quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Anjos, Santos e demônio


“O autor da chacina de quatro pessoas em Londrina no último sábado (3), Diego Ramos Quirino, 30 anos, revelou ao delegado William Douglas Soares que não se arrependeu dos crimes cometidos. Ele disse, em depoimento na tarde desta terça-feira (6), que as vítimas eram "hostes espirituais da maldade".” A informação é do jornal odiário.com, na edição de ontem.

Quirino (foto: Reprodução odiario.com), que segundo o delegado não se arrepende, ceifou quatro vidas de forma violenta. A da própria mãe, Ariadne dos Anjos; da líder do movimento negro Vilma Santos de Oliveira, a Yá Mukumky; Allial dos Santos e Olivia Santos de Oliveira, respectivamente mãe e neta da líder Mukumby.

Segundo o jornal, “o assassino contou com detalhes o dia de sábado e confessou todas as mortes. Ele teria dito que recebeu ordens divinas para que cometesse os assassinatos.”  Ao jornal, o delegado ainda afirmou:

“Ele falou que ele não via essas pessoas como alguém que ele conhecia, mas estas eram hostes espirituais da maldade, que estavam dominadas por espíritos do mal e ele tinha o propósito de libertá-las. As vozes teriam dito que ele deveria fazer justiça e por isso sair nu", contou o delegado que investiga o caso.”

O autor dos assassinatos, que faria uso de drogas desde a adolescência, estava em surto psicótico no momento da chacina, conforme a Polícia. As pessoas que ele matou, seguindo "ordens divinas", e que “estavam dominadas por espíritos do mal”, tinham – ironicamente – em seus sobrenomes Anjos e Santos. Quem estava mesmo dominado pelo demônio?

Esse triste e lamentável episódio suscita muitos questionamentos. Destaco dois vieses. Primeiro, Yá Mukumby: negra, mulher, mãe de santo e de origem humilde. O assassino poderia estar ouvindo vozes racistas, sexistas e de intolerância religiosa? Ou essas vozes eram as do próprio preconceito do cidadão que matou, com a ajuda de drogas, e que justifica seu ato como uma tarefa divina, abençoada num surto psicótico?

Esses fatos – racismo, sexismo e de intolerância religiosa – não devem ser menosprezados porque diariamente a mulher é vítima de discriminação e muitas pagam com a vida o preço do machismo. Diariamente o negro é vítima de discriminação numa sociedade que diz viver em clima de democracia racial. Diariamente, as minorias religiosas são vítimas da discriminação das maiorias que encontram acolhimento da sua fé até no estado laico, negando outras formas de espiritualidade.

Ou por acaso você já viu assassino em surto psicótico matar padres pedófilos ou pastores que enriquecem às custas dos seus fiéis e depois alegar que a matança era uma tarefa divina? O preconceito contra o candomblé e a umbanda associa a crença e a prática religiosa à obra de maus espíritos. A falta de informação ou a informação contaminada são responsáveis pelo preconceito que gera discriminação.

O segundo viés a  é a legislação que atribui aos doentes mentais a tal da inimputabilidade penal. Em Letras Crônicas, ao doente mental não se pode atribuir responsabilidades. Se provado o distúrbio mental do assassino das quatro mulheres, e que no ato ele não sabia o que fazia, poderá ser considerado inocente.

“A crescente criminalidade assumiu requintes de crueldade e perversidade, tornando difícil considerar que determinados delitos são oriundos de pessoas providas de saúde mental e capacidade de entendimento e determinação.” A apresentação é de Farah Souza Malcher, para a revista eletrônica Jus Navegandi que discorre sobre a “inimputabilidade por doença mental e a aplicação das medidas de segurança no ordenamento jurídico atual”.

Mesmo inocente do ponto de vista judicial, uma pessoa como Diego Ramos Quirino é um perigo ao convívio pessoal para os seus, afinal a primeira vítima foi sua própria mãe, e ao relacionamento social. E o que fazer com os surtados que podem se tornar violentos e, em crise, sair pelados à rua matando, em nome de Deus, quem encontram pela frente?

O sistema público de saúde trata os doentes mentais na perspectiva da desinstitucionalização, ou seja, ele é tratado no convívio social usando estrutura de serviço-dia.  Durante o dia, realiza várias atividades de socialização e à noite é dispensado.  Se tem casa, vai para casa. Se não tem, a rua o espera.

Isso funciona, e bem, com muitas patologias mentais e os doentes são reintegrados, com o apoio familiar, melhorando sua qualidade de vida. Mas e o indivíduo que mata, numa crise, e que pode ser considerado inocente? Diego Ramos Quirino pode se considerar um assassino de Deus, mas não estava a serviço Dele. Com certeza, em Londrina, Deus morreu mais um pouco no último final de semana.

Um comentário:

Anônimo disse...

Não interessa o que ele falou, e sim o que fez.