sábado, 30 de março de 2013

Judas modernos

Judas foi o homem que traiu Jesus Cristo com um beijo. Teria sido ele um traidor mesmo? Ou o homem que cumpriu o papel para que Jesus fosse o Cristo e morresse pela humanidade? Crucificado. Morto. Sepultado. Ressuscitado.

A história não costuma amenizar para os que são considerados traidores e, no Sábado de Aleluia, a tarefa é malhar o Judas. Quanto mais pancada, melhor. Um boneco cumpre o papel do apóstolo traidor. Uma surra. Um ritual. Uma tradição. 

A malhação do Judas, no Sábado de Aleluia, perdeu o encanto para muitas comunidades, assim como se perderem tantas outras tradições. Malhar, além de levantar peso para secar o abdômen (academia é um poucos lugares que barriga vira abdômen) tem outros significados.
  
Malhar é sinônimo também de escarnecer, zombar de, falar mal de... E na sociedade da internet, as tradições mudam o foco mas mantêm o mesmo procedimento: a malhação, agora cibernética que produzem judas modernos, merecedores ou não das pancadas que levam.

Os judas modernos são políticos, celebridades, subcelebridades, atletas, empresários, protagonistas ou coadjuvantes de acontecimentos chocantes, gente comum. A web corre em rastro como pólvora acesa. A web escarnece, zomba, fala mal. 

Humilhação. Injúria. Calúnia. Difamação. Malhação pública. Por que? O ser continua tão humano quanto no tempo de Judas Iscariotes, mas a tradição do Sábado de Aleluia vai sendo trocada pela malhação cibernética de todo santo dia.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Querem acabar com a família

Do alto do seu púlpito, durante o culto, o pastor (se trocar por missa e padre, não fará diferença) brada contra a proposta elaborada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). 

O alvo da crítica é o texto da proposta do Projeto de Emenda Constitucional, a conhecida PEC da Diversidade, que amplia o conceito de família, juntando situações que não se encaixam no perfil da família tradicional (pai homem, mãe mulher e filhos heteros).

__Querem acabar com a família tradicional. Devemos protegê-la, afirma o pastor (se trocar por padre, não fará diferença), que continuou.

__Deus fez o homem e a mulher para constituir a família verdadeira, no matrimônio, que aos olhos de Deus, é para toda a vida.

Neste momento, a Célia - casada pela segunda vez e que deixou o primeiro marido por apanhar quase diariamente - se revira no banco, incomodada. Ela está com o marido e os quatro filhos: dois do primeiro casamento e dois do segundo.

__A família tradicional é uma instituição sagrada. Pai e mãe não podem ser substituídos.

No meio do templo (se trocar por igreja, não fará diferença), dona Francisca suspira inquieta. Ela cria os dois netos, filhos do filho que está preso por ter assassinado a esposa. 

__A família não pode ser ameaçada. Temos que proteger os pais e as mães de verdade.

Carlos e Lúcia estão no segundo banco e trocam olhares consternados. Com eles, de mãos dadas, cinco filhos entre 3 e 7 anos. Carlos e Lúcia são pais sociais num abrigo municipal. Eles educam e cuidam das crianças, enquanto os pais de verdade estão por aí.

__Essa PEC da Diversidade é a PEC da vergonha. Querem dar aos homossexuais, travestis e transgêneros o mesmo status da família tradicional. Se não defendermos, os gays vão acabar com a família.

O casal José e Cida aperta as mãos. Visivelmente constrangidos. Fabiano, o filho caçula é homossexual e vive com o companheiro e ambos criam Carolina, neta de José e Cida, filha de Fabiana, que foi tentar a vida na Espanha há nove anos. Neste período, ela não teve condições de voltar para ver a menina, hoje com 10 anos.

__Essa PEC é um absurdo porque quer ampliar privilégios a indivíduos viciados em práticas homossexuais.

E assim... o pastor (se trocar por padre, não fará diferença) continua sua pregação (se trocar por sermão, não fará diferença). 

A cada dogma exaltado no templo (se trocar por igreja, não fará diferença) um olhar desconfiado, um suspiro constrangido, um incômodo indisfarçável.

A Creide olha para sua vizinha, sentada ao lado, e diz tudo somente com o olhar. Para ela, a pregação e o sermão sobre a família tradicional, decididamente, andam descolados da realidade dos fiéis. E a amiga tem uma inquietude. 

