sábado, 31 de agosto de 2013

Cachorro louco

Em agosto, um ataque matou 1.429 civis na Síria, sendo 426 crianças. O presidente dos EUA, Barack Obama, afirma - categoricamente - que o governo da Síria usou armas químicas contra os civis. Obama está pronto para atacar aquele país hoje, a exemplo do que fez, 10 anos atrás, o presidente George W. Bush, quando invadiu o Iraque sob o pretexto de buscar armas de destruição em massa.

Em agosto, na Rússia, grupos neonazistas humilharam, agrediram homossexuais, gravaram as cenas e publicaram na internet. Os casos de violência contra gays aumentam na medida em que são aprovadas no país leis que punem os homossexuais por causa da sua sexualidade.

Em agosto, o diplomata brasileiro Eduardo Saboia preparou a fuga, da embaixada brasileira em La Paz, do senador boliviano Roger Pinto Molina, condenado pela justiça da Bolívia, e acusado de mais de 20 crimes. O diplomata comparou a embaixada do Brasil ao Doi-Codi.

Em agosto, o Congresso Nacional não cassou o mandato do deputado Natal Donadon, condenado a 13 anos de prisão, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), por peculato e formação de quadrilha. O deputado condenado cumpre pena no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília (DF).

Em agosto, a elite brasileira mostrou novamente a sua cara, desqualificando o “Programa Mais Médicos” do governo federal e, portanto, detonando o Sistema Único de Saúde (SUS). Parte da sociedade não quer que o sistema público de saúde do Brasil dê certo.

Em agosto, médicos branquelos (ui, discriminei agora!) vaiaram e chamaram médicos cubanos de escravos. O presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará (SimeC), José Maria Pontes, que liderou os protestos, disse que o xingamento contra os poriffisonais cubanos  não foi pejorativo.

Em agosto, em Londrina (PR), o maquiador Diego Ramos Quirino matou a própria mãe Ariadne dos Anjos; a líder do movimento negro e mãe de santo Vilma Santos de Oliveira, a Yá Mukumky; Allial dos Santos e Olivia Santos de Oliveira, respectivamente mãe e neta da líder Mukumby. A Promotoria Pública, na denúncia, sustenta que houve intolerância religiosa no assassinato.  

Depois de tudo isso e muito mais, ainda existe gente que acredita que, em agosto, o cachorro é que é louco.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Patrocinadores da doença

Em sua chegada ao Brasil, muitos médicos cubanos disseram não estar no país pelo dinheiro, mas por solidariedade ao povo brasileiro. Depois de dizer que os cubanos não tinham qualificação, que não teriam infraestrutura de atendimento, parte da sociedade brasileira agora centra suas forças no argumento do trabalho escravo. 

Como pode um profissional trabalhar e o governo do país dele ficar com a maior parte do salário? Os 40% que os médicos de Cuba vão receber pelo acordo com o governo federal é maior, muito maior, do que a maioria dos brasileiros ganha e, mesmo assim, muitos atacam a proposta. Como é possível alguém trabalhar por solidariedade e não por dinheiro e status profissional?

Na prática, estamos querendo que os médicos cubanos se moldem ao nosso pensamento, quando nos recusamos a raciocinar como eles, até porque nunca vamos entender a lógica - irracional para uma sociedade que consome em excesso e desnecessariamente - de trabalhar por solidariedade. 

O que espanta nesse pântano de preconceito e violência contra os médicos cubanos, é ver tanta gente que se diz do bem, contra o aborto, a favor da vida, ser contrário ao atendimento pelos profissionais de Cuba em localidades onde os médicos brasileiros se recusam a atender.

Quem pensa e age assim ajuda a patrocinar a doença e, portanto, a morte.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

O menino e o pardal

Perto da casa da avó, o menino vê um passarinho caído.
É um filhote. Delicado. Pequenino. Pelado.
O corpo frágil pede cuidados.

O menino recolhe o filhote e o leva para casa.
O passarinho é aquecido.
O menino ajuda o filhote matar a sede; a matar a fome.

O filhote cresce.
As penas recobrem seu corpo.
As asas estão prontas.


O passarinho é uma fêmea de pardal selvagem.
Ela ganha um nome.
Abi se recusa a deixar o menino.

Vadim Veligurov tem de 12 anos.
Ele vive em Minusinsk, na Rússia.
Abi passa o dia com ele.

Abi e Vadim.
O pardal e o menino.
Um conto real.

Gratidão. Cuidado. Vínculo.
Gratidão de Abi.
Cuidado de Vadim.
Vínculo entre o menino e o pardal.

_____________
Vadim e Abi existem. Veja mais fotos de Ilya Naymushin, da Agência Reuters, publicadas pelo jornal Folha de S.Paulo.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Escravos do preconceito

Em sua coluna de ontem (25/08), a jornalista Eliane Cantanhêde, conseguiu superar-se nas páginas da Folha de S.Paulo. O assunto não podia ser outro, a vinda dos médicos cubanos para atuar em localidades nas quais os médicos brasileiros não querem trabalhar, nem por R$ 10 mil ou mais, como oferecem muitas prefeituras do país.

