quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Sol e areia

O mendigo e a ração para peixe

__Mendigo não tem de votar. Não faz nada na vida. Não tem de tomar atitude nenhuma. Aliás, acho até que deveria virar ração para peixe.
__ A gente trabalhando feito maluco. Não dou nada pra mendigo. Se quiser, vai trabalhar.
__Todo mundo tem de trabalhar. Eu levanto cedo. Por que mendigo tem de votar? Não tem de votar mesmo, não.
__As novelas passam gente transando escandalosamente na frente das crianças. Não se pode liberar tudo.
 __É ridículo acabar com a censura. Lógico que não a censura como existia, falar do jeito que pensa.

As declarações são do vereador José Paulo Carvalho de Oliveira, o Russo (PTdoB), do município de Piraí, no Rio de Janeiro, e foram feitas – pasmem – durante sessão comemorativa dos 25 anos da Constituição.

O que falar sobre esse tipo de declaração vinda de um representante eleito para defender a população? 
O que falar de um representante eleito que destila ódio, defendendo a censura e a pena de morte?
O que falar de um representante eleito que sugere transformar morador de rua em ração para peixe?

O absurdo das declarações não reside somente nelas, mas na repercussão que o poder dessas palavras têm.
Afinal, esse vereador representa não somente os que votaram nele, mas muita gente que pensa e age igual a ele Brasil afora.

José Paulo Carvalho de Oliveira é o sintoma de uma parte da sociedade que se caracteriza pelo individualismo, quando associa sucesso com esforço unicamente pessoal.
Para esses, os direitos humanos devem ser direcionados aos humanos direitos, numa perspectiva maniqueísta, que – inclusive – abusa do teor religioso.

Neste caso, não adianta o discurso de que é necessário escolher melhor os próprios representantes. 
Afinal, esses representam seus eleitores porque tiveram os votos para isso.
O representante do povo é representa apenas; é a extensão de quem os escolheu. 

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Debate atrasado e superficial

A Folha.com, de hoje (dia 29), informa que o Ministério Público do Trabalho cercou a televisão brasileira no combate ao trabalho infantil. Segundo a reportagem, neste mês, foram intimados representantes de agências, produtoras e emissoras de TV. O tema é muito importante, mas não espere grande repercussão, até porque a televisão é uma grande interessada no assunto.

O objetivo é fazer com que essas empresas providenciem autorização judicial para menores de 16 anos em gravações. Pela legislação, os maiores de 16 anos podem trabalhar normalmente. Entre 14 e 16 anos, somente na condição de aprendiz. O artigo 60 do Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece expressamente: “É proibido qualquer trabalho a menores de quatorze anos de idade.” Portanto, para trabalhar os menores de 16 precisam de autorização judicial.

Segundo a Folha.com, a intensificação do combate ao trabalho infantil na TV começou em 2009, com a menina Maísa, que tinha 7 anos e trabalhava no programa “Silvio Santos”, no SBT. “A procuradoria acusou o canal de desrespeitar leis que permitem o trabalho de menores.”

O combate ao trabalho infantil na televisão, e na área cultural de modo geral, está atrasado no Brasil. O tema encontra resistência porque na maioria das vezes, o trabalho infantil nas artes é encarado mais como talento e menos como ocupação. Além disso, há quem defende que nas artes, o trabalho é mais digno, mais nobre, ou seja, há status nesse tipo de ocupação. 

Do ponto de vista da legislação, o conceito de trabalho infantil não faz exceções conforme a nobreza da atividade desenvolvida, mesmo que uma atividade seja mais perigosa que a outra. Afinal trabalho é trabalho. O que difere são as condições a que a criança está exposta e as penas para quem explora o trabalho infantil, conforme a sua natureza. Mais digna ou menos digna, o trabalho infantil nas artes não deixa de ser trabalho. Que o diga a dupla Sandy e Junior, com sua Maria Chiquinha.

Partindo do pressuposto que o trabalho de crianças na TV passa pelo talento, por boas condições de trabalho e pela remuneração, por que não exigir que crianças que atuam em carvoarias e nas fazendas tenham piso salarial, carga horária definida e equipamentos individuais de proteção? A proposta é absurda, mas revela como a sociedade trata diferente situações iguais. Crianças em carvoarias e fazendas não devem ser aceitas, mas o trabalho infantil artístico pode ser flexibilizado? 

