quinta-feira, 9 de maio de 2013

Piloto de fogão e tanque

O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, o Conar, tem recebido dezenas de reclamações de uma peça publicitária da Bombril. Os reclamantes alegam que a campanha é sexista porque discriminam os homens. É verdade! As reclamações partem deles.

Na peça, o garoto Bombril pergunta se o telespectador sabe quantos tipos de produtos a marca fabrica. As atrizes Dani Calabresa e Monica Iozzi passam, então, a ditar um a um os produtos, que vão de detergente a amaciante; esponja a tira-mofo; de tira mancha a água sanitária; de lustra-móveis a repelentes.

Enquanto as duas recitam os tipos de produtos, o garoto Bombril faz as caras e as bocas do abestalhado de sempre. Ao final, ele diz que tudo o que as outras empresas fazem, a Bombril também faz, porém um “pouquinho melhor”. Essa é a deixa para que as atrizes afirmem que é igual às mulheres. Sim, elas dizem que tudo o que os homens fazem, as mulheres também fazem, mas um “pouquinho melhor”.

O anúncio da Bombril pode levantar discussões acaloradas sobre sexismo e questões de gênero, chegando ao Conar, mas não parece que a peça promove a discriminação contra os homens. Pelo contrário, se analisarmos por outro ângulo veremos que a marca continua sendo preconceituosa contra as próprias mulheres, simplesmente porque as mantém na área de serviço.

Os homens até podem cuidar da casa e muitos, realmente, cuidam, mas pela peça da Bombril é a mulher que ainda é a rainha do lar. O figurino de Dani Calabresa e Monica Iozzi, o terninho, sugere que a mulher dominou o mercado de trabalho, é moderna e emancipada, mas continua reinando no universo doméstico, sendo responsável pela manutenção - entenda-se por isso limpeza - da casa.

A peça da Bombril pode dar um ar de superioridade às mulheres quando desqualifica os homens, dizendo que elas fazem tudo o que eles fazem, porém um pouquinho melhor. Mas essa é uma análise superficial. Se formos mais a fundo, veremos que a Bombril mantém a mulher no anúncio, especialista em produtos de limpeza, presa ao fogão e ao tanque. Nada que a realidade da maioria das casas desminta.

Um comentário:

Tatiana Oliveira disse...

Com certeza, Reinaldo! É a insistente imagem distorcida da emancipação feminina, camuflada no acúmulo de funções e na domesticação de uma mulher ‘faz tudo’.