segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Fazer errado

O motorista reclama do outro que parou em estacionamento proibido e, quando pode, para no mesmo lugar.

O cidadão reclama do outro que furou a fila e - na primeira oportunidade - repete o gesto que criticou anteriormente.

O morador reclama do som alto com o síndico não para que o vizinho baixe o volume, mas para ter o direito de ouvir na mesma quantidade de decibéis.

O aluno quer contar para o professor que o colega colou, menos porque considera errado, mais porque gostaria de ter colado.

A namorada ataca a traição do namorado (ou vice-versa) e promete fazer o mesmo.

O irmão quer contar para a mãe que a irmã mentiu e, se puder, vai contar suas mentirinhas. 

Muitas vezes, as pessoas reclamam de quem faz algo errado não para praticar o certo, mas para ter o direito de fazer errado também.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Sociedade espetacular!

A TV glamuriza a nudez feminina e masculina. O público deleita-se com coxas, peitos e bundas. Trata-se do mesmo público que, vez em quando, se escandaliza com a erotização precoce e com a gravidez na adolescência.

A TV glamuriza o sexo e a prática sexual. O público excita-se entre a sensualidade, a vulgaridade e a pornografia. Trata-se do mesmo público que, geralmente, ignora o sexo seguro e a prevenção às doenças sexualmente transmissíveis.

A TV glamuriza a biscatice. Na ficção, o público entra em júbilo com a vilã da novela e suas perversidades. Trata-se do mesmo público que, geralmente, abomina na realidade as vadias e suas marchas pelos direitos da mulher.

A TV glamuriza a homossexualidade. Na ficção, o público torce pelo final feliz do casal do mesmo sexo. Trata-se do mesmo público que, geralmente, nega cotidianamente o direito de dois homens casarem ou duas mulheres adotarem.

Na sociedade do espetáculo (salve! Guy Debord) a televisão é soberana. A normalidade vira reality show. O anônimo transforma-se em celebridade. A celebridade ascende ao Olimpo. Zeus ganha concorrentes.

Enquanto isso... na sociedade dos mortais, os direitos humanos não são glamurizados. São constantemente negligenciados. O essencial não integra o espetáculo, afinal o show não pode deixar de ser uma mera ilusão.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Inquietudes (194) do Rei

O final do ano é glamurizado. Simpatias para recepcionar o novo ano. Simpatias para se despedir do ano velho. Bebida demais. Comida demais. Fogos demais. Ressaca demais. O excesso é a regra. Celebridades contam o que fazem. Sub-celebridades querem contar o que fazem. A passagem de ano é um ritual exterior. Será por isso que poucos aguentam olhar para dentro de si nessa época do ano? 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Tempo de renovação

Aproxima-se o novo ano e, com ele, muitos renovam as promessas, aquelas feitas no ano passado, no anterior, no anterior do anterior, no anterior do anterior do anterior... enfim, promessas feitas, não cumpridas e renovadas mais uma vez.

__Juro que paro de fumar.
__Começo uma dieta para baixar colesterol, triglicerídios, glicose.
__Vou praticar exercícios físicos todos os dias, pelo menos meia hora de caminhada.
__Prometo passar mais tempo com minha família.
__Vou diminuir a bebida e levar uma vida mais saudável.

Iemanjá está escaldada na água do mar. Ela sabe que os de sempre virão pular as primeiras ondas de 2014, assim como pularam as de 2013, 2012, 2011, 2010...

Os santos católicos - aqueles que costumam ser invocados durante as promessas - também andam desacreditando da capacidade de seus fiéis de cumprirem o que prometem.

E não falta quem aposte na cor da roupa para esperar o ano novo. Uns querem paz e harmonia, outros riqueza e dinheiro; mais alguns amor e paixão. Enfim... o que não faltam são pedidos e cores para vibrá-los.