A colunista, a mesma que classificou os militantes tucanos em um congresso do PSDB de formarem “uma massa cheirosa”, abre o texto com o título “Avião negreiro”, uma alusão ao poema “Navio Negreiro”, de Castro Alves, como se as condições entre a vinda forçada dos africanos fossem iguais aos dos médicos cubanos. O título reforça os estereótipos de sempre, sendo um bom exemplo do preconceito da elite brasileira para com as políticas sociais.

“Pode um médico ganhar R$ 10 mil, e um outro, só R$ 2.500, pelo mesmo trabalho, as mesmas horas e o mesmo contratante? Há controvérsias legais. E há gritante injustiça moral, com o agravante de que os demais podem trazer as famílias, mas os cubanos, não. Para mantê-los sob as rédeas do regime?”

Pelo programa “Mais Médicos”, o Brasil pagará aos poucos profissionais brasileiros que se habilitaram e aos estrangeiros, desempregados em seus países de origem, R$ 10 mil. Pelo acordo do Brasil com a Opas - Organização Pan-Americana de Saúde (órgão da Organização das Nações Unidas), o governo federal repassa o dinheiro à entidade que paga o governo cubano.

Se a forma de viabilização do projeto, inclusive por causa do boicote das associações médicas, pode ser objeto de questionamento judicial, isso não dá o direito de a jornalista desqualificar os profissionais de Cuba, transportados num avião que ela considera negreiro. A saúde cubana está entre os melhores indicadores do mundo.

A indignação principal da colunista está no parágrafo final do texto. “Tente você contratar alguém em troca de moradia, alimentação e, em alguns casos, transporte, mas sem pagar salário direto e nem ao menos saber quanto a pessoa vai receber no fim do mês. No mínimo, desabaria uma denúncia de trabalho escravo nas suas costas.”

Com a afirmação, a jornalista lamenta não ter a possibilidade de escravizar seus empregados domésticos e, ao mesmo tempo, revela má fé e desinformação sobre os dispositivos de cooperação técnica entre o governo brasileiro e um órgão das Nações Unidas. E o pior, Eliane Cantanhêde não fala apenas por si. Ela representa um pensamento conservador que revela o que há pior no ser humano, sob um suposto manto humanitário.

A comparação do avião cubano, com os primeiros médicos, ao navio negreiro é mais uma cortina de fumaça daqueles que não querem que o Sistema Único de Saúde (SUS) dê certo. Antes, o problema da importação desses médicos era a falta de qualificação; depois a falta de infraestrutura. Agora, o trabalho escravo. Argumentos que não sobrevivem a uma simples busca no Google. 

O segmento que afirma ser o governo brasileiro cúmplice do trabalho escravo dos cubanos demostra um comportamento oportunista e contraditório. Sim, porque consome produtos de moda de marcas americanas e europeias, fabricados com mão de obra escrava de países asiáticos; porque não se incomoda com as condições análogas à escravidão em muitas obras da construção civil e fazendas Brasil afora; e porque não fica indignado com a carga horária excessiva, o acúmulo de funções e os salários baixos da maioria dos brasileiros. 

sábado, 24 de agosto de 2013

Inquietudes (177) do Rei

Tenho lido comentários raivosos sobre a "importação" dos médicos cubanos para atender onde os médicos brasileiros não querem ir. O principal argumento é a forma de remuneração dos cubanos, na qual a maior parte vai para o governo de Cuba. Argumentam que isso é trabalho escravo. Quanta consciência em relação ao outro! 

Pena que não refletem nem lutam pela sua própria condição. A maioria é trabalhador brasileiro com salário baixo, jornada excessiva, condições de trabalho degradantes, acúmulo de funções, ou seja, direitos trabalhistas pisoteados pelo empresariado ávido por lucros.

E depois, o problema é Cuba.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Veto ao corporativismo rasteiro



O Congresso Nacional manteve, ontem (dia 20), os vetos da presidente Dilma Rousseff, ao Ato Médico, a lei 12.842, de 10 de julho de 2013. O principal veto de Dilma foi no artigo 4º, inciso I, que estabelecia como privativo dos médicos, o diagnóstico de doenças. 

Esse dispositivo motivou protestos de outras categorias como psicólogos, fisioterapeutas e enfermeiros. Para as associações da categoria médica, esse ponto era o fundamental. Menos por regulamentar a profissão, mais por estabelecer reservas de mercado. Coisas de entidades corporativas.

Os vetos de Dilma ainda foram para artigos e incisos da lei que restringiam ao profissional da medicina, funções como a de aplicar injeções e indicar o uso de órteses e próteses, inclusive oftalmológicas. Funções, hoje, exercidas por outras categorias da saúde.

Desde junho, quando o gigante acordou, médicos foram para as ruas protestar, legitimamente, contra a falta de condições de trabalho, pela carreia de estado do SUS, pela valorização do profissional. No ensejo, protestaram contra o governo Dilma e exigiram a aprovação total do Ato médico, alegando que isso fortaleceria a saúde pública.

