segunda-feira, 29 de abril de 2013

Luminária

Marcas da vida

Os dicionários da Língua Portuguesa dão um sentido negativo à cicatriz. "1 Marca, sinal ou vestígio que fica das feridas e chagas, depois de curadas. 2 Sinal ou vestígio de estrago ou de destruição. 3 Impressão duradoura de uma ofensa ou desgraça. 4 Lembrança dolorosa." 

As cicatrizes são marcas da vida e ajudam a definir quem somos atualmente. Elas não precisam necessariamente cumprir um papel negativo e, mesmo vindo de algo doloroso de um dado momento, pode avivar lembranças boas e, até mesmo, inocentes.

A cicatriz que tenho em cima do pé direito, conseguida ao me enroscar num fio de arame farpado - que um dia segurou uma cerca - que estava enterrado na areia do leito do corguinho, traz-me recordações de como minha infância foi saudável.

Era uma época de muitos primos e primas porque as famílias eram grandes. No sítio, todos brincavam e soltavam a imaginação com brincadeiras de faz de conta, sem brinquedo de apoio. Ninguém tinha vídeo game e televisão era com hora marcada. No máximo, assistíamos, juntos, o Globinho e depois O Sítio do Pica Pau Amarelo, com a primeira Cuca e a primeira Emília.

As represas, ah as represas - sonho da molecada no final de semana e o terror das mães. Só descíamos se algum adulto fosse junto. Hoje se ficasse em pé numa delas, no máximo a água chegaria na cintura. Mas eram fundas, traiçoeiras, mortíferas. Terríveis aquelas represas.

Para aplacar o perigo delas, cujas mães endoidavam, improvisávamos - no corguinho de água no tornozelo - uma barragem. Sacos plásticos faziam uma mureta para conter a água que nunca era muita. Os sacos de areia cediam antes do terceiro pulo da molecada.

Subir em árvore e ficar contando histórias. Comer frutas do pé. Manga, jaca, pinha, maracujá, goiaba. As mangas epidêmicas eram a rosinha. Em cada canto uma árvore. A espada era mais saborosa e disputada quase a tapa porque existiam poucos pés. E a bourbon? Uma lenda. O único pé na beira da estrada era seletivo. Dava no ano em que queria.

Goiaba era uma praga. Da vermelha e da branca. Espalhada por todo o sítio. Uma árvore inconfundível. A goiaba, com suas cores e cheiro, tem personalidade num pé também com identidade. Dependendo do ano, a fruta vivia bichada. O problema não era encontrar um bigato na goiaba. Era encontrar meio bigato.

Hoje, a cicatriz em cima do pé direito é apenas uma marca que fica cada vez mais discreta. E essa marca cede seu lugar à outra, ainda fresca. A cicatriz no meio do peito, que surgiu para a troca de uma válvula cardíaca, a mitral. O coração restaurado agradece sempre a cicatriz.

Essa marca, que causa estranheza, é motivo de felicidade diária. Ela lembra-me todos os dias de que estou muito bem vivo. Essa não é uma cicatriz qualquer, é uma marca definitiva e significativa.

Essa marca representa o sucesso da cirurgia.
Essa marca representa o carinho da família e dos amigos.
Essa marca representa uma segunda chance.
Essa marca representa a vida.
E isso não é pouco.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Inquietudes (161) do Rei

Aquela história de que é necessário amar o pecador, mas odiar o pecado, não convence por ser superficial. Porque, na prática, quem discrimina odeia aquele que considera ser pecador.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

A primeira pedra

A aprovação do casamento gay pelo Parlamento francês ontem (dia 23) provocou a ira dos contrários à medida. Alguns extremistas (sim porque chegaram ao extremo) provocaram manifestações violentas contra a aprovação da proposta.

