurgia cardíaca, a comida ganha sabores mesmo sem tempero.

A evolução do paciente é boa, a equipe fica contente. Ele mais ainda. Os acompanhantes que se revezam, também: a esposa, o pai, a mãe, o filho-enteado e o cunhado. Afinal, cuidado é cuidado. Em pouco tempo, ele vai para casa, mas vai acabar voltando ao hospital mais cedo do que gostaria.

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