quarta-feira, 29 de maio de 2013

Dias secos e dias molhados

O tempo seco com baixa umidade do ar causa problemas respiratórios, que entopem os serviços de saúde e as farmácias pelos adeptos da automedicação. Um antiisso aqui. Um antiaquilo ali. E a vida segue, com uns respirando melhor que outros.

Roberto conhece bem as dificuldades do tempo seco, com baixa umidade. Para ele, o ar fica ainda mais saturado por causa dos escapamentos do cruzamento onde costuma buscar a sobrevivência. Mesmo assim, ele não sofre com as vias aéreas superiores. Seu problema de saúde é na coluna. Suas dores inviabilizaram o trabalho como operador de máquinas. Perdeu o emprego. Perdeu a casa. Perdeu a família.

No cruzamento favorito, os motoristas dão algumas moedas. Moedas com gosto. Moedas a contragosto. Moedas não dadas. Ele não reclama. Agradece com sinceridade, inclusive os motoristas que lhe fecham o vidro na cara, com apenas um toque do indicador esquerdo. __Tenha uma boa quarta-feira.

Mesmo sem sintomas de problemas respiratórios, Roberto acredita que a situação está pior. O ar seco está mais seco. A umidade cada vez mais baixa. E as reclamações mais frequentes. Até no carro, muitos motoristas reclamam. Alguns, com o vidro arriado, praguejam a falta de chuva. Há 45 dias não chove na cidade.

Mas a previsão do tempo promete melhorar as condições climáticas. Está prevista muita chuva para o final de semana. E a chuva, para variar, desmente a previsão e chega antes. A primeira se mistura ao pó, mais suja do que limpa. A segunda varre a sujeira para as bocas de lobo. A intensidade aumenta. A terceira passa por cima dos bueiros e transborda os cruzamentos.

Roberto, com as roupas encharcadas e os sapatos inundados, tenta se proteger sob um toldo improvisado de papelão. Ele contempla a água que escorre pela rua, formando pequenos lagos nos buracos do asfalto, correntezas esguias causadas pelo desnível da rua, barragens de borrachudos transpostas pela insistência da corredeira.

Do seu toldo de papelão, o homem acompanha com os olhos, nos lagos, nas correntezas e nas barragens da rua, o desfile de papéis de bala, o ballet das latinhas de refrigerante, a dança das sacolas de supermercado. Os rodopios do lixo na água do asfalto provoca as lembranças do ex-operador de máquinas. A ex-mulher que o deixou. Os filhos que o abandonaram. Os amigos que o trocaram por outros.

Roberto não percebe, mas os mesmos motoristas que outrora praguejavam o tempo seco, agora xingam a chuva. Reclamam da interdição da rua por causa da árvore caída. Queixam-se das vias congestionadas. Murmuram contra os acidentes causados pela pressa e negligência de outros motoristas.

Alheio a tudo, Roberto vive o momento das chuvas como viveu o momento da falta delas. Seus dias são secos ou molhados. E assim ele toca a vida submetido à vontade apenas da sua própria existência, que não o consulta sobre os acontecimentos. Ele cansou de formar expectativas que passaram por ele, como os papéis de bala, as latinhas de refrigerante e as sacolas de supermercado. Tudo levado pela água de uma chuva forte.

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