__E por que esses fiéis que não são da família tradicional continuam frequentando o templo? (se trocar por igreja, não fará diferença).

A Creide tem uma resposta obviamente sábia.

__Porque eles buscam Deus e não os homens que se acham representantes Dele.

terça-feira, 26 de março de 2013

IRp - Imposto de Renda perverso

O Brasil tem atualmente cerca de 90 tributos mais conhecidos como impostos, contribuições e taxas. "Por tributo, entende-se toda prestação pecuniária compulsória em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir, que não constitua sanção de ato ilícito, instituída em lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada." 

Não há melhor definição para o tributo: imposto, já que se impôs, que se obrigou a aceitar. Os impostos - impostos por imposição (ato ou efeito de impor) - atingem todos os brasileiros, do trabalhador ao explorador (digo empregador); do comprador ao prestador de serviços, enfim... há um imposto, uma taxa, uma contribuição para tudo. E qualquer coisa.

A lista é grande. Assinalo os mais conhecidos. Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS); Imposto sobre a Importação; Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA); Imposto sobre Produtos Industrializados (PNI); Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU); Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR); Imposto sobre Operações de Crédito (IOF); Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS); INSS Autônomos e Empresários.

Há também alguns impostos que você somente vai saber que tem de pagar em situações específicas, como em transmissão de bens com o Imposto sobre Transmissão Bens Inter-Vivos (ITBI) e até quando envolve a morte: Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD). E ainda taxas que você precisa pesquisar para saber do que se trata como a Taxa de Avaliação da Conformidade. Sofisticado não?

Que os impostos atormentam o brasileiro não é novidade. Que o governo (municipal, estadual e federal) adora esfolar o cidadão, com novos impostos, também não é novidade. Que o brasileiro trabalha vários meses para pagá-los é menos novidade ainda.

Então por que o tema nas Letras Crônicas? Dia 30 de abril é o último dia para a Declaração do Imposto de Renda 2013. Este é um dos impostos - impostos por imposição (ato ou efeito de impor) - mais perversos para o trabalhador assalariado. Este o meu caso.

Perverso por vários motivos. A começar pelo nome. Imposto de Renda. O trabalhador assalariado não tem renda, vende o seu trabalho. É, portanto, um imposto sobre o trabalho. O cidadão trabalha, paga imposto para trabalhar e, em sua maioria, não tem acesso a serviços públicos de qualidade em todas as áreas. Por isso, crescem os serviços privados de educação, de saúde, de moradia, entre outros.

Então quer dizer que o governo taxa o trabalho, impõe a contribuição sobre a renda, que não é renda, e ainda chama o cidadão pagante de contribuinte? Isso mesmo. Por isso não perca o prazo final da declaração porque você poderá sofrer sanções ainda mais pesadas que o próprio imposto.

domingo, 24 de março de 2013

Gente sem etiqueta

A Creide está inquieta com o comportamento das pessoas (ou pelo menos uma grande parte dela) nas tais redes sociais.

É que muita gente compartilha informações equivocadas, reproduzem outras fantasiosas e mentirosas e vão repassando coisas sem checar a fonte.

A Creide argumenta que muitos dizem não ter preconceito, mas quando reproduzem piadas, frases e outros de cunho preconceituosos fazem a manutenção do preconceito.

__É preciso quebrar a corrente, determina a Creide.

E, para ela, o Facebook é um dos espaços mais comprometidos com a liberdade de expressão e, muitas vezes, comprometido com a expressão distorcida.

Em nome dessa liberdade, muitos grupos destilam veneno e ódio. 

E o pior, muitos fazem isso usando o nome de Deus.

Mais em nome dos dogmas religiosos, menos em nome de Deus. 

Porque como diz a Creide.

__Deus é inocente! As pessoas não.

E por falar em inocência, a etiqueta do bom convívio e do respeito ao outro é rasgada diariamente nas redes sociais.

E o pior as pessoas nem se dão conta disso.


Em vez de debater ideias, debatem pessoas, desqualificando-as, acusando-as, xingando-as.

A isso a Creide chama de intolerância cibernética.

Outra coisa chama a atenção dela: a atitude de curtir no Face qualquer coisa, sem pensar duas vezes. 

