segunda-feira, 29 de abril de 2013

Marcas da vida

Os dicionários da Língua Portuguesa dão um sentido negativo à cicatriz. "1 Marca, sinal ou vestígio que fica das feridas e chagas, depois de curadas. 2 Sinal ou vestígio de estrago ou de destruição. 3 Impressão duradoura de uma ofensa ou desgraça. 4 Lembrança dolorosa." 

As cicatrizes são marcas da vida e ajudam a definir quem somos atualmente. Elas não precisam necessariamente cumprir um papel negativo e, mesmo vindo de algo doloroso de um dado momento, pode avivar lembranças boas e, até mesmo, inocentes.

A cicatriz que tenho em cima do pé direito, conseguida ao me enroscar num fio de arame farpado - que um dia segurou uma cerca - que estava enterrado na areia do leito do corguinho, traz-me recordações de como minha infância foi saudável.

Era uma época de muitos primos e primas porque as famílias eram grandes. No sítio, todos brincavam e soltavam a imaginação com brincadeiras de faz de conta, sem brinquedo de apoio. Ninguém tinha vídeo game e televisão era com hora marcada. No máximo, assistíamos, juntos, o Globinho e depois O Sítio do Pica Pau Amarelo, com a primeira Cuca e a primeira Emília.

As represas, ah as represas - sonho da molecada no final de semana e o terror das mães. Só descíamos se algum adulto fosse junto. Hoje se ficasse em pé numa delas, no máximo a água chegaria na cintura. Mas eram fundas, traiçoeiras, mortíferas. Terríveis aquelas represas.

Para aplacar o perigo delas, cujas mães endoidavam, improvisávamos - no corguinho de água no tornozelo - uma barragem. Sacos plásticos faziam uma mureta para conter a água que nunca era muita. Os sacos de areia cediam antes do terceiro pulo da molecada.

Subir em árvore e ficar contando histórias. Comer frutas do pé. Manga, jaca, pinha, maracujá, goiaba. As mangas epidêmicas eram a rosinha. Em cada canto uma árvore. A espada era mais saborosa e disputada quase a tapa porque existiam poucos pés. E a bourbon? Uma lenda. O único pé na beira da estrada era seletivo. Dava no ano em que queria.

Goiaba era uma praga. Da vermelha e da branca. Espalhada por todo o sítio. Uma árvore inconfundível. A goiaba, com suas cores e cheiro, tem personalidade num pé também com identidade. Dependendo do ano, a fruta vivia bichada. O problema não era encontrar um bigato na goiaba. Era encontrar meio bigato.

Hoje, a cicatriz em cima do pé direito é apenas uma marca que fica cada vez mais discreta. E essa marca cede seu lugar à outra, ainda fresca. A cicatriz no meio do peito, que surgiu para a troca de uma válvula cardíaca, a mitral. O coração restaurado agradece sempre a cicatriz.

Essa marca, que causa estranheza, é motivo de felicidade diária. Ela lembra-me todos os dias de que estou muito bem vivo. Essa não é uma cicatriz qualquer, é uma marca definitiva e significativa.

Essa marca representa o sucesso da cirurgia.
Essa marca representa o carinho da família e dos amigos.
Essa marca representa uma segunda chance.
Essa marca representa a vida.
E isso não é pouco.

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