E as simpatias? Há de vários tipos e objetivos. Para ganhar dinheiro, ter prosperidade, crescer profissionalmente, achar mulher ou marido, aumentar a sorte, ou seja, apostar na superstição é um bom recurso  para não enxergar a própria realidade e analisar o que se fez de errado no ano que passou.

Fazer promessa de final de ano resolve mesmo os problemas? Na dúvida, na passagem do ano, chupe algumas sementes de romã e guarde os caroços na carteira; use calcinha ou cueca nova na cor preferida; coma um prato de lentilhas.

E ainda: beba sete goles de champanhe segurando a taça com a mão esquerda e jogue o resto para trás sobre o ombro direito; receba o ano novo com três pulinhos no pé direito. Para cada simpatia, mentalize seu pedido.

Se você fizer isso, mas nada der certo em 2014, não se desespere! Faça tudo de novo no final do ano que vem para recepcionar 2015. 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Excesso e resto

Festas de final de ano são excesso.

Excesso de comida, 
de bebida, 
de consumo, 
de alegria,
de festa.

Festas de final de ano são resto.
O resto do excesso, 
de comida, 
de bebida, 
de consumo, 
de alegria,
de festa. 

A família reunida come demais, 
bebe demais, 
consome demais, 
alegra-se demais.

A ceia termina em terapia.
Alguns falam muito, 
outros se machucam.
Todos se perdoam.

E ano que vem tem mais.
Porque isso é família!

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Cheiro de Natal passado

O Natal tem muitos cheiros e os que me chamam a atenção são os que emergem do passado. Os da infância são os melhores.

Quando criança, lá no sítio, esses cheiros lotavam a casa. Vinham da cera dissolvida com querosene para encerar o piso vermelho de cimento queimado.

Vinham da comida, das ervas para temperar o frango, morto na véspera. Aquele frango embebido em salsinha, vinagre e pimenta do reino!

A farofa que entupia a carcaça! Demais. A molecada disputava o recheio às colheradas. Que cheiro! Que sabor! 

Os cheiros continuam assaltando-me a memória. O da pinga usada para alcoolizar outro prato de Natal: cabrito.

A morte do bicho não era agradável. Pai e avô amarravam o bicho numa árvore de cabeça para baixo e cortavam-lhe a garganta.

Uma cena nada natalina, esquecida rapidamente quando os pedaços do cabrito saltavam da panela para o prato.

Nem todos os cheiros eram agradáveis. O da carne do porco raspada com água fervente é o pior. Dando a vida para as festas de final de ano, o suíno era esquartejado.

O cheiro de pele queimada misturava-se com o bicho aberto e as entranhas lavadas para virar linguiça, costelinha frita, torresminho...

Uhnnn... o cheiro dessas delícias superava os anteriores. O porco matava a fome por muitos dias. Dias de festa. Dias sem festa.

A gente cresce e muda muita coisa. Os rituais são transformados. Uns deixam de ter importância. Outros viram protagonistas.

Os cheiros dos natais passados são um presente e tanto. Para isso, basta abrir as recordações e deixar que o olfato percorra os caminhos as lembranças. 

domingo, 22 de dezembro de 2013

Inquietudes (193) do Rei

A justiça brasileira cada vez mais se mete nos assuntos do Legislativo e do Executivo. Barrar a tramitação de projetos no Congresso Nacional, anular decisões de deputados, senadores e impedir a revisão do IPTU (com aumento para uns e redução para outros), como no caso da Prefeitura de São Paulo, são exemplos de quem legisla e executa sem ter sido eleito pelas urnas. São magistrados sem eleição, sem representação, sem voto. Isso é um perigo para a independência dos poderes e, portanto, para a própria democracia.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Estupro estatal

"O policial exerce um fascínio no dito sexo frágil. Eu não sei por que é que mulher gosta tanto de farda. Todo policial militar mais antigo tem duas famílias, tem uma amante, duas. (...) Pra elas é o máximo tá dando pra um policial. Dentro da viatura, então, o fetiche vai lá em cima, é coisa de doido"

Não! A declaração não é fictícia. É real. Trata-se de uma fala do delegado Wilson Damázio, secretário de Defesa Social de Pernambuco. Ele respondeu a uma pergunta da jornalista Fabiana Moraes, do Jornal do Commercio de Recife. Ela o questionou, conforme o blog de Ricardo Kotscho, sobre as acusações contra policiais militares do estado de praticar estupro contra meninas. 

