terça-feira, 14 de maio de 2013

Médicos e medicina

A polêmica está instalada com a possibilidade de o governo federal trazer médicos cubanos para atuar em áreas nas quais os médicos brasileiros não querem trabalhar.

A decisão, por enquanto apenas uma intenção, incomoda e muito. Incomoda porque a medida pode fazer rever, em longo prazo, a relação médico-paciente e o papel do governo no fortalecimento do próprio SUS, que sofre diariamente com a falta de investimento, infraestrutura entre outros problemas. 

Os médicos cubanos no Brasil incomodam muito.

Incomodam entidades como o Conselho Federal de Medicina (CFM), que não defendem a saúde pública, mas seus interesses corporativos. Afinal, se a saúde pública der certo, muitos médicos perdem seus ganhos.

Incomodam a indústria da doença, que vive do diagnóstico e do tratamento baseado em equipamentos. Afinal, se problemas de saúde forem prevenidos, como vão sobreviver os que ganham dinheiro com a doença alheia, detectada por equipamentos modernos?

Incomodam a indústria farmacêutica que mantem relações carnais com profissionais da medicina para que indiquem seus santos remédios. Afinal, se a medicina cubana é baseada na prevenção, os remédios - muitas vezes - tornam-se desnecessários. 

Incomodam a oposição que, como oposição (e o PT foi muito tempo assim), aposta na desgraça para alavancar seus projetos políticos-ideológicos.

Incomodam a medicina de grupo, que nada nas águas das especialidades. Quanto menos resolutiva a atenção básica, mais ganham os serviços de especialistas. Afinal, conforme estatísticas da área de saúde, 80% dos problemas de saúde de uma população são resolvidos na atenção básica,
ou seja, nos postinhos de saúde e serviços de referência. Se esses funcionassem como deveriam... 

Incomodam as escolas de medicina Brasil afora, públicas e particulares, cujos modelos atraem apenas a elite, mesmo com cotas ou Prouni ou Fies. Que tipo de médicos, o país forma? Quais as condições da saúde pública para absorver dignamente esses profissionais? Qual o papel dos convênios na tal complementariedade do sistema, previsto na Constituição Federal, que criou o SUS?

O debate é longo, necessário e pode favorecer a população usuária dos serviços públicos de saúde. Como se vê, a vinda dos médicos cubanos para o Brasil, mesmo se não for concretizada, já prestou um grande serviço à nação.

Um comentário:

Marlene Zucoli disse...

Concordo com você Reinaldo, mas quero ressaltar a alta complexidade da atenção básica. Nesse campo o foco primeiro é o saber dos diferentes profissionais que se completa com a tecnologia das máquinas. É possível atende na atenção básica com qualidade, prestar um atendimento de excelência, mas para isso é preciso investir tempo em olhar para a pessoa, realizar uma boa entrevista, realizar um bom exame físico e utilizar em primeiro lugar de todo "saber intrínseco da profissão". Os grandes profissionais "sabem" muito bem disso.A atenção básica envolve aspectos tecnológicos muito complexos como comportamento humano, diversidade cultural/familiar, problemas sociais. Ela precisa de um "olhar cuidador e de escuta" da pessoa e nesse contexto identificar o problema de saúde. O serviço, por sua vez, precisa disponibilizar recursos estruturais e de capacitação. Ocorre que é necessário um grande investimento do poder público, que começa no enfrentamento político dos interesses comerciais na saúde. Um exemplo disso é a manifestação da categoria médica ao ver uma ação concreta, com a introdução no Brasil de profissionais formados para realizar atenção básica. As corporação sabem que a médio prazo a atenção básica estruturada, com os recursos tecnológicos realmente necessário, pode vai refletir positivamente na saúde da população.