Tanto cá quanto lá, a ladainha (substantivo bastante apropriado para o caso em virtude do viés religioso) bate na iniciativa que – dizem – ataca a família. Isso leva a uma inquietude óbvia. Gay não é fruto de famílias também? Gay não tem pai, mãe ou irmãos?

No caso francês, o ódio à medida é ampliado porque na votação de ontem, os casais gays poderão adotar crianças. Os contrários à proposta recorrem à bola de cristal para atestar que filhos de pais gays sofrerão preconceito e discriminação. Deles próprios, certo!

Coitadas dessas crianças! Serão vítimas de perseguição na escola, na faculdade e na vida, mas tudo bem! poderão unir-se aos gordos, aos magrelos, aos feios, aos pobres, aos deficientes, às vadias e tantos outros seres que não fazem parte do grupo seleto do padrão social. E quem faz mesmo? 

E o pior da história é ler e ouvir argumentos que passam pelo crivo de Deus. Sim, porque muitos justificam seus preconceitos recorrendo à Bíblia, naturalmente aos trechos que lhe são convenientemente convenientes.

Alguma coisa está errada quando as pessoas usam Deus para justificar seus preconceitos e corroborar suas atitudes. Aquela história de que é necessário amar o pecador, mas odiar o pecado, não convence por ser superficial. Porque, na prática, quem discrimina odeia aquele que considera ser pecador. Portanto, atire a primeira pedra e todos sairão machucados.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Contornos

Inquietudes (160) do Rei

As revistas de variedades para homem reproduzem o modelo das revistas para mulher: como secar a barriga em uma semana; confira produtos de beleza para cabelo, barba e axila; veja como combinar o look formal e casual. A pauta jornalística é meramente comercial: para vender produto. E quem compra acha que a felicidade vem junto. Lamentável.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Coisas diferentes

A Creide anda aborrecida com o nível de comentários em posts nas redes sociais. Para ela, a profundidade de muitos debates parece a de uma mesa.

__Pelamordedeus, gente! Eita simplismo...

Ela afirma que muita gente vomita o que ouviu dos pais que ouviram dos pais que ouviram dos pais que ouviram dos pais, que nem sabem de quem ouviram. 

A Creide cita dois temas que costumam alvoroçar os tais formadores de opinião: ensino e educação; Deus e religião.

__Mas Creide por que a relação ensino e educação, se os dois são a mesma coisa?
__Claro que não. Ensino é diferente de educação.
__Como assim?
__Educação a gente tem em casa, na escola a gente aprende um conteúdo formal.
__Isso foi no tempo em que você era criança, né... Hoje os pais não educam nem ensinam e muitos professores estão mais para carcereiros.
__Isso mesmo, meu filho. O problema é exatamente esse. A escola deixou de ensinar e os pais de educar. Por isso eu sempre falo que eu não deixei que o período que passei na escola influenciasse na minha educação.

Essa Creide tem cada uma!

__E Deus/religião, o que você fala sobre isso?
__As pessoas confundem Deus com a religião.
__Como assim, mas a religião não é uma extensão Dele?
__Como pode ser uma extensão se há religiosos que praticam o preconceito e a discriminação! Você acha que Deus é isso?
__É que está escrito na Bíblia.

__A Bíblia é uma só, meu filho. O problema é que as pessoas interpretam do que jeito que querem para justificar as próprias atitudes.
__Por isso elas agem assim...
__Entendeu cabeção?
__Mas Creide, se você acredita em Deus e na Bíblia onde fica pra você a religião?
__Meu filho... nunca deixo que o período que passo na igreja influencie a minha relação com Deus.

Essa Creide tem cada uma!

domingo, 14 de abril de 2013

Os preconceituosos piram

No último dia 3 de abril, o corregedor de Justiça do Paraná, Eugênio Achille Grandinetti, uniformizou a celebração do casamento gay no Estado. Por meio de instrução normativa, o desembargador orienta - sobre a realização do procedimento - os cartórios paranaenses.