Não contente com as declarações machistas, o delegado enveredou pelos caminhos da homofobia, associando a homossexualidade ao banditismo. "Desvio de conduta a gente tem em todo lugar. Tem na casa da gente, tem um irmão que é homossexual, tem outro que é ladrão, entendeu? Lógico que a homossexualidade não quer dizer bandidagem, mas foge do padrão de comportamento da família brasileira tradicional. Então, em todo lugar tem coisa errada, e a polícia...né? A linha em que a polícia anda, ela é muito tênue, não é?" Essas falas merecem algumas reflexões.

1) O delegado transfere a responsabilidade do estupro praticado por PMs às estupradas, ou seja, é culpa da vítima que assedia a farda porque tem fetiche em fazer sexo com policiais militares.

2) O delegado admite que policiais militares praticam sexo em serviço ou fora do expediente, usando a infraestrutura pública, paga pelo contribuinte. “Dentro da viatura, então, o fetiche vai lá em cima(...)” Portanto, o secretário é conivente com o crime e o estupro passa a ser estatal.

3) O delegado generaliza e afirma que “todo policial militar mais antigo tem duas famílias (...)” Para ele, necessariamente, o PM trai sua esposa e seus filhos mantendo outros relacionamentos. Isso inclui o próprio declarante? Para justificar o injustificável, o delegado invade a intimidade e expõe as suas famílias, na tentativa de naturalizar o estupro cometido por policiais. 

4) Depois das declarações de machismo e de homofobia, o secretário pediu desculpas e deixou o cargo. Vai tarde, mais para não atrapalhar as pretensões presidenciais de 2014 de Eduardo Campos, seu chefe, do que arrependimento pelo que disse. A repercussão negativa foi decisiva para o afastamento. Vinte e cinco entidades repudiaram as declarações do machista-homofóbico.

5) A fala do secretário revela um discurso construído social e historicamente. Esse discurso está enraizado nas pessoas e nos grupos sociais. No entanto, isso não é argumento para se cometer esse tipo de infração moral. Deslize e gafe são palavras amenas demais para descrever tal fala. O representante público não pode se dar ao luxo de invocar a inconsciência para justificar tal barbaridade, como bem classificou Ricardo Kotscho.

6) Infelizmente, a fala do secretário pernambucano não é isolada. Ela representa uma parte significativa da sociedade que culpa as mulheres pelo estupro porque atiçam os “instintos naturais” dos homens com “roupas e atitudes provocantes”. Além disso, essa mesma sociedade condena a homossexualidade, por puro apelo moral-religioso.

7) O combate ao machismo e à homofobia deve ser feito inclusive dentro do poder público. Afinal, os representantes eleitos pelo povo refletem as contradições e as distorções humanas e podem usar o aparelho estatal para discriminar e promover também a desigualdade de gênero.

8) O machismo que justifica o estupro e a associação da homossexualidade à perversão fazem parte da própria cultura e da identidade coletiva. Por isso mesmo, combater ambos é uma tarefa permanente e árdua. Permanente porque não se deve dar trégua aos machistas e homofóbicos. Árdua porque exige muito esforço para combatê-los inclusive nos espaços que deveriam proteger e promover os direitos humanos. 

9) Ao estabelecer políticas públicas, o estado deve formulá-las para os segmentos mais sensíveis, mais vulneráveis. A opção estatal deve ser obrigatoriamente pelos mais fracos. Afinal, os fortes têm como se defender, mesmo que seja de si mesmos. 