Ela cita o caso de uma pessoa que comunicou aos amigos a morte de um parente.

No afã de agradar o comunicante, muitos pressionaram o botão curtir. 

Na prática, curtiram a morte do parente.

__Vê se pode? É muita gente sem noção, mesmo! E ainda existem os que se congratulam oferecendo seus sentimentos. Peraí! O coitado que perdeu o parente não deve aguentar os próprios sentimentos e ainda tem que receber o dos outros?! Ó mai Gódi.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Pingolim e perereca pública

Mais um ator global reclama que fotos dele pelado foram roubadas de seu computador por um hacker que teria tentado chantageá-lo. As fotos cairiam na rede se ele não pagasse. Murilo Rosa, atualmente na novela “Salve Jorge”, foi à polícia que combate crimes cibernéticos registrar a queixa. As imagens acabaram na internet com o ator exibindo o pingolim.

Esse é o segundo episódio envolvendo atores da Globo em curto espaço de tempo. Ano passado, foram as fotos peladas da atriz Carolina Dieckmam que vazaram porque um hacker roubou as imagens. Ela registrou queixa, o caso ganhou repercussão. E a foto da atriz e sua perereca? Foram parar na internet.

Esses dois casos são emblemáticos e revelam algumas situações pertinentes para análise. Primeiro. Os casos ganharam repercussão, inclusive em telejornais da Rede Globo e outros veículos. O noticiário, além de dar mais fama aos atores, ajuda a alavancar a programação da própria emissora. É o jornalismo a serviço do que mesmo?

Segundo. É intrigante o fato de atores fazerem imagens “íntimas” de seus pingolins e pererecas que, na sociedade das celebridades, acabam virando objetos públicos. Isso é mais consequência do que causa. O vazamento das imagens, mesmo sendo crime, ocorre porque a imagem está pronta em algum computador à espera de um hacker.

Terceiro. A repercussão ajuda a Polícia a resolver os casos. Os “ladrões” das fotos peladas da Carolina Dieckman foram presos. Olha! quanta eficiência dos órgãos públicos para prender larápios de imagens de pingolins e pererecas famosas. O estado não mostra a mesma eficiência em casos mais graves como assassinatos, visto que o índice de casos não resolvidos é altíssimo.

Isso tudo ocorre por causa da erotização, potencializada pelos veículos de comunicação. A erotização está vinculada aos egos de cada um. Os 15 minutos de fama são perseguidos freneticamente por uma legião de candidatos à celebridade. E mesmo os que já gozam desse status procuram uma forma para aumentar seus 15 minutos. Afinal quem não é visto, não é lembrado.

sábado, 16 de março de 2013

Inquietudes (157) do Rei

Nesta semana, a Folha de S.Paulo noticiou que fotos de índias nuas receberam tarjas pretas no Facebook. O objetivo esconder "as partes" das mulheres. As imagens são do documentário "As hiper mulheres", com direção de Carlos Fausto, Leonardo Sette e Takumã Kuikuro. O filme trata do "Jamurikumalu", um ritual feminino. Censurar imagens de nus no Facebook chega a ser constrangedor ao bom senso, principalmente, em uma sociedade pelada, como a nossa do Ocidente.

Doutrina e realidade

A escolha do novo papa fez surgir um intenso debate. Entre os que defendem o argentino Jorge Mario Bergoglio, agora Francisco I, e os que o atacam. Os primeiros afirmam ser uma escolha acertada. Reverenciam-no. Os segundos, um grande erro. Apedrejam-no.

Bergoglio, o papa que veio do fim do mundo, atrai a admiração pelos gestos de recusa à ostentação, presença íntima dos corredores e cerimoniais papais. Francisco I atrai a ira de alguns grupos, por ter supostamente apoiado a ditadura na Argentina, ou pelo menos, de ter feito corpo mole durante os anos sombrios comandados por ditadores militares.

Entre os prós e os contras sobre o resultado do Conclave, nesta semana, algumas inquietudes cutucam alguns cristãos, principalmente, aqueles que ousam refletir sobre a doutrina.

Haverá renovação com o novo empossado ao Trono de Pedro? Os divorciados que casaram novamente poderão participar da comunhão eucarística? Bento XVI, o papa-renunciante, disse - em certa ocasião - que não há essa possibilidade, mas como bom cristão afirmou.

