quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O menino que virou bisavô


O menino nasceu no interior do estado de São Paulo, mais precisamente em Mirandópolis.  Filho de um italiano – o Simão – da região de Vêneto, norte da Itália, e de uma brasileira filha de italianos - a Rosália - mais italiana impossível. Ele é o primogênito de cinco filhos. Com poucos anos de vida, a família muda da roça do interior paulista para uma roça paranaense, na década de 1950, em Colorado.

Ele cresce alimentando alguns sonhos. Ser goleiro profissional ou piloto de avião. Mas na roça, a vida não dá muita chance. O cafezal exige muito cuidado e roulha-lhe as forças no final do dia. Goleiro mesmo somente no time formado, em sua maioria, por primos e amigos. Disputam campeonatos amadores. E o avião? Conforme ele cresce, o sonho do menino de ser piloto vai ficando cada vez mais distante.

O menino cresce e se casa com Iracy e, como primogênito, vai continuar morando com os pais. As irmãs mais novas são adolescentes. O pai dele, o italiano Simão, do comuni di Susegana, parte cedo, com pouco mais de 50 anos. A vida que era dura endurece mais um pouco. Tocar o sítio. Uma irmã, mais velha, casa. O irmão vai morar em São Paulo. Ele tem de cuidar da esposa e da filha recém-nascida; da mãe e das irmãs que são menores. Ele assume todas as responsabilidades.

A vida passa e ele a enfrenta com muita honestidade. Tem mais um filho e uma filha. A diferença de idade desses dois é pequena: um ano e oito meses. Os filhos vão crescendo e as irmãs mais novas também. Apesar das dificuldades não falta o essencial na casa. Os filhos dele, apesar de morarem no sítio, vão estudar na cidade. Ele quer que tenham um destino diferente, já que não conseguiu ir além do que hoje é a quarta série. O trabalho não deixou.

Solidário, ele ajuda quem precisa e também quem não merece. Um cunhado apronta com ele. Como fiador do negócio, ele assume as dívidas do secos e molhados. Credores do cunhado batem insistentemente a sua porta. Seu nome fica sujo na praça. O cunhado some. Para ele, isso é uma desonra. Está pagando pela desonestidade do outro que não cumpriu seus compromissos.

Passam muitos anos, ele quita a situação. Sua dignidade é restabelecida. As irmãs adolescentes viraram mulheres. Casaram. E ele ajuda no casamento das duas. A relação dos três irmãos é comovente. Eles se respeitam. Eles se cuidam um do outro. Os filhos dele também crescem. A mais velha abandona os estudos e casa, vai morar num sítio. O do meio quer fazer faculdade. De Jornalismo. Ninguém entende porquê. E o moleque é metido. Deixa a cidade pequena.

A terceira filha também entra na faculdade, mas uma cirurgia a faz desistir um semestre. Ela vai voltar no próximo, no próximo, no próximo... O tempo passa e ela não volta mais. Dos filhos grandes, nascem os netos. Duas da filha. Um do filho. Dois da filha. Ele dedica aos netos os mesmos cuidados que dedicou aos filhos.

Ele continua plantando café, mas depois da geada de 1975, a área cultivada é cada vez menor. Precisa diversificar. Vai criar porco. Tudo corre bem, até que num dia ele perde as duas matrizes. Precisa diversificar. Vai criar galinha de granja. Muitos produtores apostam na mesma opção. O preço do ovo despenca. Durante um tempo naquela casa, ninguém consegue ver nem foto de ovo.

Precisa diversificar. Vai criar frango. Das primeiras levas tira um bom dinheiro. Paga os investimentos. Quando vai conseguir juntar uns recursos, um calor danado mata parte significativa do plantel. Prejuízo. Precisa diversificar. Vai criar bicho da seda. Os primeiros anos são bons. Muitos produtores aderem à sericicultura. O preço cai. Durante esse tempo, ele ainda diversificou. Plantou mandioca, melancia, algodão, amendoim. Empatava sempre. E ele nunca perdeu as esperanças. Se Deus ajudar, no ano que vem a colheita será melhor.

A essa altura, a mãe dele já havia partido. Um derrame a fez despedir-se da vida. E no sítio, a luta é diária. Confiar no clima para produzir é uma sina. No ano que vem, chove na hora certo e ele vai conseguir uma boa colheita. Realmente chove, mas chove demais. Compromete a qualidade da produção. No ano que vem, fará sol na medida certa. Realmente faz sol, na medida errada. A seca compromete a produção.

A sogra dele, que mora na cidade, também se despede da vida. O sogro costuma enxugar diariamente uma oncinha precisa de cuidados. Eles se mudam para a casa na cidade. Todo dia ele levanta cedo e vai trabalhar no sítio, que agora rende menos. Um período sem sua F75 verde. Vai da cidade ao sítio e do sítio à cidade a pé. A vida testa-lhe os limites. O sogro também parte dessa e ele e a esposa continuam na cidade.

A vida testaria suas forças mais algumas vezes. Um câncer no assoalho da boca é diagnosticado. O tratamento: 35 sessões de radioterapia. Ele muda para a cidade grande, na casa do filho, e realiza o tratamento. Sucesso total. Cura. Ele passou por mais essa provação. Venceu o câncer. Ele é um vencedor nato. Muitos anos antes, ele já havia derrotado o alcoolismo.

Passados muitos anos, ele se aposenta. A mulher dele também. Salário mínimo de trabalhador rural pago pela Previdência Social. Mesmo assim, ele cultiva a lida na roça. Está no sangue de trabalhador. Diminui o ritmo, mas não abandona a lavoura. Num pedaço de chão, dedica-se a fazer, principalmente, mudas de café. Os compradores vêm de vários municípios da região.

Na venda de parte do sítio, ele compra um terreno num loteamento novo. Na venda da casa do sogro, a partilha com o irmão da esposa. Juntando as economias e fazendo uns empréstimos de aposentados, ele e ela constroem uma casa. A primeira deles para eles. O fato merece almoço em família. Comemoração que reúne filho, nora, filhas, genros, netos, netas, irmão, cunhada, irmãs, cunhados, sobrinhos, sobrinhas.


Hoje ele e ela curtem mais a vida. Frequentam atividades no Centro de Atenção Psicossocial e em um grupo da terceira idade. Ajudam a produzir peças que são vendidas na cidade. Participam de confraternizações e se divertem, como nunca se divertiram, viajando e agora cultivando amizades. 

A família aumentou. Ele e a esposa viraram bisavós. Na tradição italiana, ele agora é o nono e ela é a nona. Os dois babam sobre a bisneta. E toda a família está reunida mais uma vez. No último domingo, a comemoração é pelos seus 70 anos. As sete décadas são completadas no dia 1º de agosto.

A vida dele não foi fácil. Os sonhos de ser goleiro ou piloto foram atropelados pelo destino, que ele cumpriu com muita dignidade e honestidade. Ele é meu pai e seu nome começa com V. V de Vencedor. V de Valioso. V de Valdemar.

Um comentário:

Anônimo disse...

Olá Reinaldo,
Quem não conhece "seo" Valdemar, não imagina a trajetória de vida dele. Ele não deixa a peteca cair... está sempre sorrindo... sorte da Dona Iracy....
Marlene