Esse debate, além de atrasado, é superficial e hipócrita, principalmente, por causa do poder que a televisão exerce no país. Lembram-se da campanha que a Rede Globo moveu contra a decisão do juiz Siro Darlan, no Rio de Janeiro, de proibir a presença de crianças na novela Laços de Família? O mesmo juiz autuou artistas e proibiu cartazes de shows, sendo taxado de censor. 

Trabalho infantil é trabalho infantil. O resto é interpretação conforme as conveniências e os interesses dos envolvidos.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Sobre opinião e ânus

Circula pelo Facebook a ilustração que inspirou esse post, cujo conteúdo ensina o que fazer com a sua opinião. O material parece uma brincadeira, e não deixa de ser - ressalte-se de mau gosto. Afinal o material despreza o processo de formação da opinião e a liberdade de expressão.

Numa linguagem que remete ao discurso médico – aquele que mostra o passo a passo de como usar medicamentos – a ilustração propõe ao dono introduzir a opinião "bem fundo em sua cavidade anal", ou seja, enfie no meio do seu... ânus. Esse discurso contrasta com a luta pela livre manifestação do pensamento, algo tão caro à democracia. 

Historicamente, a participação do leitor nos veículos tradicionais de comunicação sempre foi limitada. A seção de cartas dos jornais, por causa do espaço pequeno, contemplava poucos leitores, ou seja, a seleção deixava de fora muita gente que se manifestava. 

Na TV, essa participação era praticamente inexistente. Escolher, por exemplo, um entre três filmes no sábado à noite, numa lista previamente definida, não era sinônimo de participar. E o rádio, dos meios de comunicação de massa, era o veículo que mais abria espaço ao ouvinte que, além de pedir música, reclamava do buraco da rua, da árvore condenada, do terreno baldio, enfim... sua voz encontrava eco.

Do ponto de vista da participação nas plataformas convencionais pouca coisa mudou. E é na internet que esses veículos agora abrem espaços generosos aos comentários dos internautas, ou seja, a rede é um instrumento que, além de democratizar o acesso à informação, potencializa a voz do cidadão comum. 

Se nos jornais, rádios e TVs, via internet, o espaço cresceu imagine nas redes sociais nas quais o cidadão torna-se dono do seu próprio veículo. Ele define e executa a sua linha editorial. Texto, fotografia, áudio e vídeo portam mais que opinião. São portadores de defesas e de ataques; da bondade e da maldade. 

Antes que alguém me mande seguir o passo a passo da ilustração com esse meu texto, ou seja, a minha opinião sobre a opinião, responda a si mesmo. Onde você enfia a sua e a que ela serve? A luta pela liberdade de expressão parece vencida num país que goza do status de democracia, mas agora se consolida uma nova etapa nesse processo: o exercício da liberdade com responsabilidade. 

Pensar não é uma tarefa fácil. Pensar e manifestar o pensamento com respeito é ainda mais difícil. Você está preparado para tal tarefa?

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Violência e paz. Vida e morte.

Apoio e incentivo a ação dos Black Bloc em São Paulo e no Rio de Janeiro. Essa ação violenta se justifica por causa da atuação da polícia na repressão às manifestações e às prisões de manifestantes. Apoio e incentivo o quebra-quebra de agências bancárias, prédios públicos porque é uma resposta à violência institucionalizada do estado para com o cidadão.

Não apoio e não incentivo a ação do Movimento Sem Terra (MST) na invasão de terras pelo Brasil afora. Não apoio e não incentivo porque se trata – sob o pretexto da reforma agrária – praticar a violência contra a propriedade e os bens de gente que lutou a vida inteira para poder comprar suas terras. 

Apoio e incentivo a invasão de laboratórios que usam animais em testes para a produção e produtos de beleza. Apoio e incentivo porque é uma ação humanitária de resgate desses bichos que sofrem maus tratos. É a defesa dos direitos dos animais. Esses bichos não podem servir de cobaia para a fabricação de produtos para o luxo dos seres humanos.