___[Os fiéis que] ficaram marcados pela experiência dolorosa do fracasso e da separação, o papa e a Igreja apoiam a vossa dor.

Apoio sem inclusão é discurso!

E as células-tronco de embriões poderão ser utilizadas para salvar vidas? Bento XVI, o papa-renunciante, disse - em certa ocasião - que nenhuma chance de cura vale destruir uma vida humana. Para ele, quem usa célula-tronco embrionária incorre numa.

__Grave violação do direito à vida de todo ser humano.
 

Anos atrás, a Igreja Católica lançou uma campanha mundial contra legislações que preveem a união civil de pessoas do mesmo sexo e conclamou os políticos católicos a votar contra a proposta. Para o Vaticano, reconhecer direitos civis de homossexuais.

__Significa não apenas aprovar um comportamento desviado e convertê-lo em modelo para a sociedade atual, como também afeta os valores fundamentais que pertecem ao patrimônio comum da humanidade.

Divorciados casados novamente. Células-tronco embrionárias. União civil entre homossexuais. A sociedade gira numa velocidade maior que a doutrina.

Em nome da fé, muitos tiram o direito do próximo, aquele que Jesus pediu que amasse como se fosse a ti mesmo (Marcos 12:31).

Em nome da fé, muitos discriminam e usam o Todo Poderoso para justificar seus preconceitos. Afinal está nas Escrituras.

A doutrina, aquela cujo papel aceita tudo, mostra-se distante da realidade. Uma realidade incômoda para uma instituição secular e presa a tradições.

Essa realidade é aquela que inclui, por exemplo, divorciados e homossexuais tementes a Deus, e padres pedófilos, sacerdotes que quebram os votos da castidade, ou seja, religiosos que desfilam seus pecados capitais.

A doutrina é importante para direcionar o rebanho, mas fora da realidade e calcada nas tradições é apenas uma letra morta.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Muita coisa errada. Mesmo!

Um pastor na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. Marco Feliciano, deputado por São Paulo, conhecido por declarações contra homossexuais e negros, foi eleito hoje para presidir a comissão. A possível indicação de seu partido PSC vinha causando tensão na Câmara e provocando manifestações de entidades de defesa dos direitos humanos Brasil afora.

Quais as implicações de um pastor apontado como racista e homofóbico numa comissão de direitos humanos? Ao presidente cabe, entre outras tarefas regimentais, definir a pauta de trabalhos dos integrantes da comissão. E aí reside o medo dos contrários ao seu nome; de que ele possa não acatar pedidos de investigação de violação aos direitos humanos, arquivar outros e, principalmente, orientar seu trabalho pelo viés da religião, podendo prejudicar as minorias. Afinal o fanatismo religioso - de qualquer denominação - anda de braços dados com o preconceito. 

Bastou que vencesse a disputa pela presidência da comissão na Câmara para que protestos fossem registrados em Brasília e nas redes sociais. Aliás, protestos tão legítimos quanto a eleição do próprio como presidente, já que as regras estão estabelecidas no jogo político há muito tempo. Acordos entre as agremiações partidárias em todo o legislativo brasileiro (municipal, estadual e federal) é que dão conta de empossar os membros de diversas comissões, que elegem seu presidente. 

Um dos protestos nas redes sociais - repito legítimos - afirma que há algo errado na eleição de um pastor para a Comissão de Direitos Humanos e Minorias. E há mesmo muita coisa errada. Não passou da hora daqueles que defendem os direitos humanos e as minorais eleger homens e mulheres comprometidos com a causa, a ponto de ocupar importantes cargos em comissões no Congresso Nacional? 

Esse episódio obriga a aprender com os evangélicos que conseguem aumentar a cada eleição seus representantes. É notória a força desta bancada, que juntamente com outras, consegue sufocar legislativamente debates e propostas sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo e o aborto. Não atesto com isso que Marco Feliciano seja um bom evangélico muito menos um bom representante do segmento. A Folha de S.Paulo divulgou, hoje de manhã, um vídeo no qual o deputado-pastor (ou seria pastor-deputado) pede a senha do cartão de um fiel.

