quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Boicote e estupidez

O boicote dos profissionais brasileiros da medicina ao programa federal "Mais Médicos" não é um simples boicote. É um atentado à saúde de milhares de brasileiros que estão sem atendimento. Portanto, é um boicote ao direito à vida.

Essa medida, corporativista, infelizmente não é exclusiva dessa categoria e revela o hábito de muitos profissionais lutarem não pelo fortalecimento da sua classe, mas por privilégios, benefícios e reserva de mercado.

Muitos apoiam o boicote dos médicos ao programa - mais para ver o projeto federal não dar certo - menos por defender os direitos dos profissionais que atuariam nos municípios que se inscreveram na proposta.

Engraçado que o boicote - uma forma de pressão extremamente legítima - não encontra ressonância para outras situações que aviltam o brasileiro diariamente.

Não boicotamos as salas de cinema que praticam preços extorsivos e ainda nos contentamos com a metade do preço no ingresso uma vez por semana.

Não boicotamos a programação-lixo da TV brasileira, na aberta ou na fechada - e ainda divulgamos os programas, promovendo o conteúdo desses canais.

Não boicotamos humoristas que - em nome da liberdade de expressão - promovem o racismo, o machismo, o sexismo e a homofobia.

Não boicotamos as marcas que usam mão-de-obra escrava ou exploram o trabalhador e ainda corremos para a primeira promoção ou queima de estoque.

Não boicotamos empresas que fabricam sem qualidade e - volta e meia - engarrafam um rato no refrigerante.

Muitos vão dizer que o boicote é ideológico, coisa de gente ultrapassada. Pode até ser. Assim como é ideológico não boicotar aqueles ou o que nos prejudica. 

Boicotar programa público de saúde - quando se consome lixo na televisão, ratos nos refrigerantes, preços extorsivos no cinema, roupas fabricadas por escravos - não é boicote. É estupidez.

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