A medida considera o julgamento pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em maio de 2011, "que permitiu a habilitação de casal homoafetivo para celebrar casamento civil..." Na prática, pessoas do mesmo sexo poderão realizar o casamento em todo o território paranaense, "desde que atendidas as demais exigências legais..."

O que isso significa? Que pessoas do mesmo sexo poderão realizar suas uniões, obedecendo aos trâmites legais, e levar para casa a Certidão de Casamento. O padrão do documento é o mesmo para casais heterossexuais.

A certidão de casamento vai conferir aos casais gays direitos em cascata. Esses não vão precisar recorrer à Justiça (exceto em caso notório de discriminação) para efetivar medidas previstas em lei, como inclusão do(a) cônjuge em plano de saúde, dependência para efeito de Imposto de Renda, partilha conforme regime de bens, licenças previstas na Seguridade Social, entre tantos outros.

Na prática, a decisão do STF normatizada pelas corregedorias estaduais de justiça (nem todos os estados normatizaram a medida) põe fim, no âmbito jurídico, à discussão sobre o casamento gay. O documento de casamento é a prova da realidade, que confere os direitos do chamado casamento igualitário.

Por isso, essa discussão no âmbito dos direitos civis está superada. As posições contrárias, por exemplo, do pastor-deputado Marco Feliciano e seu colega de plenário Jair Bolsonaro, tão homofóbico quanto, servem apenas para alimentar a audiência do circo midiático.

O STF fez o que o Congresso Nacional não teve coragem de fazer: estender direitos civis a um segmento social, tornado-o igualitário aos demais (casais heteros casados, casais heteros não casados).

Mesmo assim, a gritaria contra o casamento gay não vai acabar, já que os preconceituosos piram somente ao ouvir essas duas palavras: casamento e gay. Os dogmáticos, que confundem Deus com a instituição religiosa, vão continuar amaldiçoando a medida.

Ainda bem que as bênçãos vêm da Justiça, que neste caso se mostrou como o Estado deve ser: laico.

sábado, 13 de abril de 2013

Grotescos não faltam

Machismo? Estupro? Falta de valores? Erotização?

A cena do diretor Gerald Thomas enfiando a mão por baixo do vestido de Nicole Bahls, nesta semana, é grotesca.
E mais grotesco ainda são os próprios personagens da cena.
Gerald Thomas em sua defesa defende o indefensável.

__Meti a mão na menina. E tudo termina nos panos quentes, CPI que acaba em pizza, como todas as coisas no Brasil, esse paisinho de quarto mundo, Corsa que quer ser Mercedes.

Gerald Thomas usa o grotesco alheio para justificar o seu.
Nicole Bahls se disse chocada com a cena grotesca.
Mas a garota não se choca por esfregar as nádegas nas câmeras do horário de maior audiência.
Afinal, grotesco será sempre os outros e suas atitudes.

E a cena grotesca alavancou debates, manifestações, protestos, ira e deboche.
Claro, a plateia também tem sua parcela grotesca.
Porque o público consome o espetáculo pelo qual paga para assistir.

Inquietudes (159) do Rei

Às vezes, o melhor da repercussão para os seus questionamentos não é o conteúdo da resposta de muitos, mas o silêncio de alguns que se calam.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Impunidade ou legalidade?

“Para quem não sabe do que se trata, na prática, se aprovada, a emenda [PEC 037] praticamente inviabilizará investigações contra o crime organizado, desvio de verbas, corrupção, abusos cometidos por agentes do Estado e violações de direitos humanos. Ou seja, os corruptos poderão roubar mais à vontade ainda sem que possam ser investigados e punidos.”

Esse texto chegou a mim, por meio, com a indicação de um endereço eletrônico para assinar uma petição pública on-line. O objetivo do remetente é angariar assinaturas para barrar a Proposta de Emenda Constitucional 037 que limita(?) regula(?) a atuação das promotorias públicas. Os contrários à proposta apelidaram-na de “PEC da Impunidade” e os favoráveis de “PEC da Legalidade”.