Muitos podem alegar que o Brasil é um estado laico e não se deve misturar política e religião! Mesmo sendo laico, o Brasil é uma democracia e qualquer religioso pode ser eleito e orientar seu trabalho segundo seus princípios. Por isso, a necessidade de eleger representantes que possam defender os direitos humanos e as  minorais numa perspectiva mais ampla. 

Tudo bem! se são minorias como vão eleger seus representantes? Ocorre que negro e pardo no Brasil não são minoria. Mais uma: o casamento entre pessoas do mesmo sexo não é defendido apenas por homossexuais. Milhares de eleitores heterossexuais ajudam a eleger representantes que defendem o casamento gay porque são favoráveis à medida. Por outro lado, também é verdade que muitos homossexuais ajudam a eleger representantes que trabalham contra o reconhecimento de seus direitos. 

Essa situação pode gerar confusão. E gera mesmo, mostrando que muita coisa está errada. E o erro perpassa pela falta de politização do brasileiro que, em sua maioria, não consegue - por muitos motivos - distinguir o que candidatos e partidos políticos defendem. Isso é o que dá seguir rigorosamente o ditado que determina que política e religião não se discute. As distorções, com as bençãos das regras eleitorais, estão aí.

Amém!

quarta-feira, 6 de março de 2013

Liberdade doce

A liberdade de expressão é doce.
O conteúdo do que é expresso nem sempre
Muitos gritam exigindo respeito a suas ideias e crenças.
Desses, muitos não ouvem o grito dos outros.


Por ignorância.
Por má-fé.
Por conveniência.


Desqualificar as ideias do outro é um princípio de legitimidade.
Desqualificar o outro é sinal de autoritarismo.
A democracia pede diálogo e tolerância.


A internet é um território livre sem fronteiras nem porteiras.
A web tirou o cidadão comum do patamar de leitor.
E deu a ele o status de protagonista.
Nos comentários em publicações on-line, a voz do internauta é ouvida.
Nas redes sociais, ele pode ganhar a condição de celebridade.


Visibilidade.
Instantaneidade.
Interatividade.


A liberdade de expressão é doce.
O conteúdo do que é expresso nem sempre.

terça-feira, 5 de março de 2013

Controle remoto ineficiente

A Sky, empresa de exploração de serviço de TV a cabo, tem divulgado o recurso “controle dos pais” no qual afirma que “você pode bloquear os programas e canais que considerar impróprios para a sua família”. No anúncio veiculado em sua programação, a empresa afirma que a TV a cabo no Brasil não tem restrição para a divulgação de programas. Isso significa que os canais fechados a qualquer hora podem divulgar, por exemplo, muito sexo e muita violência.

Mais que um anúncio de serviço da operadora, a Sky com tal discurso divulga – mesmo que a maioria dos telespectadores não perceba – uma ideologia perversa na produção e na difusão do conteúdo da televisão fechada. Perversa porque a empresa se exime das consequências do que divulga. Basta usar o controle remoto e o bloqueio de canal. Na prática, a empresa atesta que a influência da televisão sobre o comportamento de crianças e adolescentes angustiados pelo consumismo e erotizados diuturnamente, para citar dois efeitos, não é problema dela. É problema apenas dos pais, que têm o dever de controlar o que os filhos veem.

A responsabilidade por aquilo que os filhos assistem é mesmo dos pais. Esses têm que saber o que os filhos consomem, seja na TV a cabo ou na TV aberta, que tem minimamente regras de controle, como a classificação indicativa. Afinal, quem educa são os pais e a televisão tem outras funções não necessariamente educativas. Afinal muitos programas mais desinformam que informam; mais deformam que formam.

Legislação de telecomunicações

Mesmo que a TV a cabo não tenha restrição de conteúdo, basta lembrar os princípios constitucionais que regem a comunicação no Brasil. O artigo 221 da Constituição determina que a programação de rádio e de televisão deve atender aos seguintes princípios:

I – preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas;
II – promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação;
III – regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei;
IV – respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.

Muitos podem dizer que a comunicação social não foi regulamentada, afinal nenhum governo – seja de tucanos seja de petistas – teve a coragem necessária para enfrentar o tema como ele merece. Outros podem afirmar que a regulamentação da TV não está prevista na Constituição Federal. Realmente, o capítulo da Comunicação Social trata da programação relativa às concessões públicas de rádio e TV.

