domingo, 30 de junho de 2013

Ecos de junho

As manifestações de junho ganharam as ruas brasileiras. O pavio aceso foi o da redução das tarifas do transporte coletivo em São Paulo. A truculência da política militar do tucano Geraldo Alckmin fez com que os protestos ecoassem Brasil afora. Junto à pauta do transporte coletivo, reivindicações de toda a ordem. Acreditem vocês até por mudanças no sistema político.

A grande imprensa, que inicialmente atacou os manifestantes - Arnaldo Jabor disse o que a maioria dos veículos queria dizer - viu a possibilidade de incutir nos manifestos seus próprios desejos. De inimiga, a imprensa passou a ser incentivadora. E quanto mais pancada no governo Dilma, melhor. Não se enganem os incautos. Não existe inocência quando se trata de política e de seus apoiadores. 

Dilma, inicialmente, foi acusada de omissão. Fez o primeiro discurso e continuou sendo acusada. Disse nada. Propôs nada. Fez nada. E a oposição fez o seu papel de oposição. Atacou. Atacou. E atacou. Um certo instituto de pesquisa foi à avenida (Paulista) para medir os ânimos dos eleitores. Época bastante propícia para detonar os adversários e tentar alçar os aliados. 

Joaquim Barbosa, o herói de uma parte do Brasil dividido, venceria até Marina Silva, a que deixou o PT, foi para o PV e agora equilibra-se numa tal de Rede, sempre com apoio do grande empresariado. Um dos donos da Natura foi seu candidato a vice-presidente em 2010 e, hoje, uma grande apoiadora da ex-vermelha, ex-verde, atual não-sei-o-que, é a herdeira do Banco Itaú.

Dilma não aparece entre os favoritos. Vive um inferno astral sem precedentes, de deixar formador de opinião sem opinião. Tendo batido todos os recordes de aprovação dos presidentes desde a redemocratização do país em 1985, despencou de 60 e poucos % de ótimo e bom, em março deste ano, para 30%. Essa não se reelege mais. A comemoração vem daquela parte do Brasil dividido.

E essa parte tem nome e sobrenome: Classe Média. Em 17 de junho escrevi sobre o tema e arrisquei a dizer que a grande massa era exatamente a que fica no meio da pirâmide dos beneficiados pelas políticas públicas; as de transferência de renda para os pobres com suas bolsas e as de desenvolvimento econômico para os ricos, via recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.

"E no meio a classe média. Essa paga imposto para financiar a educação e a saúde públicas e, como as vagas não são suficientes para atender toda a demanda, mantém filho na escola privada e plano para a própria saúde. Linhas de financiamento, por exemplo, para a casa própria existem, mas as taxas não são tão atraentes quanto as disponibilizadas para quem está na parte inferior da pirâmide. 

Se no início estava confuso, agora não está mais. As ruas foram tomadas principalmente pelo segmento da classe média, num esforço por mudanças. Diga-se um esforço legítimo. Ao mesmo tempo que é legítimo, também é contraditório. Sim, porque esse mesmo movimento também prega política sem políticos e partidos; estado mínimo com avanço das políticas públicas; menos impostos e mais serviços.

Pois bem, a classe média pediu mudanças e a presidente Dilma respondeu com a proposta do plebiscito, inicialmente com uma Constituinte para elaborar o projeto da Reforma Política. Ao que tudo indica, a presidente recuou da Constituinte, mas não abre mão da consulta popular. Dilma é acusada mais uma vez. Agora de usar as ruas para propor algo que pode levar ao totalitarismo. 

Os contrários ao plebiscito, que serviria para orientar o projeto da Reforma Política, querem um referendo. E o que é isso? O Congresso Nacional, a quem cabe elaborar leis, ficaria responsável por fazer as regras e submeteria seu texto à aprovação popular, ou seja, ao referendo. Essa proposta ganha força, a cada dia, entre os partidos da oposição - a tríade DEM/PSDB/PPS - e recebe louros inclusive em editoriais dos grandes jornalões.

O Congresso Nacional, ou seja, os políticos de sempre, quer para si o direito e o dever de reformar todo o sistema político-eleitoral brasileiro. É isso aí, o mesmo Congresso que está sentado sobre o projeto da reforma há várias décadas. Sim, os políticos querem mudança, desde que eles possam dizer quais, como, onde e quando. 

O jornalista Antonio Martins lista em sua conta no Twitter cinco perguntas perigosas que podem ser feitas ao povo num plebiscito e que, naturalmente, apavoram os mandatários atuais, principalmente, deputados federais e estaduais, senadores e vereadores, que parecem vitalícios em seus cargos. 

1. Você concorda que as empresas devem ser proibidas de financiar políticos e partidos?

2. Você considera que a Lei 9.709 deve ser alterada, de modo a facilitar a convocação de Plebiscitos e Referendos (inclusive por iniciativa dos cidadãos), e a ampliar os mecanismos de democracia direta, inclusive por meio da Internet?

3. Você é a favor de limitar as reeleições, para todos os postos dos poderes Executivo e Legislativo a dois mandatos?

4. Você considera que as eleições brasileiras, para os poderes Executivo e Legislativo, devem admitir candidaturas de pessoas não ligadas a partidos políticos?

5. Você concorda com a convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte voltada para a reforma do sistema político?


As manifestações no país devem exigir sim políticos e políticas melhores, mas não será despolitizando o debate que o Brasil vai alcançar esse objetivo. Ao final do texto, referenciado acima, eu escrevi que o "projeto político que conseguir captar esse momento convulsivo e traduzir isso em mudanças reais - e não somente promessas - poderá ter um apoio expressivo nas urnas em 2014."

Isso mesmo, nas eleições do ano que vem tudo pode acontecer. Pela convulsão das ruas, hoje não há um nome super favorito entre os que estão em campanha nos bastidores. Todos os políticos e partidos perderam. Uns mais outros menos. Dilma despencou, mas Aécio não foi catapultado. Eduardo Campos continua tendo o que sempre teve: pouca coisa. E Marina não teve crescimento significativo. Por isso continua a máxima de que governo é governo e campanha é campanha. Por isso mesmo os ecos de junho de 2013 serão ouvidos ainda por um bom tempo.

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