Mentira! O Ato Médico não fortalece o Sistema Único de Saúde (SUS). Pelo contrário, seria um golpe fatal na política pública de saúde que sofre de uma doença crônica cujos sintomas são a  gestão ineficiente e o desvio de recursos. 

Se hoje não há médico para atender em todo o país, imagine tirando de outras categorias as prerrogativas de atendimento. Você, por acaso, consegue imaginar médicos aplicando injeções em posto de saúde e hospitais por todo o território brasileiro?

Além disso, o Ato Médico, da forma como foi concebido, aniquilaria programas importantes. E essa foi a justificativa do veto da presidente Dilma. “A aprovação deste dispositivo traria restrições ao trabalho de outros profissionais de saúde”, argumentou a presidente quando da sanção do projeto de lei. 

“Hoje, por exemplo, pacientes com doenças como malária, tuberculose e dengue são diagnosticadas ou iniciam o tratamento com profissionais de enfermagem e têm acompanhamento por equipes compostas por médicos. Segundo dados do Ministério da Saúde, existem aproximadamente dois milhões de postos de trabalhos ocupados em serviços públicos e privados que atendem pelo SUS.”

Com os vetos da presidente ao Ato Médico e a manutenção pelo Congresso Nacional ganham os usuários dos serviços públicos de saúde e também os profissionais de outras categorias que já realizam um importante trabalho. Quem perde não são os médicos, mas o corporativismo rasteiro de uma categoria que não considerava os direitos do cidadão e de outros profissionais.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Inquietudes (176) do Rei

O julgamento da Ação Penal 470, o mensalão, recomeçou nesta semana com a apreciação dos recursos da defesa dos condenados. O ministro Joaquim Barbosa já se desentendeu com o ministro Ricardo Lewandowski, em um nível que não cabe ao presidente da Corte.

Os ministros do STF têm, neste momento, a oportunidade de rever possíveis erros cometidos no julgamento no ano passado. Afinal, os ministros - apesar de parecerem supremos - são apenas humanos. No entanto, rever esses erros é apontar o dedo justamente para Barbosa, relator do processo. 

Por isso, Barbosa precisa criar uma imagem de vítima, caso alguns ministros revejam seus votos e interfira no resultado final. Assim, ele pode sair por cima neste Fla X Flu de petistas e tucanos, no qual a verdade, a justiça e as provas são coadjuvantes do processo sucessório de 2014.

Geração asinha de frango

Há uma geração inteira cujos pais estão pra lá dos 70 e os filhos pra cá dos 20, que pode ser chamada de geração asinha de frango. São homens e mulheres, criados num mundo em transição. Dos paradigmas (professor universitário adora essa palavra!) dos pais deles para os dos filhos deles.

No almoço de domingo, os principais lugares da mesa eram do pai e da mãe. Os progenitores escolhiam - na macarronada com galinha - os melhores pedaços. Galinha mesmo, frango é mais recente. Coisas do mercado. Peito e coxa eram dos pais. Os filhos disputavam, principalmente, a asinha. 

Essa geração cresceu, lutou para conquistar a independência, rompeu com muitas tradições e saiu de casa. Fez carreira com muito esforço e privações. Hoje, eles dão aos filhos, o conforto e as comodidades que não tiveram. Os filhos deles não precisam mais desbravar. A estrada foi aberta e esses aproveitam do esforço feito pelos pais.

E como os paradigmas mudaram, os filhos deles não são como eles eram. Hoje, com a permissividade deles é claro, os filhos – na maioria – mandam na casa e nos pais. E ao sentar à mesa, os filhos correm para pegar os melhores pedaços do frango. Sem cerimônia, sem preocupação, sem culpa. E eles? Continuam comendo a asinha. 

A geração asinha de frango é marcada pela transição que o mundo sofreu, principalmente a tecnológica. Eles assistiram o Sítio do Pica Pau Amarelo, quando a Cuca era a Dorinha Duval, em TV preto e branco com tubo de imagem, com uma película colorida pendurada na tela. Eles tinham muitos irmãos e primos e a rua – nas cidades – e os carreadores – nos sítios – não eram o limite.

Eles compraram o primeiro celular praticamente depois dos 30. Além de fazer e receber chamadas, gostam da calculadora e do despertador. Eles têm dificuldades para usar computador com agilidade; tablet - para muitos - é nome de chocolate; smartphone causa calafrios. 

Eles faziam compras de metros e metros de tecido nas Pernambucanas e as costureiras da família (mãe, tias e avós) transformavam em calças, camisas e blusas.  Eles andavam no banco de trás do carro (quando tinham) sem cinto de segurança e, hoje, não colocam a primeira sem amarrar a molecada no banco traseiro. 

Eles são de uma época que seus bichos de estimação, quando ficavam doentes, morriam ou saravam sozinhos. Aliás, nessa época cachorro tinha nome de cachorro. Eles estudaram na época da Guerra Fria quando as repúblicas ainda formavam a União Soviética e Berlim era dividida por um muro.

