quinta-feira, 18 de julho de 2013

Elite, arrogância e escárnio

O casamento de dona Baratinha, Beatriz Barata, neta do empresário Jacob Barata, o "rei do ônibus" como é conhecido no Rio de Janeiro, chamou a atenção por muitos motivos. Destaco em particularmente dois. Primeiro, o protesto convocado pelas redes sociais contra o empresário de transportes. (Foto: Reinaldo Vasconcelos/Futura Express)

Os manifestantes, na onda dos protestos de junho, exigem a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Transportes na Câmara de Vereadores do Rio. Eles querem que os parlamentares investiguem a qualidade do serviço público de transporte na cidade. 

O segundo motivo, naturalmente menos nobre, é a atitude do primo da noiva, Daniel Barata, também neto do “rei” Barata, que do alto de uma sacada do Copacabana Palace, onde ocorria o fashion regabofe, jogou notas de R$ 20,00 aos manifestantes. Daniel Barata ainda foi reconhecido por Ruan Martins, atingido por um cinzeiro. O neto do milionário será intimado a depor por causa da agressão. (Foto: Erik Daul/Futura Express)

O episódio suscita algumas interpretações pertinentes sobre o comportamento da elite brasileira, aquela que reúne grandes fortunas, geralmente, construídas em cima da exploração da mão-de-obra, quando não escrava (que o digam os megaempresários rurais), da sonegação fiscal, de crimes contra a ordem tributária e da concorrência desleal. 

Claro! os amantes do liberalismo vão dizer que o mercado é assim mesmo, que a competição incentiva beber o fígado do concorrente e que passar por cima da lei faz parte do processo. Afinal, para esses, o estado é apenas um entrave para bater metas e lucros. 

A elite brasileira aplaude o ataque aos políticos corruptos, reverberando os ecos dos protestos contra a política, mas são os financiadores da propina desembolsada a esses mesmos. Não há corrupto sem corruptor. Afirmar que empresário é vítima de político de caráter duvidoso é uma meia verdade. 

No entanto, quando a elite é alvo dos protestos, floresce-lhe a arrogância típica de quem já teve a chave da casa grande. Jogar notas de reais a manifestantes que exigem CPI para investigar a qualidade do transporte público revela o escárnio para com o povo. A senzala tem que ser mantida no seu devido lugar e ficar com as sobras jogadas da varanda. 

Não devo generalizar, existem sim empresários milionários honestos e decentes que merecem todo o respeito da sociedade, mas as baratas da elite estão em todas as cidades. A atitude de Daniel Barata não é efeito colateral. É sintoma de herdeiros de milionários que não sabem o valor do dinheiro porque nunca suaram para ganhá-lo. 

A elite brasileira que gasta R$ 3 milhões num casamento, conforme levantamento da Folha de S.Paulo, é a mesma que costuma rotular o Bolsa Família como esmola e as políticas federais de transferência de renda como incentivo à vagabundagem. À elite todas as políticas econômicas. Política social é despesa, é gasto. 

Nessa perspectiva, os milionários se unem a quem deveria proteger a legislação e os mais fracos. Também não é efeito colateral, que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes tenha sido padrinho de casamento de dona Baratinha. A esposa do ministro, Guiomar Mendes, é tia do noivo. Sim ele existe e tem nome, Francisco Feitosa Filho. 

__Mas Guiomar Mendes não tinha o direito de ser madrinha do soborinho e levar o marido?

Certamente, mas esse tipo de convite não passa apenas pelo amor de tia e sobrinho, mas pelo interesse que envolve exatamente essa relação. Então que Gilmar Mendes se declare suspeito e decline de julgar ações que envolvam o império do “rei” Barata. No entanto, quem acompanha o ministro no STF, indicado por Fernando Henrique Cardoso – de quem foi advogado-geral da União - sabe que ele não fará isso.

A pompa com que a minoria da elite casa seus filhos e netos é só mais um indicador da concentração de renda, que revela a extrema desigualdade social do país. A classe média, que foi às ruas e ajudou o gigante a acordar, poderia ser aliviada em sua pesada carga tributária, se as grandes fortunas fossem taxadas.

E esse é apenas mais um projeto fossilizado no Congresso Nacional, que se recusa a ouvir o povo num plebiscito para orientar uma ampla reforma política. Já pensou se o povo decide que milionários do transporte coletivo não podem mais fazer doações a deputados, senadores, prefeitos e vereadores? O povo é um perigo mesmo!

Enquanto a classe média também mirar seu ódio e críticas aos programas federais que fazem os pobres consumirem mais, a elite - que não paga o que deveria - vai continuar se divertindo, jogando notas de R$ 20,00 para os manifestantes. Junto com as notas vai a arrogância de quem sempre teve escárnio pelo povo brasileiro, que ajuda essa mesma elite a enriquecer.

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