O combate à corrupção é mais do que uma necessidade, é uma estratégia porque é no contexto dos desvios de dinheiro público que se instala a miséria da maioria da sociedade. Mas me espanta que os combatentes da corrupção possam corromper a informação, sem pudor algum. Analisando o texto acima e a proposta da PEC, arrisco algumas considerações.

1) O Ministério Público é uma instituição importante e imprescindível ao combate à corrupção e tem de ter estrutura para realizar seu trabalho, assim como as polícias devem ter pessoal preparado, equipamentos e todos os recursos para realizar as investigações. A polícia científica, por exemplo, precisa de investimento alto e urgente.

2) Se a PEC for aprovada “os corruptos poderão roubar mais à vontade ainda sem que possam ser investigados e punidos”. Essa é uma meia verdade, para não dizer que se trata de uma mentira. As polícias vão continuar investigando cujos processos serão encaminhados ao MP que vão continuar oferecendo denúncias que serão avaliadas por juízes e, no julgamento, condenar os envolvidos se comprovada a culpabilidade.

3) O Ministério Público não pune. Quem pune, a partir do julgamento dos autos de um processo, é o judiciário que estabelece as sentenças. Ao MP cabe oferecer as denúncias. A quem interessa tumultuar esse debate para dizer que políticos corruptos vão continuar roubando impunemente como se o MP fosse a única forma de combater a corrupção?

4) Conversei com alguns advogados, recentemente, que afirmaram não haver princípio constitucional ou base jurídica que estabeleça o papel de investigação ao MP. Verdade? Interpretação? Leia alguns tópicos abaixo e tire suas conclusões.

O artigo 129 da Constituição Federal trata das funções do órgão. O inciso VIII estabelece que cabe ao órgão “requisitar diligências investigatórias e a instauração de inquérito policial, indicados os fundamentos jurídicos de suas manifestações processuais.” Isso significa dizer que ao requisitar a instauração de inquérito policial, a investigação é feita pelos organismos policiais.

O artigo 26 da lei 8.625, de 1993, a chamada Lei Orgânica Nacional do Ministério Público, determina como função:

b) requisitar informações, exames periciais e documentos de autoridades federais, estaduais e municipais, bem como dos órgãos e entidades da administração direta, indireta ou fundacional, de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios;

c) promover inspeções e diligências investigatórias junto às autoridades, órgãos e entidades a que se refere a alínea anterior;


5) Quem denuncia deve investigar para produzir as provas necessárias à ação? Como fica a situação se esse que acusa, no curso da investigação, descobrir que os envolvidos são inocentes? Há conflito de interesses no desempenho da acusação e da investigação simultaneamente?

6) Com a aprovação da PEC 037, as promotorias públicas perderão poder e também visibilidade. Afinal o cumprimento de mandados de busca e apreensão, muitas vezes, encontra espaço fácil na imprensa, geralmente, aliada daqueles que gostam de holofote.

7) No processo de oferecimento de denúncia, sempre há grande publicidade e se a ação é trancada em instâncias superiores, caso do Tribunal de Justiça, por exemplo, por falta de materialidade que comprove as denúncias, impera o silêncio. E como ficam os acusados que terão de conviver com o julgamento e a condenação pública? Gostemos ou não, todos são inocentes até que se prove o contrário.

8) No cenário nacional, está sendo construída a imagem de que quem é contra à PEC 037 é do bem e combate a corrupção; e que quem é favorável à proposta é do mal e defende a corrupção. Esse debate deve despir-se do simplismo e do maniqueísmo, características intrínsecas de temas polêmicos.