Eles aprenderam que os – hoje - países capitalistas desenvolvidos eram o 1º mundo; os países comunistas (pobres e ricos) eram o 2º mundo; e os capitalistas pobres – ou seja, nós – eram o 3º mundo.  Eles decoravam a tabuada e as aulas de geografia eram nomes de capitais e rios.  Os pais deles mal concluíram o primário e muitos deles passaram da graduação.

A geração asinha de frango viu o mundo virar de ponta cabeça. Eles fizeram a transição da família tradicional para a família moderna. De uma sociedade analógica para uma sociedade digital. Por isso, é uma geração de extrema importância. E o melhor... a asinha de frango também evoluiu. Hoje ela já vem temperada para o churrasco de domingo.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Queima-se coração de gays

 “Eu acho que impor multas aos gays por propaganda homossexual para menores não é suficiente. Eles deveriam ser proibidos de doar sangue, esperma. E seus corações, em caso de acidente de automóvel, deveriam ser enterrados no solo ou queimados, como inadequados para a continuação da vida.”

As declarações contra o grupo LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais) – pasmem – são de um apresentador de uma TV estatal. Isso mesmo, um comunicador em uma TV bancada pelo contribuinte. Trata-se de Dmitry Kiselev, do canal estatal Rossyia 1, da Rússia. As declarações são do ano passado, mas o vídeo bombou na internet no último final de semana naquele país. As informações são do site Opera Mundi.

Com a declaração, o apresentador Kiselev parte do pressuposto que o sangue e os órgãos dos homossexuais são contaminados e não servem para a doação. E ainda que o sangue e os órgãos dos heterossexuais são mais qualificados para a “continuação da vida”. O caso se passou na Rússia, mas poderia ter sido registrado em qualquer lugar do mundo. Afinal, felicianos, bolsonaros e malafaias existem em todo o planeta.

Não é mera coincidência ter aumentado, nos últimos meses, declarações homofóbicas como as listadas acima. Assim, como aumentaram os confrontos, em marchas e passeatas, entre grupos de gays e de religiosos. É que muitos países vêm avançando na legislação que confere direitos civis a homossexuais, como o casamento.

Somente nos últimos três anos, o casamento gay foi regulamentado – com diferentes nomes – em Portugal, Argentina, Islândia, Dinamarca, Uruguai, Nova Zelândia, França e em 12 dos 50 estados americanos. No Brasil, o casamento de pessoas do mesmo sexo também é realidade. No entanto, mais por decisão do Supremo Tribunal Federal e menos pela decisão (pra lamentar) do Congresso Nacional. 

Mais uma vez, a intolerância aos direitos LGBT vem da doutrina religiosa que rege a atitude daqueles que discriminam. Reconhecer os direitos humanos de gays afeta absolutamente em nada a relação do fiel com Deus. Não nos esqueçamos que, pelo mundo afora, a igreja é conivente – independente da religião – com regimes ditatoriais que matam e muitos nem escondem os corpos.

As afirmações do apresentador russo mostram também que o estereótipo do homossexual promíscuo continua mais vivo do que nunca. E ainda mais viva continua a complacência com a promiscuidade de heterossexuais. Afinal, para muitos os bodes devem ficar soltos e as cabras e cabritos que se cuidem. O que determina a qualidade de um órgão ou do sangue é o estilo de vida do seu dono e não sua orientação sexual.

Os que afirmam serem os homossexuais promíscuos são os mesmos que, por exemplo, condenam as campanhas de combate à aids para esse segmento. No carnaval brasileiro já entrou para o calendário das reclamações dos grupos religiosos as campanhas do Ministério da Saúde. 

Na vida, as pessoas aprendem a amar e a odiar. Na vida, as pessoas aprendem a tolerar e a intolerar. Na vida, as pessoas aprendem a respeitar e a desrespeitar. Isso está baseado num conjunto de crenças e de valores, que podemos chamar de educação. E por isso cada um é aquilo que construiu para si mesmo. 

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Sem Deus no coração


Muitos religiosos gostam de apontar as desgraças da vida como consequência natural de não se ter Deus no coração. Para os que causam terror em nome Dele, o mundo só não é melhor porque se registra a ausência do divino. A falta de fé, para muitos, impõe todos os obstáculos terrenos.

E quando um pastor, conhecido e reconhecido nacionalmente, aconselha seus fiéis a não denunciarem pastores desonestos? Pois é, esse pastor tem nome e sobrenome: Silas Malafaia. Em vídeo, que circulou recentemente pelas redes sociais,  Malafaia, diz que “ninguém deve se meter com os ungidos de Deus”.

O vídeo com a declaração – nada divina – foi retirado do ar, “devido à reivindicação de direitos autorais Emotion Studios Ltda”. Retirar o vídeo do Youtube com as intimidações e as ameaças de Silvas Malafaia é estratégico. Isso sim é que é providência divina na Terra.

__Quem calunia pastor e fala da Igreja não pode ser crente. Vou dar um conselho pra você: fica longe de participar de divisão, de calúnia, de difamação de pastor. Fica longe disso. Quer arrumar problema pra tua vida? Entra nisso. Quem é que toca no ungido do Senhor e fica impune? Ungido do Senhor é problema do Senhor, não teu. Teu pastor é ladrão? É pilantra? Você não está gostando? Sai de lá e vai pra outra igreja. Não se mete nisso não, porque não é da tua conta. Cai fora. Vai embora [...] Só não arruma problema. Não toca em ungido… Rapaz, aprenda isso: eu já vi gente morrer por causa disso, meu irmão”.