Não apoio e não incentivo as regalias de presos no sistema carcerário. Não apoio e não incentivo porque esses bandidos entraram para o crime por opção, porque quiseram. Por isso, não merecem regalias. A polícia tem de mandar bala nesses ladrões que roubam os cidadãos de bens que trabalham muito para dar o de melhor a sua família.

Apoio e incentivo a vida. Foi bom na hora de fazer? Então agora crie porque o filho é seu. Apoio e incentivo a vida porque sou contra o aborto que é uma forma de assassinato, de matar um ser indefeso que não tem como se proteger. A vida é um bem muito precioso e não podemos concordar com a prática do aborto.

Não apoio e não incentivo penas brandas para os condenados. Bandido tem de pagar pelo que fez. Se pudesse escolher em um plebiscito, votaria pela instituição da pena de morte para criminosos. Quem faz a opção pela maldade jamais será recuperado e sempre será um perigo para a sociedade. 

Violência e paz. Vida e morte. Enquanto a sociedade insistir em fazer juízo de valor diferenciado conforme a clientela, a sociedade atual nunca gozará plenamente o status de civilizada. Não são apenas contradições. Trata-se de escolher quem deve viver mais e melhor. E isso diz tudo sobre o que somos.

domingo, 20 de outubro de 2013

Inquietudes (185) do Rei

Estou admirado com parte da sociedade brasileira que aceita e apoia a depredação de bens públicos e particulares nas ações do Black Bloc, com suas pautas difusas e variadas. E aí vamos apoiar o MST nas ocupações de fazendas, prédios e praças de pedágio na luta pela reforma agrária e pelo direito à terra?

Inquietudes (184) do Rei

A sociedade que se escandaliza com o uso de animais em testes de cosméticos é a mesma que aplaude o ladrão sangrando no asfalto numa tentativa frustrada de assalto. Enquanto insistirmos em dar mais valor a uma vida que à outra, nunca poderemos chamar isso de civilização. Vida é vida. O resto é interpretação e preconceito.

sábado, 19 de outubro de 2013

Sobre ladrões e vítimas

Na semana que passou, um vídeo fez sucesso na internet e repercutiu pelo país afora. Trata-se da gravação, em São Paulo, de um ladrão que tentou roubar uma moto Hornet e foi baleado por um policial que passava na hora do assalto. Ele levou dois tiros, teve de ser hospitalizado e seu comparsa acabou fugindo. As imagens foram feitas pela própria vítima com uma câmera instalada no capacete. Ao desfecho, a vítima agradece o policial pelas balas ao ladrão.

__Obrigado polícia (pausa). Obrigado polícia, obrigado mesmo. (pausa) Vai roubar agora no inferno maluco.

O episódio incentivou muito debate nas redes sociais. Mais defesas e ataques apaixonados do que necessariamente reflexão sobre o acontecimento a partir das suas causas e consequências. No centro da discussão, apoio e condenação à ação do policial que disparou contra o ladrão. Pelo nível das manifestações nas redes sociais, o fato causa algumas inquietudes. Arrisco algumas.

1) O custo de uma moto Hornet varia, conforme o modelo, ente R$ 30 mil e 35 mil. Portanto, o bem material vale mais que uma vida, principalmente, se essa vida tiver sido perdida para o crime. Afinal, bandido bom é bandido morto. Quem defende esse raciocínio costuma dar valor à vida dos outros, a partir dos seus conceitos, preconceitos e sua própria vivência. 

2) Muitos aplaudiram a cena do ladrão sangrando no asfalto porque o vagabundo não quer trabalhar para comprar sua própria motocicleta, preferindo roubar a dos outros. Esse discurso é antigo. Só não trabalha quem não quer, como se tivesse emprego para todos e bastasse ter uma ocupação remunerada para comprar o que é oferecido pelo mercado. 

3) Neste contexto, as pessoas não costumam debater a qualidade e as condições do trabalho, nem o salário do trabalhador. Este é suficiente para comprar o que a publicidade anuncia? Você que lê esse texto e tem trabalho comprou o carro e a casa que queria, ou comprou o carro e a casa que podia comprar? Portanto, só trabalhar para ter não é a resposta para tudo.

