sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Pacificação sexual

O comportamento politicamente correto é criticado por milhões como atitudes necessariamente enfadonhas que tolhem a criatividade e cerceiam a liberdade de expressão. Claro, tudo que é demais enche o saco; tudo que é excessivamente exagerado cansa. Inclusive o comportamento politicamente incorreto que ajuda, por exemplo, a manter os estereótipos de sempre. Os dois lados têm razão por conta dos excessos.

Em questões polêmicas e limítrofes, as pessoas tomam partido e assumem suas posturas. Não é à toa que Rafinha Bastos apanha (merecidamente) quando banaliza o estupro; que Zorra Total paga o preço pelo humor barato e sem graça. No entanto, é no dia-a-dia que pequenas coisas podem fazer diferença, por exemplo, um inofensivo banner, como o que ilustra esse texto. A tarja é por minha conta.

Nas redes sociais, o policial do Rio de Janeiro é curtido e compartilhado por muitas mulheres que suspiram na fila do bem apessoado PM. __Me chama de Rocinha e me pacifica! A pacificação da mulherada pelo policial bonitão faz alusão à UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), projeto de segurança pública desenvolvido no Rio de Janeiro, cenário da foto do PM. 

Conforme o site do projeto,  “o objetivo da polícia pacificadora é retomar territórios antes dominados por grupos criminosos ostensivamente armados e estabelecer o Estado Democrático de Direito.” Quem conhece um pouquinho da atuação da polícia brasileira sabe que a PM, muitas vezes, atira para depois perguntar. Infelizmente, o Brasil tem mais amarildos do que gostaríamos. Portanto a pacificação dos morros do Rio de Janeiro também é feita com violência, com dor.

Portanto, ao associar o desejo ao policial bonitão e forte à estratégia de pacificação dos morros, surgem dois questionamentos. A mulher permitiria a violência sexual para ser pacificada, ou seja, ter o desejo sexual satisfeito? Esse tipo de imagem não reforçaria – na cultura do estupro – que a culpa é da própria vítima? 

Muitos vão dizer que não; que isso é delírio de gente politicamente correta; de feminista mal-amada; que não passa de uma brincadeira; que se trata apenas de humor. Concordo! Isso também existe nessa discussão, mas em maior ou menor grau, a gente é o que consome e divulga.

2 comentários:

Crônicas da Dulce Mazer disse...

Salve Rei! Lúcido para com as questões feministas, como sempre!
Infelizmente a cultura machista é predominante, embora sejamos a maioria das populações (até mesmo na China, onde as meninas bebês são mortas, para evitar a "desgraça das famílias").
Essa vinculação entre igualdade entre os gêneros e liberdade sexual é mesmo muito confusa nos dias de hoje. O que eu percebo é que junto da liberdade, nos apropriamos de um modo de oprimir sexualmente, que agora parte também de mulheres para com homens. E ocorre até mesmo entre homossexuais, homens e mulheres.
Quanto à polícia, basta lembrar o que ocorreu na desocupação do Pinheirinho, em 2011. Na calada da noite, as forças policiais retomaram o terreno, violentando mulheres e batendo em crianças. Enfim, receita que não pode terminar bem é poder, força coercitiva e fragilidade feminina.
E nesse caso, estou falando de fragilidade física, que é um fato muitas vezes, quando um brutamontes de 100kg resolve apertar a garganta de uma mulher de 1,55m e abrir-lhe as pernas. Triste fim. Vale lembrar de um filme de Brian de Palma (Redacted, 2007) que se baseia na história de uma jovem estuprada por tropas norte americanas em Mahmudiyah, no Iraque.
De qualquer maneira, curtir e compartilhar deveriam ser atitudes "politiciamente saudáveis", corretas e positivas! Afinal, o feminismo não faz mal, mas o machismo mata.

Reinaldo César Zanardi disse...

"O feminismo não faz mal, mas o machismo mata." Exatamente isso, Dulce. O machismo pode ser fatal e quando não é fatal machuca.

É preciso criar uma cultura que seja responsável nessas questões. Não existe inocência. Brincadeira por brincadeira, muitas mulheres fazem a manutenção do machismo contribuindo para uma cultura violenta.