sábado, 19 de outubro de 2013

Sobre ladrões e vítimas

Na semana que passou, um vídeo fez sucesso na internet e repercutiu pelo país afora. Trata-se da gravação, em São Paulo, de um ladrão que tentou roubar uma moto Hornet e foi baleado por um policial que passava na hora do assalto. Ele levou dois tiros, teve de ser hospitalizado e seu comparsa acabou fugindo. As imagens foram feitas pela própria vítima com uma câmera instalada no capacete. Ao desfecho, a vítima agradece o policial pelas balas ao ladrão.

__Obrigado polícia (pausa). Obrigado polícia, obrigado mesmo. (pausa) Vai roubar agora no inferno maluco.

O episódio incentivou muito debate nas redes sociais. Mais defesas e ataques apaixonados do que necessariamente reflexão sobre o acontecimento a partir das suas causas e consequências. No centro da discussão, apoio e condenação à ação do policial que disparou contra o ladrão. Pelo nível das manifestações nas redes sociais, o fato causa algumas inquietudes. Arrisco algumas.

1) O custo de uma moto Hornet varia, conforme o modelo, ente R$ 30 mil e 35 mil. Portanto, o bem material vale mais que uma vida, principalmente, se essa vida tiver sido perdida para o crime. Afinal, bandido bom é bandido morto. Quem defende esse raciocínio costuma dar valor à vida dos outros, a partir dos seus conceitos, preconceitos e sua própria vivência. 

2) Muitos aplaudiram a cena do ladrão sangrando no asfalto porque o vagabundo não quer trabalhar para comprar sua própria motocicleta, preferindo roubar a dos outros. Esse discurso é antigo. Só não trabalha quem não quer, como se tivesse emprego para todos e bastasse ter uma ocupação remunerada para comprar o que é oferecido pelo mercado. 

3) Neste contexto, as pessoas não costumam debater a qualidade e as condições do trabalho, nem o salário do trabalhador. Este é suficiente para comprar o que a publicidade anuncia? Você que lê esse texto e tem trabalho comprou o carro e a casa que queria, ou comprou o carro e a casa que podia comprar? Portanto, só trabalhar para ter não é a resposta para tudo.

4) Conforme os noticiários sobre o ocorrido, a vítima tem o hábito de gravar seus passeios em sua Hornet branca para publicar na internet. Na era da exposição on-line, a vaidade ganha acesso em banda larga, milhares de curtidas e compartilhamento em pouco tempo. Sim, a inveja existe. Porque também existe a ostentação. Aliás, essa é uma característica típica das sociedades capitalistas. Ostentar os próprios bens. Meu carro é melhor. Minha casa é maior. Meu apartamento é mais caro. A exibição atrai a curiosidade. E também a maldade alheia.

5) O policial que estava no lugar certo e na hora certa – para a vítima; e no lugar errado e na hora errada – para o ladrão, também foi aplaudido. Não tenho condições de discorrer se – do ponto de vista técnico – o policial agiu de forma errada ou acertada, mas me inquieta o aval da sociedade para que a polícia mate. Qualquer um pode ser a vítima, não é não Amarildo?

6) Sim, muitos bandidos entram para o crime por falta de oportunidade na vida. Para muitos desses, as políticas sociais são necessárias, inclusive, como medida de prevenção à violência. No entanto, existe uma parcela que faz opção pela maldade. Não quer benefício social porque o desenvolvimento enquanto cidadão é lento. O assalto rende frutos de forma mais rápida. O que fazer com quem opta por ser mau?

7) Quando uma sociedade valoriza o ter sobrepondo-se ao ser, vídeos como esse não são apenas efeitos colaterais. São sintomas de uma sociedade doente que paga pelo preço de suas escolhas. Portanto, ladrões e vítimas coexistem num mesmo processo que em todos são responsáveis, em que são causa e consequência de si mesmos.

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