terça-feira, 1 de outubro de 2013

Oportunidade jogada fora

João sumiu naqueles anos de chumbo no Brasil. Tinha 19 anos e estava começando a faculdade nos idos de 1969. Queria, como muitos de sua época, mudar o mundo. Na faculdade, envolveu-se com um grupo que causava calafrios aos conformados do regime.

Ele e um grupo de amigos militavam em atividades consideradas subversivas. Reuniões políticas, planos partidários e muita, mas muita liberdade de pensamento e de expressão. No grupo, ele se destacava pela veia literária. Seus poemas coravam a brutalidade do regime. Suas poesias sonhavam com papel impresso. 

Ele queria apenas falar, expressar-se, mas nas suas falas havia mais que uma expressão. Tinha uma acusação. Revelava uma denúncia. Descortinava uma violência. Seus textos não eram apenas palavras, frases e orações. Eram esperança. Eram desejo. Esperança e desejo de liberdade. E, por isso mesmo, eram inimigos do regime. 

Naquela quarta-feira chuvosa e fria, ele os amigos estavam em reunião. O lugar, uma salinha numa sobreloja sem visibilidade alguma. Um ponto qualquer na cidade. Descobertos, ele e os amigos foram levados à força. Três viaturas descaracterizadas levaram os jovens. A última vez, que a mãe viu o João fora naquela tarde. Ela deu-lhe uma dúzia de bolinhos de chuva e despediu-se com um beijo na testa.

João desapareceu e sua família nunca mais soube dele. Sua mãe enterrou em vida o filho sem o corpo. E se João voltasse hoje 44 anos depois? O que diria João sobre o papel da mídia na vida política do país?

A reportagem do Estadão sobre a quebra de sigilo bancário de nomes fortes do PSDB de São Paulo repercutiu e, como sempre, instaurou o bate-boca entre os internautas. João diria que importa pouco a verdade; que importa menos ainda o combate à corrupção. O problema é o corrupto do outro. Opinião vira agressão. Expressão vira crime. Calúnia. Injúria. Difamação. João lamentaria profundamente.


O que diria João sobre a qualidade da expressão cuja liberdade tanto lutou? João pressupõe que leitores de um jornal tradicional como O Estadão sejam gente com grau elevado de instrução e informação, ou seja, gente educada. João cometeria um engano! Gente educada debate, não ofende.

O tema é política e os internautas se engalfinham para ver quem tem o político menos corrupto, mas esse comportamento se esparrama pela rede quando o assunto é polêmico: liberação de drogas, casamento gay, religião, por exemplo. O que João diria sobre o exercício da liberdade para opinar nos espaços de comentários dos jornais on-line? João não teve a oportunidade para refletir sobre isso, mas nós temos e estamos jogando-a fora.

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