Como se vê a discussão sobre a PEC 037, suas vantagens e desvantagens para o Estado Democrático de Direito e o combate à corrupção no país, precisa ser aprofundado e vai além do rótulo de impunidade ou legalidade.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Dois joaquins e dois barbosas

Joaquim Barbosa foi aplaudido quando relatou o caso do Mensalão em julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), contra petistas e aliados, virou adesivo de carro e foi chamado de herói.

Joaquim Barbosa foi aplaudido quando tratou com grosseria, no julgamento do mensalão, o ministro Ricardo Lewandowski que deu interpretação diferente da sua aos autos do processo.

Joaquim Barbosa foi aplaudido quando tratou com grosseria, no julgamento do mensalão, advogados de petistas e aliados.

Joaquim Barbosa foi aplaudido e virou a “Personalidade do Ano”, em 2012, com o Prêmio Faz Diferença, oferecido pelo jornal O Globo.

Joaquim Barbosa é criticado por ter mandado jornalista do jornal O Estado de São Paulo chafurdar no lixo.

Joaquim Barbosa é criticado por representantes de associações de juízes por ter declarado que Tribunais Regionais Federais serão criados em resorts e praias.

Joaquim Barbosa é criticado por representantes de associações de juízes, em audiência no STF, na qual os magistrados afirmaram que Barbosa foi desrespeitoso e grosseiro.

Joaquim Barbosa é criticado por senadores por ter afirmado que a criação de Tribunais Regionais Federais foi feita na “surdina" e de forma "sorrateira”, mesmo em tramitação no Congresso Nacional há mais de 10 anos.

“A história do Supremo Tribunal Federal contempla grandes presidentes e o futuro há de corrigir os erros presentes.” A afirmação é das entidades que congregam magistrados brasileiros em nota. Para esses, a eleição de Joaquim Barbosa como presidente do STF foi um erro?

Muitos que aplaudiram Joaquim Barbosa agora o criticam por ele ser o que sempre foi. Rigoroso ou autoritário? Rígido ou grosseiro? Para alguns há dois joaquins e dois barbosas. O herói do mensalão virou vilão. Joaquim Barbosa, o primeiro negro a presidir o STF, deixou de ser útil? 

sábado, 6 de abril de 2013

Inquietudes (158) do Rei

O Ministério Público tem de ter poderes e recursos para a sua atuação, mas não deve ser seletiva como é. O Procurador Geral da República, Roberto Gurgel, trata crimes iguais de forma diferente. Desmembrou o mensalão tucano e não desmembrou o mensalão do PT; pediu investigação contra Lula no mensalão, mas não pediu investigação contra FHC na privataria tucana. Está sentado sobre vários processos que envolvem políticos da oposição, enquanto agiliza processos contra aliados do governo federal. Que o MP possa cumprir o seu papel contra todos os corruptos e não apenas contra os que não gosta.

Luzes

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Essas domésticas!

Regina de Castro Trigo Mendes Albuquerque e Figueiroa, a Regininha, é uma socialite importante que figura nas páginas amarelas da imprensa brasileira. Ela tem duas amigas íntimas, a Mercedes Manfred Álamo de Baptista Moreira e Thomas, a Mercedes, e Glória Kendrill Radawill Bueno de Alcântara e Azevedo, a Glorinha.

Regininha, Mercedes e Glorinha têm muitas coisas em comum, a começar pelos cinco sobrenomes que revelam suas origens. Herdeiras de fábricas, fazendas, imóveis comerciais e residenciais, elas vivem do suor (e da renda) derramado pelos antepassados que desbravaram a região.

Nunca precisaram trabalhar porque o rendimento das fábricas, fazendas e imóveis garante-lhes uma vida confortavelmente luxuosa. As três amigas poderiam até protagonizar aquele programa espiritualmente edificante da Band, o “Mulheres Ricas”. Claro! como mulheres ricamente herdeiras, elas não se dão ao desfrute ostensivo das novas rich para angariar audiência. A ostentação é íntima e para poucos.