4) Conforme os noticiários sobre o ocorrido, a vítima tem o hábito de gravar seus passeios em sua Hornet branca para publicar na internet. Na era da exposição on-line, a vaidade ganha acesso em banda larga, milhares de curtidas e compartilhamento em pouco tempo. Sim, a inveja existe. Porque também existe a ostentação. Aliás, essa é uma característica típica das sociedades capitalistas. Ostentar os próprios bens. Meu carro é melhor. Minha casa é maior. Meu apartamento é mais caro. A exibição atrai a curiosidade. E também a maldade alheia.

5) O policial que estava no lugar certo e na hora certa – para a vítima; e no lugar errado e na hora errada – para o ladrão, também foi aplaudido. Não tenho condições de discorrer se – do ponto de vista técnico – o policial agiu de forma errada ou acertada, mas me inquieta o aval da sociedade para que a polícia mate. Qualquer um pode ser a vítima, não é não Amarildo?

6) Sim, muitos bandidos entram para o crime por falta de oportunidade na vida. Para muitos desses, as políticas sociais são necessárias, inclusive, como medida de prevenção à violência. No entanto, existe uma parcela que faz opção pela maldade. Não quer benefício social porque o desenvolvimento enquanto cidadão é lento. O assalto rende frutos de forma mais rápida. O que fazer com quem opta por ser mau?

7) Quando uma sociedade valoriza o ter sobrepondo-se ao ser, vídeos como esse não são apenas efeitos colaterais. São sintomas de uma sociedade doente que paga pelo preço de suas escolhas. Portanto, ladrões e vítimas coexistem num mesmo processo que em todos são responsáveis, em que são causa e consequência de si mesmos.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Inquietudes (183) do Rei

As eleições de 2014 serão emocionantes. Dilma é continuação dela e do Lula. A gente sabe o que fazem. Aécio e Serra são tucanos. A gente sabe o que fazem. Eduardo Campos e o PSB amarram alianças da esquerda à direita. A gente sabe o que fazem. Marina Silva era PT, foi para o PV, tentou criar a Rede patrocinada por grandes empresários/banqueiros e não conseguiu. Filiou-se no último prazo no PSB e está rifando Eduardo Campos. Marina Silva desperta a Regina Duarte que vive em mim: eu tenho medo!

sábado, 5 de outubro de 2013

Inquietudes (182) do Rei

Ela era petista em 2009. 
Saiu do PT e foi para o PV para concorrer à Presidência da República, em 2010. 
Depois das eleições, deixou o PV para criar a Rede, com apoio de grandes empresários (leia-se O Boticário e Itaú). 
Pressionou o TSE e não deu certo porque não conseguiu cumprir as regras da legislação. 
Enquanto espera pela Rede, filia-se ao PSB para disputar as eleições em 2014
Para quem diz fazer política de um jeito diferente, Marina Silva está muito igual a todos os políticos tradicionais que critica. 
A fala mansa, o jeito delicado, a carinha de boa cristã não enganam!
Marina Silva é, neste momento, o retrato atual do oportunismo político.
É tudo aquilo que o gigante abominou nas manifestações de junho. 
Pena que ele voltou a dormir.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Pacificação sexual

O comportamento politicamente correto é criticado por milhões como atitudes necessariamente enfadonhas que tolhem a criatividade e cerceiam a liberdade de expressão. Claro, tudo que é demais enche o saco; tudo que é excessivamente exagerado cansa. Inclusive o comportamento politicamente incorreto que ajuda, por exemplo, a manter os estereótipos de sempre. Os dois lados têm razão por conta dos excessos.

Em questões polêmicas e limítrofes, as pessoas tomam partido e assumem suas posturas. Não é à toa que Rafinha Bastos apanha (merecidamente) quando banaliza o estupro; que Zorra Total paga o preço pelo humor barato e sem graça. No entanto, é no dia-a-dia que pequenas coisas podem fazer diferença, por exemplo, um inofensivo banner, como o que ilustra esse texto. A tarja é por minha conta.

Nas redes sociais, o policial do Rio de Janeiro é curtido e compartilhado por muitas mulheres que suspiram na fila do bem apessoado PM. __Me chama de Rocinha e me pacifica! A pacificação da mulherada pelo policial bonitão faz alusão à UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), projeto de segurança pública desenvolvido no Rio de Janeiro, cenário da foto do PM. 