A fala - de um cinismo diabólico - foi transcrita do vídeo – enquanto estava no ar – pela equipe do site Gospel Mais e suscita alguns aspectos para reflexão. Segundo Silas Malafaia, todo pastor é ungido por Deus. Ungido é aquele que recebeu óleos santos; que recebeu ordens sacras; que foi ordenado. E esse processo, meu caro leitor, é terreno, feito pelos homens em suas instituições religiosas. É o homem que arroga para si, o direito de representá-Lo.

"Quem é que toca no ungido do Senhor e fica impune?" Segundo Malafaia, quem denuncia pastor que se aproveita da fé alheia é castigado por Deus. Ele punirá os desgarrados que ousarem acusar pastores porque “Ungido do Senhor é problema do Senhor, não teu [o fiel]”. Deus compactua com Silas Malafaia?

O pastor das polêmicas ameaça diretamente os fiéis.  “Quer arrumar problema pra tua vida? Entra nisso. [...] Rapaz, aprenda isso: eu já vi gente morrer por causa disso, meu irmão”. Essa é ou não uma ameaça de morte a fiéis que não concordarem com expedientes desonestos de seus pastores? Quem é mesmo que não tem Deus no coração?

Usar o nome de Deus para causas nada nobres não é uma prerrogativa dos religiosos atuais. A história da humanidade mostra que muitos mataram e continuam matando em nome Dele. Instrumentos de tortura medievais foram usados em larga escala no cristianismo naqueles que ousaram tocar ”no ungido do Senhor”. Eles realmente não ficaram impunes. Hoje esses instrumentos são motivo de exposições culturais. Que a tortura não se repita!

Os religiosos devem ir além da palavra que pregam. Frequentar uma religião ou um templo não é compromisso com a bondade, nem prerrogativa de um comportamento reto. E menos ainda é a garantia de ter Deus no coração. 

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Ex-vermelha. Ex-verde. Igual aos outros.

Marina Silva (foto: página oficial de Marina no Facebook) é a grande vencedora dos protestos de junho.
Ela conseguiu aumentar muitos pontos percentuais nas intenções de voto, antes de junho para agora, e conforme pesquisa divulgada no final de semana pelo Datafolha tem 26%.


A ex-candidata à Presidência da República, de quase 20 milhões de votos, em 2010, é neste momento o nome mais forte para enfrentar Dilma Rousseff, que tentará a reeleição.
A presidente, ou presidenta como queiram, recuperou vários pontos percentuais, indo para 35% das intenções de voto.
José Serra e Aécio Neves se bicam no ninho tucano; e Eduardo Campos... quem é mesmo?


Marina Silva tem uma bonita história ligada ao meio ambiente.
Seus mandatos sempre foram de defesa aos povos das florestas e às causas ecológicas.
De origem humilde, chegou ao posto de senadora da República.

Mas em termos de pragmatismo político deve nada a muitos caciques da cena política brasileira.

A ex-senadora pelo PT deixou o partido para se aventurar à corrida presidencial de 2010 pelo PV.
Seu vice, o empresário Guilherme Leal, dono da Natura.

Para quem sempre combateu o mal do capital floresta adentro, é emblemático ter um grande empresário como vice.
Mas a Natura aposta na sustentabilidade! podem repetir muitos marineiros.
Com certeza, mas não deixa de ser emblemático.
E ponto.


Nem bem terminaram as Eleições de 2010, a ex-petista também virou ex-verde e tenta, agora, viabilizar a tal Rede Sustentabilidade para concorrer novamente à presidência.
Um dos nomes que ajudam a angariar recursos para viabilizar o novo partido de Marina, é de Maria Alice Setubal, herdeira do Banco Itaú.
Não é que o jornal O Globo chega a chamar Maria Alice de fada madrinha de Marina Silva!

Para quem nega até o nome de partido – usando o rótulo Rede – Marina repete os expedientes de sempre.

Se o dono da Natura era emblemático na campanha do Partido Verde, a herdeira de uma grande instituição financeira é ainda mais.
Não que a futura dona do bilionário banco, que enriquece com juros altos igualmente a todos os outros bancos, não seja bem-intencionada.
É que a relação de políticos e empresários costuma custar caro para os cofres públicos.
Petistas mensaleiros e tucanos privateiros são a mesma face dessa moeda e não são efeitos colaterais.


Soa estranho Marina ter angariado parte expressiva dos votos que vêm dos protestos de junho contra os políticos e a política brasileira.
E deixa de soar estranho, se contextualizarmos o apartidarismo do movimento que protestou contra tudo e contra todos.
Para um pedaço do gigante acordado, Marina não é a política tradicional.
Ingenuidade ou falta de senso crítico, visto que Marina repete o mesmo pragmatismo tão combatido nas manifestações do final do semestre passado.