Periodicamente, as três amigas inseparáveis tomam chá e revezam o local do encontro: a cobertura triplex de cada uma delas, naquele bairro de alto padrão, próximo ao coração financeiro da cidade onde moram. Na pauta, amenidades cotidianas regadas a ervas importadas e biscoitos finos.

Nesta semana, as três se reúnem na casa de Regininha, que chegou recentemente de uma viagem à Europa e alguns países da Ásia.

__Celeste, você já pôs a mesa chá?
__Sim senhora, dona Regininha.
__Não se esqueceu do foie gras? Nem do licor de Chambord?
__Não senhora, dona Regininha.


Celeste tem 32 anos e é uma das domésticas de Regininha. Ela é filha da Aparecida, que trabalhou para a família Castro Trigo Mendes Albuquerque e Figueiroa por 42 anos. Aparecida morreu no ano em que conseguiu se aposentar por idade. Celeste mora no emprego e vai para a casa de parentes no domingo, quando é substituída por uma freelancer, a diarista Rita.

__Celeste, não se esqueça das crostini alla siciliana. Eu prometi para as meninas que traria depois da viagem à Itália.
__Sim senhora, dona Regininha.


Celeste arruma o chá da tarde na mesa do solarium, cuja parede envidraçada tem vista para o Parque dos Imigrantes, um dos cartões postais ecológicos da cidade. Mercedes e Glorinha chegam juntas e são recepcionadas pela própria Regininha, ávida para colocar os assuntos em dia. Falam das viagens recentes que fizeram, das aquisições importantes como casacos Louis Vuitton, bolsas Gucci, perfumes Channel e sapatos Prada.

__Meninas, conquistei um Louis Vuitton. Vocês precisam ver, afirma Glorinha.

__Convenhamos queridas, está insuportável viajar de avião. No Brasil hoje qualquer um voa, sentencia Mercedes.
__Eu já falei para vocês, precisamos deixar essas companhias e fazer nossas viagens particulares. Estou regularizando os documentos da minha aeronave, entrega Regininha.

Entre uma fala e outra das conquistas materiais, Regininha toca num assunto que anda afligindo a alta sociedade (e a classe média também). A PEC 72/2012, a PEC das Domésticas.

__Meninas, vocês viram que , agora, a jornada de trabalho tem carga horária definida?

Conforme aprovada no Congresso Nacional, a PEC das Domésticas estende aos empregados os benefícios que são assegurados aos demais trabalhadores.

__As domésticas só poderão trabalhar 44 horas semanais. No máximo oito horas por dia, reclama Glorinha, servida por Celeste com uma xícara de chá da Catalunha.
__A empregada dorme, come no emprego e teremos de pagar hora extra. Se eu quiser comer alguma coisa à noite não poderei pedir para minha colaboradora, reclama também Mercedes, que degusta o foie gras servido por Celeste.
__E o pior é o que ainda vai ser regulamentado, desabafa Regininha.

A regulamentação que deve ser realizada contempla trabalho noturno, concessão de salário família, demissão com multa, seguro desemprego, auxílio creche, seguro contra acidentes de trabalho e Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).

__Decididamente, essa PEC vai aumentar o desemprego. Celeste, por favor, busque mais umas crostinis.
__Sim senhora, dona Regininha.

E assim a tarde passa para Regininha, Mercedes e Glorinha. Entre uma xícara de chá, um cálice de licor Chambord e um crostini ala siciliana, as amigas criticam a PEC das Domésticas, reclamam das medidas econômicas do governo e dizem sentir saudades de outros tempos quando valia a pena ser rico porque havia exclusividade para algumas coisas.

No dia seguinte, uma sexta-feira, Celeste chega para a dona Regininha e pede demissão. Espantada, Regininha não tem reação. Celeste diz que na segunda-feira começa a trabalhar, com carteira assinada, como balconista numa loja de departamentos.

