quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Lembranças do escuro

Ele nasceu em um tempo em que não havia energia elétrica. O que hoje é considerado gênero de primeira necessidade, antes poderia ser caracterizado como luxo. Sua mãe, para secar suas fraldas de pano feitas em casa, usava uma forma de alumínio em cima do fogão a lenha.

A roupa era passada num ferro cheio de brasas. O rádio funcionava a pilhas. Televisão não existia. O chuveiro era um balde que derramava água esquentada no mesmo fogão a lenha. Cada um tinha uma cota de água quente.

A luz era uma chama de lamparina, acesa com querosene. O cheiro empesteava a casa inteira. Lampião a gás era coisa de gente abastada. Liquidificador, batedeira, máquina de lavar, geladeira, internet. Luxo que a vida providenciaria algumas décadas mais tarde.

No último final de semana, ele teve o gostinho de reviver a sensação da falta de força, como diziam seus pais e avós. O vendaval que varreu a cidade destruiu vários postes na sua região e deixou centenas de casas às escuras.

Em vez de se lembrar das coisas ruins, vieram-lhe lembranças das coisas boas. Ele reuniu os netos em volta da mesa de jantar, iluminada por um par de velas, e contou como foi sua infância. Recordou-se da vida familiar que acontecia em volta do fogão a lenha.

A mesa simples, mas farta, sempre tinha o que comer de coisas feitas em casa. Pão. Rosquinha de pinga. Sagu de vinho. Pudim. Porco morto na véspera. Frango caipira. Ovos catados no ninho. Os netos acompanham as histórias, envoltos num misto de espanto e incredulidade.

Como seria viver sem celular ou computador? A cada vez que os moleques levantam, a mão vai automaticamente no interruptor. Um pega o iphone e tenta em vão conectar à internet. O outro vai seco novamente na TV. Os pais precisam explicar como os equipamentos funcionam.

Ele se diverte com os netos perdidos na escuridão rasgada pelas chamas do par de velas. Os filhos dele fazem transição entre o pai e os filhos. Entre o que tinha pouco e os que têm demais. As diferenças das duas gerações não são apenas materiais.

Lembranças vividas. Recordações resgatadas. O gatilho que dispara a memória dele é a luz. Neste caso, a falta dela. Como as horas avançam, é melhor ir dormir. O par de velas abre caminho no breu. Amanhã é outro dia. Quem sabe ao acordar a força já voltou.

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Imagem: Reprodução: http://www.limacoelho.jor.br/index.php/No-tempo-dos-candeeiros/

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