Se Marina Silva cultiva o hábito de pular de partido em partido para se viabilizar que mudança ela representaria no sistema político brasileiro?
Se Marina Silva cultiva vínculos com o grande empresariado que mudança ela representaria no sistema político brasileiro?

Uma das formas para eliminar as relações promíscuas entre políticos e empresários é o financiamento público de campanha.
A proibição de doações de empresas privadas para candidatos causa urticária na maioria dos políticos e partidos.
Não é à toa que a maioria das siglas rejeitou a proposta de Plebiscito para consultar o eleitor sobre as mudanças no sistema político-eleitoral.


Marina Silva, viabilizada pela causa do meio ambiente e financiada pelo empresariado, se mostra mais igual aos outros candidatos que a maioria dos eleitores pode imaginar.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Inquietudes (175) do Rei

A sociedade que incentiva a erotização feminina é a mesma que condena a mulher a não ser dona do próprio corpo e a criminaliza pelo aborto.

A sociedade que estimula o sexo e a sexualidade é a mesma que condena a homossexualidade e a autonomia das vadias.

A sociedade que instiga o consumo de bebida alcóolica é a mesma que condena seus próprios bêbados.

Atriz devassa


A atriz Alinne Moraes empresta seu belo corpo e rosto para uma campanha de cerveja, a Devassa.
O mote da campanha é “E você, tá esperando o que para ter sua primeira vez com uma devassa?”

Devassa é um substantivo e seu verbo devassar, entre os significados da Língua Portuguesa, aceita “prostituir(-se), tornar(-se) devasso”.

Neste sentido a cerveja convida o consumidor a beber Devassa pela primeira vez e associa também o ato à primeira vez no sexo e à primeira vez com um copo de bebida alcoólica.
Alinne Moraes se dá conta de que incentiva o sexo desprotegido, ou seja, devasso, e a beber cada vez mais cedo?


A peça é um exemplo genuíno do estereótipo da mulher objeto, que vende muito mais que seu corpo; ela vende sua dignidade.
O estímulo à primeira vez com uma devassa não é novo.
Muitos homens tiveram sua primeira vez com uma prostituta, a devassa das zonas de antigamente.
O machismo é perpetuado sob o pretexto de se vender uma marca de cerveja.


Os que acham que se pode tudo numa sociedade capitalista vão dizer que esses questionamentos são da patrulha ideológica da turma do politicamente correto.
E são mesmo, sem pudor nenhum.

Basta checar os índices de gravidez na adolescência e ainda os de jovens com problemas com o álcool.

Estudo do Ministério da Saúde, divulgado em janeiro deste ano, mostra que “70% dos brasileiros entre 13 e 15 anos já experimentou alguma bebida alcoólica”.
Segundo a
Organização Mundial da Saúde 22% dos adolescentes transam, pela primeira vez, aos 15 anos.

As consequências de se beber e transar cada vez mais cedo estão aí e atinge toda a sociedade.
Adolescentes bêbados ao volante, acidentes de trânsito, mortos e sequelados; gravidez e doenças sexualmente transmissíveis não são efeitos colaterais.
São consequências de uma sociedade que se permite a primeira vez com devassidão.
E o mais irônico é que os anúncios publicitários de bebida alcoólica advertem: façam isso, “com moderação”.


Na Língua Portuguesa, devassidão tem como sinônimos a libertinagem, a depravação e a corrupção.
Ou seja, cada sociedade se transforma naquilo que construiu para si.
Nem mais.
Nem menos.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Anjos, Santos e demônio


“O autor da chacina de quatro pessoas em Londrina no último sábado (3), Diego Ramos Quirino, 30 anos, revelou ao delegado William Douglas Soares que não se arrependeu dos crimes cometidos. Ele disse, em depoimento na tarde desta terça-feira (6), que as vítimas eram "hostes espirituais da maldade".” A informação é do jornal odiário.com, na edição de ontem.

Quirino (foto: Reprodução odiario.com), que segundo o delegado não se arrepende, ceifou quatro vidas de forma violenta. A da própria mãe, Ariadne dos Anjos; da líder do movimento negro Vilma Santos de Oliveira, a Yá Mukumky; Allial dos Santos e Olivia Santos de Oliveira, respectivamente mãe e neta da líder Mukumby.

Segundo o jornal, “o assassino contou com detalhes o dia de sábado e confessou todas as mortes. Ele teria dito que recebeu ordens divinas para que cometesse os assassinatos.”  Ao jornal, o delegado ainda afirmou:

“Ele falou que ele não via essas pessoas como alguém que ele conhecia, mas estas eram hostes espirituais da maldade, que estavam dominadas por espíritos do mal e ele tinha o propósito de libertá-las. As vozes teriam dito que ele deveria fazer justiça e por isso sair nu", contou o delegado que investiga o caso.”

O autor dos assassinatos, que faria uso de drogas desde a adolescência, estava em surto psicótico no momento da chacina, conforme a Polícia. As pessoas que ele matou, seguindo "ordens divinas", e que “estavam dominadas por espíritos do mal”, tinham – ironicamente – em seus sobrenomes Anjos e Santos. Quem estava mesmo dominado pelo demônio?