__Dona Regininha, minha vida vai mudar bastante. Além de trabalhar na loja, vou estudar à noite porque consegui uma bolsa do Prouni para fazer Pedagogia, que era o sonho da minha mãe e meu também.

Celeste vai morar na casa de uma tia, trabalhar durante o dia e estudar à noite. A vida de Celeste vai mudar muito. E pelo visto a vida de Regina de Castro Trigo Mendes Albuquerque e Figueiroa, Mercedes Manfred Álamo de Baptista Moreira e Thomas, Glória Kendrill Radawill Bueno de Alcântara e Azevedo também.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Bolsa-Socorro-Empresário

Notinha de hoje (04/04) da colunista do conservador diário Estadão - Dora Kramer - cujos textos são reproduzidos por muitos jornais regionais Brasil afora, é reveladora.

“Nem pensar
A presidente Dilma Rousseff ouviu, e negou socorro do governo ao empresário Eike Batista. Da reunião-apelo participaram representantes do BNDES, Itaú, Bradesco, BGT-Pactual e o próprio Eike, em dificuldades para honrar as dívidas com todos eles. Dilma ainda alertou que, se algo de pior vier a acontecer aos negócios do empresário símbolo (pelo jeito com pés de barro) da prosperidade nacional, isso afetará ainda mais a disposição interna e externa do setor privado para investir no Brasil.”


O temor é que o empresário Eike Batista não consiga honrar seus compromissos. Os credores de Batista andam atormentados com essa possibilidade. Tanto que representantes de bancos privados – como Bradesco e Itaú - participaram de reunião com a presidenta. Além disso, os empréstimos do BNDES ao empresário chegam a R$ 10 bilhões.

Segundo o jornal Valor Econômico, a Standard & Poor’s, empresa que pesquisa e analisa valores e títulos na Bolsa de Valores, “rebaixou a nota de crédito da OGX [empresa de Eike Batista] de B para B-“. Na prática, isso significa queda no poder da empresa de Eike Batista de pagar suas dívidas. O risco Eike Batista pode contaminar toda a economia brasileira.

Conforme o Valor, “segundo a agência, o principal fator por trás do rebaixamento foi o desempenho operacional pior que o esperado no ano passado. A principal frustração veio com a produção e a produtividade por poço abaixo do esperado.” De forma mais explícita é que Eike prometeu muitos empreendimentos que não vão dar o retorno prometido.

Essa situação suscita algumas considerações sobre o modelo de desenvolvimento apoiado na promessa de lucro fácil.

1) O empresário neoliberal, aquele que não quer que o estado regule o mercado, deixa essa condição quando tem prejuízo e recorre ao Bolsa-Socorro-Empresário. Para esses, o estado não deve se meter quando o mercado lucra, apenas quando tem prejuízo.

2) Muitos empresários e investidores são contra os programas de transferência de renda. Para os pobres. Regar dinheiro público nas empresas de Eike Batista não é uma forma de transferência de recurso público?

3) Bancos privados não querem perder seus lucros e pressionam o governo para despejar dinheiro nas empresas de Batista, para que possam receber seus empréstimos.

4) O mundo das ações e das bolsas de valores é construído sobre um terreno pantanoso: o investimento especulativo. Quando uma grande empresa ou banco quebra, arrasta junto a economia de um país, quando não do mundo todo.

5) Muitas vezes, o mercado vende a imagem de uma eficiência que não tem. A publicidade é realmente a alma do negócio, mesmo que o negócio seja instável.

6) O sistema capitalista do jeito que se apresenta – alta concentração de ricos e pobres – mostra-se incapaz de resolver questões básicas da maioria da população.

7) Qual o melhor modelo de desenvolvimento de uma nação? Qual o papel do estado nesse desenvolvimento? Quais os limites da relação ente estado e mercado? Enfim, esse é um tema com muitas perguntas, cujas respostas não agradam muita gente.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Menores e sistema carcerário

Alguns grupos organizaram campanhas em defesa da redução da maioridade de penal. Uns pedem prisão para maiores de 16. Outros para maiores de 14 anos. Tem até quem defende cadeia para maiores de 12 anos. 

