sexta-feira, 5 de abril de 2013

Essas domésticas!

Regina de Castro Trigo Mendes Albuquerque e Figueiroa, a Regininha, é uma socialite importante que figura nas páginas amarelas da imprensa brasileira. Ela tem duas amigas íntimas, a Mercedes Manfred Álamo de Baptista Moreira e Thomas, a Mercedes, e Glória Kendrill Radawill Bueno de Alcântara e Azevedo, a Glorinha.

Regininha, Mercedes e Glorinha têm muitas coisas em comum, a começar pelos cinco sobrenomes que revelam suas origens. Herdeiras de fábricas, fazendas, imóveis comerciais e residenciais, elas vivem do suor (e da renda) derramado pelos antepassados que desbravaram a região.

Nunca precisaram trabalhar porque o rendimento das fábricas, fazendas e imóveis garante-lhes uma vida confortavelmente luxuosa. As três amigas poderiam até protagonizar aquele programa espiritualmente edificante da Band, o “Mulheres Ricas”. Claro! como mulheres ricamente herdeiras, elas não se dão ao desfrute ostensivo das novas rich para angariar audiência. A ostentação é íntima e para poucos.

Periodicamente, as três amigas inseparáveis tomam chá e revezam o local do encontro: a cobertura triplex de cada uma delas, naquele bairro de alto padrão, próximo ao coração financeiro da cidade onde moram. Na pauta, amenidades cotidianas regadas a ervas importadas e biscoitos finos.

Nesta semana, as três se reúnem na casa de Regininha, que chegou recentemente de uma viagem à Europa e alguns países da Ásia.

__Celeste, você já pôs a mesa chá?
__Sim senhora, dona Regininha.
__Não se esqueceu do foie gras? Nem do licor de Chambord?
__Não senhora, dona Regininha.


Celeste tem 32 anos e é uma das domésticas de Regininha. Ela é filha da Aparecida, que trabalhou para a família Castro Trigo Mendes Albuquerque e Figueiroa por 42 anos. Aparecida morreu no ano em que conseguiu se aposentar por idade. Celeste mora no emprego e vai para a casa de parentes no domingo, quando é substituída por uma freelancer, a diarista Rita.

__Celeste, não se esqueça das crostini alla siciliana. Eu prometi para as meninas que traria depois da viagem à Itália.
__Sim senhora, dona Regininha.


Celeste arruma o chá da tarde na mesa do solarium, cuja parede envidraçada tem vista para o Parque dos Imigrantes, um dos cartões postais ecológicos da cidade. Mercedes e Glorinha chegam juntas e são recepcionadas pela própria Regininha, ávida para colocar os assuntos em dia. Falam das viagens recentes que fizeram, das aquisições importantes como casacos Louis Vuitton, bolsas Gucci, perfumes Channel e sapatos Prada.

__Meninas, conquistei um Louis Vuitton. Vocês precisam ver, afirma Glorinha.

__Convenhamos queridas, está insuportável viajar de avião. No Brasil hoje qualquer um voa, sentencia Mercedes.
__Eu já falei para vocês, precisamos deixar essas companhias e fazer nossas viagens particulares. Estou regularizando os documentos da minha aeronave, entrega Regininha.

Entre uma fala e outra das conquistas materiais, Regininha toca num assunto que anda afligindo a alta sociedade (e a classe média também). A PEC 72/2012, a PEC das Domésticas.

__Meninas, vocês viram que , agora, a jornada de trabalho tem carga horária definida?

Conforme aprovada no Congresso Nacional, a PEC das Domésticas estende aos empregados os benefícios que são assegurados aos demais trabalhadores.

__As domésticas só poderão trabalhar 44 horas semanais. No máximo oito horas por dia, reclama Glorinha, servida por Celeste com uma xícara de chá da Catalunha.
__A empregada dorme, come no emprego e teremos de pagar hora extra. Se eu quiser comer alguma coisa à noite não poderei pedir para minha colaboradora, reclama também Mercedes, que degusta o foie gras servido por Celeste.
__E o pior é o que ainda vai ser regulamentado, desabafa Regininha.

A regulamentação que deve ser realizada contempla trabalho noturno, concessão de salário família, demissão com multa, seguro desemprego, auxílio creche, seguro contra acidentes de trabalho e Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).

__Decididamente, essa PEC vai aumentar o desemprego. Celeste, por favor, busque mais umas crostinis.
__Sim senhora, dona Regininha.

E assim a tarde passa para Regininha, Mercedes e Glorinha. Entre uma xícara de chá, um cálice de licor Chambord e um crostini ala siciliana, as amigas criticam a PEC das Domésticas, reclamam das medidas econômicas do governo e dizem sentir saudades de outros tempos quando valia a pena ser rico porque havia exclusividade para algumas coisas.

No dia seguinte, uma sexta-feira, Celeste chega para a dona Regininha e pede demissão. Espantada, Regininha não tem reação. Celeste diz que na segunda-feira começa a trabalhar, com carteira assinada, como balconista numa loja de departamentos.

__Dona Regininha, minha vida vai mudar bastante. Além de trabalhar na loja, vou estudar à noite porque consegui uma bolsa do Prouni para fazer Pedagogia, que era o sonho da minha mãe e meu também.

Celeste vai morar na casa de uma tia, trabalhar durante o dia e estudar à noite. A vida de Celeste vai mudar muito. E pelo visto a vida de Regina de Castro Trigo Mendes Albuquerque e Figueiroa, Mercedes Manfred Álamo de Baptista Moreira e Thomas, Glória Kendrill Radawill Bueno de Alcântara e Azevedo também.

Um comentário:

Lorena disse...

Muito bom, Rei...rsrs bjs