segunda-feira, 17 de junho de 2013

Protestos e projetos políticos

Toda manifestação é política e traz, em sua essência, princípios ideológicos. Relegar esse processo a uma questão meramente técnica é desconsiderar a importância de se fazer política e lutar por melhorias. Os protestos na cidade de São Paulo que começaram por causa do aumento de 20 centavos na tarifa do ônibus cresceram e, pelo visto, nem os organizadores sabem agora pelo que lutam os milhares de manifestantes.

Isso mesmo. Lutar por melhoria na educação, querer um SUS melhor, lutar pelo fim da corrupção de políticos e cidadãos aproveitadores são bandeiras justas e necessárias. No entanto, para que as mudanças sejam efetivadas as cobranças têm de ser endereçadas. Não basta ter o remetente. Sem destinatário, as reivindicações vão se perder nas boas intenções das ruas e avenidas tomadas.

E ainda sobre protesto, é legítima a manifestação dos contrários à realização da Copa do Mundo no Brasil, assim como é legítimo o governo federal ter pleiteado a realização dos jogos e, agora, cumprir o cronograma de obras para a realização do campeonato. Se a idoneidade na execução dos empreendimentos é questionável, que a sociedade se organize para participar da fiscalização do cumprimento do programa. Parar tudo neste momento é jogar bilhões de recursos públicos que já foram investidos nas cidades sedes.

Os indicadores sociais dos últimos 10 anos mostram que os mais pobres melhoraram de vida. A ascensão da tal classe C e a melhoria do rendimento escolar dos alunos que têm bolsa família são apenas dois exemplos. No entanto, há um fenômeno não captado pelos partidos e projetos políticos. A classe média de sempre sente-se órfã das políticas públicas. Esse segmento pode ser definido como aquele que paga na fonte os impostos que serão destinados aos programas de transferência de renda e os grandes investimentos para o empresariado no dito setor produtivo.

Isso mesmo, a classe média não é rica e também não é pobre e vê o dinheiro público – aos bilhões – ser destinado aos extremos da pirâmide social. Numa ponta, pobres têm “Minha Casa Minha Vida”, na outra, empresários e industriais têm linhas de financiamento específicas para suas atividades pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Isso sem contar, que prefeituras e estados costumam doar terrenos e isentar de impostos o empresariado por algumas décadas.

E no meio a classe média. Essa paga imposto para financiar a educação e a saúde públicas e, como as vagas não são suficientes para atender toda a demanda, mantém filho na escola privada e plano para a própria saúde. Linhas de financiamento, por exemplo, para a casa própria existem, mas as taxas não são tão atraentes quanto as disponibilizadas para quem está na parte inferior da pirâmide.

Essa realidade, aqui traçada sem grande aprofundamento, revela o desgosto que esse segmento tem por se sentir abandonado pelos projetos políticos. Talvez isso explique a quantidade de gente bem vestida e bem nutrida (como assinalaram preconceituosamente alguns colunistas conservadores) que protestavam contra o aumento da tarifa do ônibus na capital paulista, para tirar desses o direito ao protesto.

A sensação de abandono da classe média, que também paga a conta da corrupção e da transferência de renda, é legítimo e pode explicar – em parte – os movimentos da semana passada que foram reprimidos com violência policial e ignorância política. Agora não são apenas os 20 centavos que estão em jogo. É um sentimento de abandono que pode sim se alastrar para outros segmentos.

O fato de 2013 ser um ano pré-eleitoral pode complicar ainda mais esse cenário, visto que as forças políticas – sejam da oposição sejam do governo sejam da base aliada infiel do governo – também se movimentam de olho nas Eleições do ano que vem. Portanto, o projeto político que conseguir captar esse momento convulsivo e traduzir isso em mudanças reais - e não somente promessas - poderá ter um apoio expressivo nas urnas em 2014.

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