A população carcerária no Brasil, conforme números do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), em 2011, era de 514.582 pessoas. Esse número aumentou para 549.577, no primeiro semestre de 2012, um aumento de quase 7%. Ou seja, a atual população carcerária no Brasil, uma das maiores de mundo, é superior a 550 mil pessoas.

O número de presos equivale à população de algumas cidades inteiras, como Londrina (506.645), Jataizinho (11.859), Assaí (16.368), Jaguapitã (12.256) e Prado Ferreira (3.434). O sistema carcerário do Brasil é o terceiro maior do mundo. Em termos de encarceramento, o país não deve aos Estados Unidos, o primeiro do ranking.

O tema propõe algumas reflexões pertinentes.

1) Prisão é consequência do crime, que é consequência de várias causas, como a desigualdade social, que nossa ilustríssima sociedade prefere não enxergar.

2) É preciso investir na prevenção ao crime. O que vem depois dele é mera consequência. Para uns mais dolorosa que para outros.

3) Campanhas pela redução da maioridade penal ganham força depois de notícias de crimes que envolvem menores, como se a prisão fosse o único método de combate ao aumento da violência. 

4) Muitos que pedem justiça em casos de grande notoriedade, pela vítima morar ou trabalhar na região central de uma cidade, são os mesmos que se calam com a violência perpetuada contra pobres na periferia. 

5) Se o crime usa adolescentes, mesmo com a redução da maioridade penal, eles continuarão sendo usados. Cada vez mais cedo.

6) A política do encarceramento mostra-se um eficiente instrumento de formação de criminosos. As organizações do crime, em presídios, parecem mais eficazes que o estado.

7) A justiça não é acessível a todos. Quem tem dinheiro, pode mais. O pobre consegue se defender igualmente ao rico? Imagine aos 16, aos 14, aos 12...

8) A maioridade penal é um detalhe no sistema de justiça de um país que inclui várias etapas como acusação, defesa, julgamento, condenação, cumprimento da pena e reinserção social. Todas essas etapas funcionam mesmo?

9) O sistema carcerário atual não dá conta de devolver, decentemente, o preso que cumpriu sua pena e está em dia com a sociedade.

10) Presidiário será sempre condenado, mesmo tendo cumprido sua pena. As chances de voltar ao crime são grandes.

A pena de encarceramento confere uma sensação de justiça aos envolvidos, mas definitivamente não elimina a violência de uma sociedade, cujas causas são mais antigas e mais profundas do que gostaríamos. 

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Mentira e mentirosos

1º de Abril como o Dia da Mentira tem várias explicações para a sua origem. De qualquer forma, o dia da mentira dá um ar oficial ao que muitos fazem, sem ruborizar, nos outros 364 dias do ano. E o pior, sem culpa nem remorso.

As pessoas mentem por vários motivos. Uns por medo. Outros por pressão. Uns por comodidade. Outros por sobrevivência. Uns por conveniência. Outros por maledicência.  E muitos... por tudo isso junto. O fato é que mentir faz parte da natureza humana.

Justificamos, explicamos e sustentamos nossas mentiras. Por que? A verdade geralmente incomoda e machuca. O ego. Então mentimos para amenizar as situações desconfortáveis e nos sentirmos melhor, principalmente, diante dos problemas.

Por que mentimos para alguém da família em caso de doença grave?
Por que mentimos para amigos próximos ou desconhecidos distantes?
Por que mentimos em casa, no trabalho, no lazer?


Mentimos como estratégia de sobrevivência.
Mentimos como estratégia de condescendência.
Mentimos como estratégia de manutenção do poder.


A verdade pode doer, mas a mentira desmascarada dói ainda mais.