Esse triste e lamentável episódio suscita muitos questionamentos. Destaco dois vieses. Primeiro, Yá Mukumby: negra, mulher, mãe de santo e de origem humilde. O assassino poderia estar ouvindo vozes racistas, sexistas e de intolerância religiosa? Ou essas vozes eram as do próprio preconceito do cidadão que matou, com a ajuda de drogas, e que justifica seu ato como uma tarefa divina, abençoada num surto psicótico?

Esses fatos – racismo, sexismo e de intolerância religiosa – não devem ser menosprezados porque diariamente a mulher é vítima de discriminação e muitas pagam com a vida o preço do machismo. Diariamente o negro é vítima de discriminação numa sociedade que diz viver em clima de democracia racial. Diariamente, as minorias religiosas são vítimas da discriminação das maiorias que encontram acolhimento da sua fé até no estado laico, negando outras formas de espiritualidade.

Ou por acaso você já viu assassino em surto psicótico matar padres pedófilos ou pastores que enriquecem às custas dos seus fiéis e depois alegar que a matança era uma tarefa divina? O preconceito contra o candomblé e a umbanda associa a crença e a prática religiosa à obra de maus espíritos. A falta de informação ou a informação contaminada são responsáveis pelo preconceito que gera discriminação.

O segundo viés a  é a legislação que atribui aos doentes mentais a tal da inimputabilidade penal. Em Letras Crônicas, ao doente mental não se pode atribuir responsabilidades. Se provado o distúrbio mental do assassino das quatro mulheres, e que no ato ele não sabia o que fazia, poderá ser considerado inocente.

“A crescente criminalidade assumiu requintes de crueldade e perversidade, tornando difícil considerar que determinados delitos são oriundos de pessoas providas de saúde mental e capacidade de entendimento e determinação.” A apresentação é de Farah Souza Malcher, para a revista eletrônica Jus Navegandi que discorre sobre a “inimputabilidade por doença mental e a aplicação das medidas de segurança no ordenamento jurídico atual”.

Mesmo inocente do ponto de vista judicial, uma pessoa como Diego Ramos Quirino é um perigo ao convívio pessoal para os seus, afinal a primeira vítima foi sua própria mãe, e ao relacionamento social. E o que fazer com os surtados que podem se tornar violentos e, em crise, sair pelados à rua matando, em nome de Deus, quem encontram pela frente?

O sistema público de saúde trata os doentes mentais na perspectiva da desinstitucionalização, ou seja, ele é tratado no convívio social usando estrutura de serviço-dia.  Durante o dia, realiza várias atividades de socialização e à noite é dispensado.  Se tem casa, vai para casa. Se não tem, a rua o espera.

Isso funciona, e bem, com muitas patologias mentais e os doentes são reintegrados, com o apoio familiar, melhorando sua qualidade de vida. Mas e o indivíduo que mata, numa crise, e que pode ser considerado inocente? Diego Ramos Quirino pode se considerar um assassino de Deus, mas não estava a serviço Dele. Com certeza, em Londrina, Deus morreu mais um pouco no último final de semana.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O menino que virou bisavô


O menino nasceu no interior do estado de São Paulo, mais precisamente em Mirandópolis.  Filho de um italiano – o Simão – da região de Vêneto, norte da Itália, e de uma brasileira filha de italianos - a Rosália - mais italiana impossível. Ele é o primogênito de cinco filhos. Com poucos anos de vida, a família muda da roça do interior paulista para uma roça paranaense, na década de 1950, em Colorado.

Ele cresce alimentando alguns sonhos. Ser goleiro profissional ou piloto de avião. Mas na roça, a vida não dá muita chance. O cafezal exige muito cuidado e roulha-lhe as forças no final do dia. Goleiro mesmo somente no time formado, em sua maioria, por primos e amigos. Disputam campeonatos amadores. E o avião? Conforme ele cresce, o sonho do menino de ser piloto vai ficando cada vez mais distante.

O menino cresce e se casa com Iracy e, como primogênito, vai continuar morando com os pais. As irmãs mais novas são adolescentes. O pai dele, o italiano Simão, do comuni di Susegana, parte cedo, com pouco mais de 50 anos. A vida que era dura endurece mais um pouco. Tocar o sítio. Uma irmã, mais velha, casa. O irmão vai morar em São Paulo. Ele tem de cuidar da esposa e da filha recém-nascida; da mãe e das irmãs que são menores. Ele assume todas as responsabilidades.

A vida passa e ele a enfrenta com muita honestidade. Tem mais um filho e uma filha. A diferença de idade desses dois é pequena: um ano e oito meses. Os filhos vão crescendo e as irmãs mais novas também. Apesar das dificuldades não falta o essencial na casa. Os filhos dele, apesar de morarem no sítio, vão estudar na cidade. Ele quer que tenham um destino diferente, já que não conseguiu ir além do que hoje é a quarta série. O trabalho não deixou.

