segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Escravos do preconceito

Em sua coluna de ontem (25/08), a jornalista Eliane Cantanhêde, conseguiu superar-se nas páginas da Folha de S.Paulo. O assunto não podia ser outro, a vinda dos médicos cubanos para atuar em localidades nas quais os médicos brasileiros não querem trabalhar, nem por R$ 10 mil ou mais, como oferecem muitas prefeituras do país.

A colunista, a mesma que classificou os militantes tucanos em um congresso do PSDB de formarem “uma massa cheirosa”, abre o texto com o título “Avião negreiro”, uma alusão ao poema “Navio Negreiro”, de Castro Alves, como se as condições entre a vinda forçada dos africanos fossem iguais aos dos médicos cubanos. O título reforça os estereótipos de sempre, sendo um bom exemplo do preconceito da elite brasileira para com as políticas sociais.

“Pode um médico ganhar R$ 10 mil, e um outro, só R$ 2.500, pelo mesmo trabalho, as mesmas horas e o mesmo contratante? Há controvérsias legais. E há gritante injustiça moral, com o agravante de que os demais podem trazer as famílias, mas os cubanos, não. Para mantê-los sob as rédeas do regime?”

Pelo programa “Mais Médicos”, o Brasil pagará aos poucos profissionais brasileiros que se habilitaram e aos estrangeiros, desempregados em seus países de origem, R$ 10 mil. Pelo acordo do Brasil com a Opas - Organização Pan-Americana de Saúde (órgão da Organização das Nações Unidas), o governo federal repassa o dinheiro à entidade que paga o governo cubano.

Se a forma de viabilização do projeto, inclusive por causa do boicote das associações médicas, pode ser objeto de questionamento judicial, isso não dá o direito de a jornalista desqualificar os profissionais de Cuba, transportados num avião que ela considera negreiro. A saúde cubana está entre os melhores indicadores do mundo.

A indignação principal da colunista está no parágrafo final do texto. “Tente você contratar alguém em troca de moradia, alimentação e, em alguns casos, transporte, mas sem pagar salário direto e nem ao menos saber quanto a pessoa vai receber no fim do mês. No mínimo, desabaria uma denúncia de trabalho escravo nas suas costas.”

Com a afirmação, a jornalista lamenta não ter a possibilidade de escravizar seus empregados domésticos e, ao mesmo tempo, revela má fé e desinformação sobre os dispositivos de cooperação técnica entre o governo brasileiro e um órgão das Nações Unidas. E o pior, Eliane Cantanhêde não fala apenas por si. Ela representa um pensamento conservador que revela o que há pior no ser humano, sob um suposto manto humanitário.

A comparação do avião cubano, com os primeiros médicos, ao navio negreiro é mais uma cortina de fumaça daqueles que não querem que o Sistema Único de Saúde (SUS) dê certo. Antes, o problema da importação desses médicos era a falta de qualificação; depois a falta de infraestrutura. Agora, o trabalho escravo. Argumentos que não sobrevivem a uma simples busca no Google. 

O segmento que afirma ser o governo brasileiro cúmplice do trabalho escravo dos cubanos demostra um comportamento oportunista e contraditório. Sim, porque consome produtos de moda de marcas americanas e europeias, fabricados com mão de obra escrava de países asiáticos; porque não se incomoda com as condições análogas à escravidão em muitas obras da construção civil e fazendas Brasil afora; e porque não fica indignado com a carga horária excessiva, o acúmulo de funções e os salários baixos da maioria dos brasileiros. 

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