quarta-feira, 12 de junho de 2013

Autoridade fala como autoridade

"Estou há 2 horas tentando voltar para casa mas tem um bando de bugios revoltados parando a avenida Faria Lima e a Marginal Pinheiros. Por favor, alguém poderia avisar a Tropa de Choque que essa região faz parte do meu Tribunal do Júri e que se eles matarem esses filhos da puta eu arquivarei o inquérito policial. Petistas de merda. Filhos da puta. Vão fazer protesto na puta que os pariu... Que saudades da época em que esse tipo de coisa era resolvida com borrachada nas costas dos medras..."

 As declarações são do promotor público Rogério Zagallo, na semana passada, em sua conta no Facebook. O promotor reagiu dessa forma por causa de protestos promovidos pelo Movimento Passe Livre, contrário ao aumento da tarifa do transporte público em São Paulo. 
 

"A debilidade mais grave do Congresso brasileiro é que ele é inteiramente dominado pelo Poder Executivo. (...) O Congresso não foi criado para única e exclusivamente deliberar sobre o Poder Executivo. Cabe a ele a iniciativa da lei. Temos um órgão de representação que não exerce em sua plenitude o poder que a Constituição lhe atribui, que é o poder de legislar. (...) Nós temos partidos de mentirinha. Nós não nos identificamos com os partidos que nos representam no Congresso, a não ser em casos excepcionais. Eu diria que o grosso dos brasileiros não vê consistência ideológica e programática em nenhum dos partidos."
 
As opiniões agressivas – que podem ser considerados ataques – sobre o Congresso Nacional, os partidos políticos e a política brasileira, são do presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, durante palestra no dia 20 de maio, em faculdade de Brasília. 
  
Preocupado com a repercussão das declarações, o promotor público Rogério Zagallo disse que não falava enquanto representante do Ministério Público, mas como cidadão que teve o direito de ir e vir afetado por causa da manifestação contra o aumento da tarifa. Explicação dada. Não cola.
 
Preocupado com a repercussão? Joaquim Barbosa, por meio de sua assessoria, disse a fala foi feita em “um exercício intelectual feito em um ambiente acadêmico e teve como objetivo traçar um panorama das atividades dos três Poderes da República ao longo da nossa história republicana. Justificativa dada. Não cola.
 
O significado de autoridade, segundo Dicionários da Língua Portuguesa, comporta conteúdo expressivo: agente ou delegado do poder público; pessoa que tem reputação de grande conhecimento em determinado assunto; direito ou poder de mandar; influência intelectual, prestígio, crédito, renome. Neste sentido, promotor público e presidente do STF encaixam-se perfeitamente nas descrições.
 
Quando os rogérios e os joaquins abrem a boca não falam senão como as autoridades que são. Portanto, que aprendam a conviver com as responsabilidades e as funções dos cargos que ocupam. E se fossem meros cidadãos – mesmo assim – teriam de tomar cuidado com as palavras. Se autoridade não fala como cidadão, gente comum também não pode cometer crimes através da língua.
 
Lembram-se da estudante Mayara Petruso – uma reles mortal – que postou mensagens preconceituosas contra nordestinos nas eleições presidenciais de 2010? Depois que a petista Dilma Rousseff venceu, com grande diferença no Nordeste, o tucano José Serra, a estudante escreveu no Twitter: “Nordestino não é gente. Faça um favor a SP: mate um nordestino afogado”. 
  
A estudante foi condenada pela Justiça Federal de São Paulo, a um ano, cinco meses e 15 dias de reclusão. A pena foi transformada em prestação de serviço comunitário e pagamento de multa.
 
A internet transformou gente comum em protagonista, deixando para trás o anonimato. Ela também lançou as autoridades um degrau acima dos mortais. Exatamente por causa do poder de repercussão que a web tem. A palavra tem poder e quem tem o poder da palavra deve cuidar bem do que diz.

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