quarta-feira, 31 de julho de 2013

De herói a vilão

Joaquim Barbosa apanha atualmente, menos por ser negro, mais porque pode tirar da corrida presidencial de 2014 o candidato dos sonhos da direita conservadora

O Brasil está preparado para um presidente da República negro?
Não. Porque acho que ainda há bolsões de intolerância muito fortes e não declarados no Brasil. No momento em que um candidato negro se apresente, esses bolsões se insurgirão de maneira violenta contra esse candidato. Já há sinais disso na mídia. As investidas da “Folha de S.Paulo” contra mim já são um sinal. A “Folha de S.Paulo” expôs meu filho, numa entrevista de emprego. No domingo passado, houve uma violação brutal da minha privacidade. O jornal se achou no direito de expor a compra de um imóvel modesto nos Estados Unidos. Tirei dinheiro da minha conta bancária, enviei o dinheiro por meios legais, previstos na legislação, declarei a compra no Imposto de Renda. Não vejo a mesma exposição da vida privada de pessoas altamente suspeitas da prática de crime.


A pergunta foi feita pela jornalista Miriam Leitão ao presidente do Supremo Tribunal Federal (SRF), Joaquim Barbosa. Pergunta e resposta integram uma longa entrevista do ministro publicada no último domingo (dia 28) no jornal O Globo.

O Brasil está sim preparado para ter um presidente negro. Afinal, já elegeu um operário, analfabeto como costuma arrotar a elite brasileira, que elegeu na sua continuidade a primeira mulher presidente, ou presidenta como queiram, da República. O que não quer dizer que Joaquim, caso se apresente como candidato, não vá sofrer preconceitos de toda ordem por se meter a querer ser presidente do país, preconceito destilado ao operário nordestino e à ex-terrorista.

Joaquim Barbosa reclama da Folha de S.Paulo a quem acusa de “uma violação brutal da minha privacidade”. Certo e errado. Certo porque a Folha de S.Paulo realmente expôs o presidente do STF. Errado porque a privacidade de um ministro no mais alto cargo da Corte judiciária não tem a privacidade dos reles cidadãos comuns. Ele deve satisfação de todas as suas atitudes.

Um imóvel de R$ 1 milhão pode ser modesto aos padrões norte-americanos, mas muito distante da realidade da maioria do país. Além disso, a operação em que o ministro se meteu, abrir um empresa para comprar o imóvel, é questionável e ele deve explicar o fato. Se fosse o presidente da República, algum deputado ou senador, provavelmente o ministro cobraria explicações.

A Folha de S.Paulo tem publicado diversas notícias que podem ser consideradas ruins pelo ministro. Além de noticiar a compra do imóvel em Miami, em 5 de julho, o jornal informou que o filho do ministro fora contratado pela Globo. A informação foi objeto de especulação sobre os interesses que moveriam a emissora e o presidente do STF, na contratação do filho deste.

Em 7 de julho, a Folha publicou que Joaquim Barbosa recebera $580 mil em benefícios atrasados, “por conta de controverso bônus salarial criado nos anos 90”. Em nota, a assessoria do ministro disse que o ministro “não recebeu nada ilegal, e nada além do que foi recebido por todos os membros do Judiciário do país, do Ministério Público e do Tribunal de Contas da União".

No dia 22 de julho, a Folha afirmou que o ministro cumprimentou o papa (na cerimônia de recepção ao pontífice no Rio de Janeiro), mas que ignorou a presidenta Dilma. A interpretação do jornal foi assumida por muitas outras publicações e o fato virou hit nas redes sociais, aumentando a imagem de um ministro destemperado e birrento.

Lembremos que a mesma Folha já havia dado destaque ao fato de o ministro ter mandado um jornalista do grupo concorrente (Estadão) “chafurdar no lixo”.  Aliás, a postura intransigente do ministro já objeto noticioso em muitos veículos, dando vazão a reclamações e críticas de associações de magistrados, a partir da fala do ministro que os novos tribunais regionais federais seriam criados em resorts.

Como se vê, as notícias negativas sobre Joaquim Barbosa se intensificaram e, coincidência ou não, exatamente quando ele desponta nas intenções de voto, superando nomes clássicos como os de Dilma, Aécio, Eduardo Campos. Quem entende um pouco de interesse político e midiático, sabe que as bordoadas dadas em JB não são porque ele “corre o risco” de ser o primeiro presidente negro do Brasil.

Joaquim Barbosa apanha atualmente, menos por ser negro, mais porque pode tirar da corrida presidencial de 2014 o candidato dos sonhos da direita conservadora. Esse candidato assina como PSDB. Quem duvida disso, que pesquise a abordagem da Folha de S.Paulo, do jornal Globo, da Rede Globo, da Veja e do Estadão às acusações de desvio de dinheiro nas obras do metrô de São Paulo, com os tucanos Geraldo Alckmin e José Serra; e à ação civil por improbidade administrativa do Ministério Público contra Aécio Neves. E ainda, por curiosidade, o que você já viu publicado em destaque nesses veículos sobre uma tal privataria tucana?

Parte da sociedade brasileira engoliu Joaquim Barbosa porque esse teve um papel importante no julgamento da Ação Penal 470, o mensalão do PT: condenar mensaleiros petistas para queimar ainda mais a imagem do partido e tentar influenciar o jogo político. As prévias foram as eleições de 2012, cujo julgamento aconteceu – não por coincidência – durante o processo eleitoral municipal.

“Em 40 anos de jornalismo, nunca vi aplauso igual desde que Joaquim aceitou a denuncia contra os réus do mensalão. Em 2012, durante o julgamento, foram quatro meses consecutivos de aplausos, elogios, imagens dramáticas e reportagens favoráveis. Revistas competiam para ver quem fazia a comparação mais favorável e produzia o editorial mais elogioso. Jornalistas tarimbados e jornais de prestígio renunciaram a qualquer espírito crítico para fazer uma cobertura unilateral e tendenciosa, contra os réus e contra os argumentos da defesa.” As afirmações são do jornalista Paulo Moreira Leite, em seu blog. 

Em dezembro passado, escrevi sobre o papel do ministro Joaquim Barbosa durante o julgamento do mensalão, cujo roteiro lembrava uma novela, com todos os ingredientes de um folhetim. Após assumir a presidência do STF e mostrar que Joaquim Barbosa era Joaquim Barbosa, as críticas começaram a surgir. Em março, também escrevi que “muitos que aplaudiram Joaquim Barbosa agora o criticam por ele ser o que sempre foi. Rigoroso ou autoritário? Rígido ou grosseiro?” O herói virava vilão.

E agora as críticas ao primeiro presidente negro do STF se intensificam e devem se intensificar muito ainda. Mais pela ameaça do que ele representa aos interesses e aos planos da elite conservadora do país; menos por ser negro. Afinal, ele não foi “o menino pobre que mudou o Brasil”, como celebrou a revista Veja?

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