Conforme o site do projeto,  “o objetivo da polícia pacificadora é retomar territórios antes dominados por grupos criminosos ostensivamente armados e estabelecer o Estado Democrático de Direito.” Quem conhece um pouquinho da atuação da polícia brasileira sabe que a PM, muitas vezes, atira para depois perguntar. Infelizmente, o Brasil tem mais amarildos do que gostaríamos. Portanto a pacificação dos morros do Rio de Janeiro também é feita com violência, com dor.

Portanto, ao associar o desejo ao policial bonitão e forte à estratégia de pacificação dos morros, surgem dois questionamentos. A mulher permitiria a violência sexual para ser pacificada, ou seja, ter o desejo sexual satisfeito? Esse tipo de imagem não reforçaria – na cultura do estupro – que a culpa é da própria vítima? 

Muitos vão dizer que não; que isso é delírio de gente politicamente correta; de feminista mal-amada; que não passa de uma brincadeira; que se trata apenas de humor. Concordo! Isso também existe nessa discussão, mas em maior ou menor grau, a gente é o que consome e divulga.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Brasil sem educação

1978 é um ano significativo. É o ano que entrei na escola e já sabia escrever meu próprio nome. Se escrever o nome é sinônimo de ser alfabetizado, posso dizer que fui, então, alfabetizado pela minha mãe. 

Lembro-me claramente da dona Iracy pegando minha mão e me ajudando a desenhar cada letra de Reinaldo César Zanardi. Minha mãe, minha primeira professora, é professora na minha vida até hoje. 

Na escola formal, minha primeira professora é a dona Rosa Abe. Nome de flor. Quando me recordo dela me ocorrem lembranças boas. Ela – sem saber, afinal tinha tantos alunos – me incentivou a gostar de estudar, de ter prazer de aprender. Ela me ensinou a respeitar quem educa.

Não sei se por missão ou picuinha do destino, me tornei também professor. Por isso, respeito ainda mais os do ensino fundamental e médio. Se ensinar uma técnica profissional é difícil, imagina educar. Faço essa distinção porque na faculdade, pegamos os alunos educados. Bem ou mal educados, é outra história.

A educação se faz na primeira escola, tanto que esse período é chamado de educação básica, dividida em educação infantil, ensino fundamental e médio. Como educar o Brasil se o professor apanha da polícia quando reivindica melhores salários e condições de trabalho? 

A violência contra os professores no Rio de Janeiro (foto acima) não é um sintoma isolado. Sérgio Cabral e sua polícia militar são reflexo do mando e do desmando institucionalizado, mas os professores resistem. Educar é assim. O spray de pimenta aumenta a resistência. Em 1988, outro governador soltou os cavalos da PM em cima dos professores. Este caso ocorreu no Paraná e o então governador atende pelo nome de Álvaro Dias. 

Exemplos de violência contra professores são diários. O professor apanha da polícia e também do aluno na sala de aula. Quando o professor apanha, nossa a sociedade afirma que o passado vale nada, reafirma que o presente é mero casuísmo e confirma que não há expectativa de futuro.

Não sei quantos anos tem hoje, a minha primeira professora, a que tem nome de flor. Dia desses fiquei sabendo que ela anda firme e forte. Aposentada, curte merecido descanso. Aos seus colegas de profissão da ativa resta lutar para que o Brasil não seja sem educação. 
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Imagem: Marcos de Paula/Estadão Conteúdo.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Inquietudes (181) do Rei

Vamos lá, todo mundo de rosa nesse mês para detectar o câncer precoce de mama.
Afinal, outubro é rosa! 
Não importa se você boicota o Mais Médicos, se joga contra a saúde pública e se é contra a vinda dos médicos estrangeiros. 
Vamos detectar o câncer de mama.
Depois a gente vê o que faz!

Efeito colateral

Gerações lutaram e muitos morreram em nome da liberdade de expressão. Gritaram por liberdade e foram massacrados. Reivindicaram expressão e foram reprimidos, oprimidos. Os regimes autoritários não fazem concessão e a liberdade é a primeira a sofrer baixas.