Solidário, ele ajuda quem precisa e também quem não merece. Um cunhado apronta com ele. Como fiador do negócio, ele assume as dívidas do secos e molhados. Credores do cunhado batem insistentemente a sua porta. Seu nome fica sujo na praça. O cunhado some. Para ele, isso é uma desonra. Está pagando pela desonestidade do outro que não cumpriu seus compromissos.

Passam muitos anos, ele quita a situação. Sua dignidade é restabelecida. As irmãs adolescentes viraram mulheres. Casaram. E ele ajuda no casamento das duas. A relação dos três irmãos é comovente. Eles se respeitam. Eles se cuidam um do outro. Os filhos dele também crescem. A mais velha abandona os estudos e casa, vai morar num sítio. O do meio quer fazer faculdade. De Jornalismo. Ninguém entende porquê. E o moleque é metido. Deixa a cidade pequena.

A terceira filha também entra na faculdade, mas uma cirurgia a faz desistir um semestre. Ela vai voltar no próximo, no próximo, no próximo... O tempo passa e ela não volta mais. Dos filhos grandes, nascem os netos. Duas da filha. Um do filho. Dois da filha. Ele dedica aos netos os mesmos cuidados que dedicou aos filhos.

Ele continua plantando café, mas depois da geada de 1975, a área cultivada é cada vez menor. Precisa diversificar. Vai criar porco. Tudo corre bem, até que num dia ele perde as duas matrizes. Precisa diversificar. Vai criar galinha de granja. Muitos produtores apostam na mesma opção. O preço do ovo despenca. Durante um tempo naquela casa, ninguém consegue ver nem foto de ovo.

Precisa diversificar. Vai criar frango. Das primeiras levas tira um bom dinheiro. Paga os investimentos. Quando vai conseguir juntar uns recursos, um calor danado mata parte significativa do plantel. Prejuízo. Precisa diversificar. Vai criar bicho da seda. Os primeiros anos são bons. Muitos produtores aderem à sericicultura. O preço cai. Durante esse tempo, ele ainda diversificou. Plantou mandioca, melancia, algodão, amendoim. Empatava sempre. E ele nunca perdeu as esperanças. Se Deus ajudar, no ano que vem a colheita será melhor.

A essa altura, a mãe dele já havia partido. Um derrame a fez despedir-se da vida. E no sítio, a luta é diária. Confiar no clima para produzir é uma sina. No ano que vem, chove na hora certo e ele vai conseguir uma boa colheita. Realmente chove, mas chove demais. Compromete a qualidade da produção. No ano que vem, fará sol na medida certa. Realmente faz sol, na medida errada. A seca compromete a produção.

A sogra dele, que mora na cidade, também se despede da vida. O sogro costuma enxugar diariamente uma oncinha precisa de cuidados. Eles se mudam para a casa na cidade. Todo dia ele levanta cedo e vai trabalhar no sítio, que agora rende menos. Um período sem sua F75 verde. Vai da cidade ao sítio e do sítio à cidade a pé. A vida testa-lhe os limites. O sogro também parte dessa e ele e a esposa continuam na cidade.

A vida testaria suas forças mais algumas vezes. Um câncer no assoalho da boca é diagnosticado. O tratamento: 35 sessões de radioterapia. Ele muda para a cidade grande, na casa do filho, e realiza o tratamento. Sucesso total. Cura. Ele passou por mais essa provação. Venceu o câncer. Ele é um vencedor nato. Muitos anos antes, ele já havia derrotado o alcoolismo.

Passados muitos anos, ele se aposenta. A mulher dele também. Salário mínimo de trabalhador rural pago pela Previdência Social. Mesmo assim, ele cultiva a lida na roça. Está no sangue de trabalhador. Diminui o ritmo, mas não abandona a lavoura. Num pedaço de chão, dedica-se a fazer, principalmente, mudas de café. Os compradores vêm de vários municípios da região.

Na venda de parte do sítio, ele compra um terreno num loteamento novo. Na venda da casa do sogro, a partilha com o irmão da esposa. Juntando as economias e fazendo uns empréstimos de aposentados, ele e ela constroem uma casa. A primeira deles para eles. O fato merece almoço em família. Comemoração que reúne filho, nora, filhas, genros, netos, netas, irmão, cunhada, irmãs, cunhados, sobrinhos, sobrinhas.


Hoje ele e ela curtem mais a vida. Frequentam atividades no Centro de Atenção Psicossocial e em um grupo da terceira idade. Ajudam a produzir peças que são vendidas na cidade. Participam de confraternizações e se divertem, como nunca se divertiram, viajando e agora cultivando amizades. 

A família aumentou. Ele e a esposa viraram bisavós. Na tradição italiana, ele agora é o nono e ela é a nona. Os dois babam sobre a bisneta. E toda a família está reunida mais uma vez. No último domingo, a comemoração é pelos seus 70 anos. As sete décadas são completadas no dia 1º de agosto.

A vida dele não foi fácil. Os sonhos de ser goleiro ou piloto foram atropelados pelo destino, que ele cumpriu com muita dignidade e honestidade. Ele é meu pai e seu nome começa com V. V de Vencedor. V de Valioso. V de Valdemar.