sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Geração asinha de frango

Há uma geração inteira cujos pais estão pra lá dos 70 e os filhos pra cá dos 20, que pode ser chamada de geração asinha de frango. São homens e mulheres, criados num mundo em transição. Dos paradigmas (professor universitário adora essa palavra!) dos pais deles para os dos filhos deles.

No almoço de domingo, os principais lugares da mesa eram do pai e da mãe. Os progenitores escolhiam - na macarronada com galinha - os melhores pedaços. Galinha mesmo, frango é mais recente. Coisas do mercado. Peito e coxa eram dos pais. Os filhos disputavam, principalmente, a asinha. 

Essa geração cresceu, lutou para conquistar a independência, rompeu com muitas tradições e saiu de casa. Fez carreira com muito esforço e privações. Hoje, eles dão aos filhos, o conforto e as comodidades que não tiveram. Os filhos deles não precisam mais desbravar. A estrada foi aberta e esses aproveitam do esforço feito pelos pais.

E como os paradigmas mudaram, os filhos deles não são como eles eram. Hoje, com a permissividade deles é claro, os filhos – na maioria – mandam na casa e nos pais. E ao sentar à mesa, os filhos correm para pegar os melhores pedaços do frango. Sem cerimônia, sem preocupação, sem culpa. E eles? Continuam comendo a asinha. 

A geração asinha de frango é marcada pela transição que o mundo sofreu, principalmente a tecnológica. Eles assistiram o Sítio do Pica Pau Amarelo, quando a Cuca era a Dorinha Duval, em TV preto e branco com tubo de imagem, com uma película colorida pendurada na tela. Eles tinham muitos irmãos e primos e a rua – nas cidades – e os carreadores – nos sítios – não eram o limite.

Eles compraram o primeiro celular praticamente depois dos 30. Além de fazer e receber chamadas, gostam da calculadora e do despertador. Eles têm dificuldades para usar computador com agilidade; tablet - para muitos - é nome de chocolate; smartphone causa calafrios. 

Eles faziam compras de metros e metros de tecido nas Pernambucanas e as costureiras da família (mãe, tias e avós) transformavam em calças, camisas e blusas.  Eles andavam no banco de trás do carro (quando tinham) sem cinto de segurança e, hoje, não colocam a primeira sem amarrar a molecada no banco traseiro. 

Eles são de uma época que seus bichos de estimação, quando ficavam doentes, morriam ou saravam sozinhos. Aliás, nessa época cachorro tinha nome de cachorro. Eles estudaram na época da Guerra Fria quando as repúblicas ainda formavam a União Soviética e Berlim era dividida por um muro.

Eles aprenderam que os – hoje - países capitalistas desenvolvidos eram o 1º mundo; os países comunistas (pobres e ricos) eram o 2º mundo; e os capitalistas pobres – ou seja, nós – eram o 3º mundo.  Eles decoravam a tabuada e as aulas de geografia eram nomes de capitais e rios.  Os pais deles mal concluíram o primário e muitos deles passaram da graduação.

A geração asinha de frango viu o mundo virar de ponta cabeça. Eles fizeram a transição da família tradicional para a família moderna. De uma sociedade analógica para uma sociedade digital. Por isso, é uma geração de extrema importância. E o melhor... a asinha de frango também evoluiu. Hoje ela já vem temperada para o churrasco de domingo.

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