A memória dos tempos de truculência militar no Brasil – diga-se com o apoio moral e logístico de muitos setores da sociedade brasileira, incluindo a mídia – ainda está fresca. Rasga a lembrança a violência militar institucionalizada. Esbofeteia a face o desrespeito às garantias individuais.

Não por acaso, o medo da censura tolhe qualquer tentativa de democratização dos meios de comunicação. Falar em controle social, para muitos, é ditar regras para impor o silêncio. Como se esse não existisse em tempos democráticos, direcionado pelos interesses econômicos, políticos e ideológicos, não necessariamente nesta ordem.

Depois de 21 anos de ditadura militar, o brasileiro reconquistou o direito de falar de tudo e de todos. A liberdade de expressão deixou o plano dos desejos e das vontades, da teoria e das leis, e virou realidade, de tal forma que permite e incentiva o exercício livre da expressão.

Mas a liberdade de expressão, quem diria, tem efeito colateral. A luta de muitos pela liberdade é manchada, diariamente, pelo racismo em forma de expressão; pelo preconceito travestido de opinião; pela discriminação fantasiada de informação.

O sintoma é objetivo e a causa é um mal muito conhecido: a intolerância. Alguém poderia argumentar que a informação é o medicamento para a cura, mas se ela chega contaminada, vai deixar ainda pior o enfermo que se considera saudável. 

Assim, a liberdade de expressão é transposta a outro patamar. Não basta apenas a liberdade e a oportunidade para se expressar. É preciso fazer com respeito e responsabilidade, ou seja, esse é um objetivo e um desafio. E, por isso mesmo, um aprendizado diário e muito difícil. 

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Oportunidade jogada fora

João sumiu naqueles anos de chumbo no Brasil. Tinha 19 anos e estava começando a faculdade nos idos de 1969. Queria, como muitos de sua época, mudar o mundo. Na faculdade, envolveu-se com um grupo que causava calafrios aos conformados do regime.

Ele e um grupo de amigos militavam em atividades consideradas subversivas. Reuniões políticas, planos partidários e muita, mas muita liberdade de pensamento e de expressão. No grupo, ele se destacava pela veia literária. Seus poemas coravam a brutalidade do regime. Suas poesias sonhavam com papel impresso. 

Ele queria apenas falar, expressar-se, mas nas suas falas havia mais que uma expressão. Tinha uma acusação. Revelava uma denúncia. Descortinava uma violência. Seus textos não eram apenas palavras, frases e orações. Eram esperança. Eram desejo. Esperança e desejo de liberdade. E, por isso mesmo, eram inimigos do regime. 

Naquela quarta-feira chuvosa e fria, ele os amigos estavam em reunião. O lugar, uma salinha numa sobreloja sem visibilidade alguma. Um ponto qualquer na cidade. Descobertos, ele e os amigos foram levados à força. Três viaturas descaracterizadas levaram os jovens. A última vez, que a mãe viu o João fora naquela tarde. Ela deu-lhe uma dúzia de bolinhos de chuva e despediu-se com um beijo na testa.

João desapareceu e sua família nunca mais soube dele. Sua mãe enterrou em vida o filho sem o corpo. E se João voltasse hoje 44 anos depois? O que diria João sobre o papel da mídia na vida política do país?

A reportagem do Estadão sobre a quebra de sigilo bancário de nomes fortes do PSDB de São Paulo repercutiu e, como sempre, instaurou o bate-boca entre os internautas. João diria que importa pouco a verdade; que importa menos ainda o combate à corrupção. O problema é o corrupto do outro. Opinião vira agressão. Expressão vira crime. Calúnia. Injúria. Difamação. João lamentaria profundamente.


O que diria João sobre a qualidade da expressão cuja liberdade tanto lutou? João pressupõe que leitores de um jornal tradicional como O Estadão sejam gente com grau elevado de instrução e informação, ou seja, gente educada. João cometeria um engano! Gente educada debate, não ofende.

O tema é política e os internautas se engalfinham para ver quem tem o político menos corrupto, mas esse comportamento se esparrama pela rede quando o assunto é polêmico: liberação de drogas, casamento gay, religião, por exemplo. O que João diria sobre o exercício da liberdade para opinar nos espaços de comentários dos jornais on-line? João não teve a oportunidade para refletir sobre isso, mas nós temos e estamos jogando-a fora.