Aqui outro imbróglio ajuda a tumultuar o debate. A TV a cabo não está inserida nos dispositivos que regulam a radiodifusão no Brasil. Por lobby, interesses obscuros ou ingenuidade mal intencionada, a exploração de serviços da TV fechada integra a legislação das telecomunicações. Isso mesmo, telefonia fixa, móvel e outros serviços do setor.

Controle remoto

A exploração da TV a cabo é regida pela lei 8.977, de 1995, e ratificada pela lei 9.472, de 1997, que “dispõe sobre a organização dos serviços de telecomunicações”. Ou seja, TV a cabo está no mesmo patamar dos aparelhos de celular. Já a lei que regula a radiodifusão no Brasil é de 1962 (lei 4.117), de 50 anos atrás. Vale dizer, uma legislação caquética que não contempla os avanços tecnológicos da área nem os serviços não previstos na época em que foi elaborada. Quem perde e quem ganha com as operadoras de TV a cabo subordinadas às telecomunicações, e não à radiodifusão brasileira?

O discurso de que se não está satisfeito mude de canal, decididamente não ajuda a melhorar a qualidade da televisão brasileira. Não é por menos que – volta e meia – alguma entidade aciona a justiça contra programas de TV que promovem a discriminação ou patrocinam o preconceito, escondidos sob o manto da liberdade de expressão. Transferir a responsabilidade do que se produz unicamente para a audiência, ou seja, ao poder do controle remoto, é uma estratégia para amenizar a responsabilidade dos produtores de conteúdo e seu papel constitucional.

Em que pese a diversidade, a TV a cabo apresenta muito mais opções que a TV aberta, mas quantidade não é sinônimo de qualidade. Dada a programação da televisão no Brasil, incluindo os dois modelos, o controle remoto – como mecanismo para melhorar seu conteúdo – prova não ser o instrumento mais eficiente para melhorar o padrão televisivo no país.

Artigo publicado no Observatório da Imprensa, edição nº 736, de 05/03/2013.

sábado, 2 de março de 2013

Contemplação

Quanta cafonice!

Fazia muito tempo que não ouvia a palavra cafona. Nesta semana, uma amiga caracterizou um sujeito. E ela tem razão.

__Nossa! como ele é cafona!

Ela referia-se à roupa do elemento e seus cabelos tingidamente escovados. Realmente ter dinheiro não é sinônimo de vestir-se bem.

Há muito rico cafonamente vestido e muito pobre elegantemente trajado. Exagero e simplicidade. Atributos da cafonice e da elegância.

Dicionários da Língua Portuguesa associam o sentido da cafonice ao mau gosto, principalmente, para escolher e usar roupas.

No entanto, a cafonice pode deixar o guarda-roupa e aderir a outras situações. Tomada como sinônimo de mau gosto pode-se verificar que a cafonice domina muitos cenários.

Em política, por exemplo, um grupo ideológico desqualifica a ideologia do outro, achando-se melhor e acima de suspeitas.

A passagem da blogueira Yoani Sanches pelo Brasil fez emergir, nas manifestações contra a cubana, termos que muitos acreditavam enterrados.

Há quem classifique de cafonas expressões do tipo imperialista, ianque, estadunidense e burguês.

A tentativa de desqualificar esses termos também revela uma cafonice. Afinal é de muito mau gosto não respeitar o universo alheio.

No Brasil atual, há uma explícita criminalização da política. Segmentos importantes taxam de cafonas os políticos e os partidos.

No entanto, parte desses segmentos esconde ou ameniza o mau gosto de empresários corruptores e sonegadores.

Como se vê a cafonice é uma via de mão dupla. Afinal corruptos e corruptores são os dois lados do mau gosto dos desvios de recursos públicos.

Ainda associando a cafonice ao mau gosto, pode-se tomar outros exemplos.

Cafona é explorar mão-de-obra infantil.
Cafona é comprar produtos de empresas acusadas de trabalho escravo.
Cafona é votar em político ficha-suja.
Cafona é destilar preconceito e promover a discriminação. De qualquer tipo.
Cafona é atacar os benefícios dos outros quando se está sentado em muitos privilégios.
Cafona é não respeitar o gosto dos outros, achando elegantes os próprios gostos. 


Enfim, a cafonice é mais recorrente do que imaginamos e gostaríamos.