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Saúde doente

A indústria da saúde cria doenças para manter a saúde dos doentes.

Nunca se diagnosticou tanto déficit de atenção.
Nunca se diagnosticou tanto transtorno bipolar.
Nunca se diagnosticou tanta depressão.
Nunca se diagnosticou tanto alzheimer.

Diabetes já teve, historicamente, limites de corte em 140, 110 e hoje está em 100.
Outras doenças também tiveram protocolos revistos para baixo.

O investimento em diagnóstico é alto.
O fabricante dos equipamentos precisa de demanda.
O doente precisa de medicamento.
O fabricante lança novas marcas.
O diagnóstico anda de mãos dadas com o remédio.

A indústria farmacêutica enriquece com a doença alheia, sob as bençãos das sociedades brasileiras disso, daquilo e daquilo outro.
A medicina privilegia a doença como modelo de saúde.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Inquietudes (192) do Rei

Imaginava que as pessoas vítimas da intolerância e da violência se tornariam mais sensíveis a essas questões e passariam a combater exatamente aquilo que sofreram. Nem sempre. Essa experiência pode embrutecer a alma em vez de sensibilizar o espírito. Nesse caso, a vítima pode tornar-se ainda mais intolerante e violenta que seu algoz.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A marca de um ano

Há um ano, ele entrava em uma cirurgia cardíaca para resolver um tal de prolapso da válvula mitral.  Ele enfrentou algumas horas no centro cirúrgico.

Na intervenção, descobriram uma comunicação entre os átrios, ou seja, um furo escorria o sangue pelo lugar errado. Prolapso e comunicação entre os átrios corrigidos.

O peito foi cortado e os ossos serrados. Depois de terminada a operação, o esterno foi juntado com fio de aço e a pele colada. Quatro dias de UTI. Muito medicamento: antiarrítmico, betabloqueador e analgésico. 

Ele desenvolveu um trombo, um coágulo na válvula recém-trocada. Mais medicamento: junta-se aos outros o anticoagulante.

A recuperação foi lenta. Nos primeiros meses dormiu de barriga para cima. Levantou e sentou somente com ajuda. Evitou esforços físicos e fez sessões diárias de fisioterapia respiratória.

Voltou ao trabalho, sempre levado e buscado pela esposa até a autorização médica para dirigir. Começou a fazer caminhadas leves. Respirava cada vez melhor.

A dedicação da família, o carinho dos amigos e a preocupação dos colegas fizeram-no recuperar-se cada vez mais rápido. O cuidado tem poder de cura.

A fé em Deus e os pedidos à Nossa Senhora Aparecida não o deixaram desanimar. Ele sentia que receberia a graça. E recebeu.

O trombo - se tivesse se soltado – teria lhe tirado a vida. Descoberto a tempo foi dissolvido por doses generosas de anticoagulante.

Ele chamou essa experiência de uma aventura cardíaca e teve histórias para contar. Em seu blog, falou sobre O diagnóstico; A indicação cirúrgica; A cirurgia; A transferência para a UTI; As 97 horas na UTI – parte I e parte II; O quarto; A febre e a febrícola; A Rainha; O ex-coração peludo?

E o que mudou com essa experiência? Afinal não é todo dia que alguém tem o coração aberto, cortado, remendado e fechado.

A aventura cardíaca reforçou suas características. Ele luta ainda mais pelo que e em quem acredita, não mede esforços para defender.  

E ele não perde mais tempo com o que e quem não valem a pena. É melhor deixar essas (situações e pessoas) bem longe.

A vida segue seu rumo e ele está - definitivamente - marcado por essa experiência que começou há um ano.

Ele comemora esse aniversário com gratidão e muita alegria, afinal a cicatriz no meio do peito é mais que um sinal na carne. É a marca de um ano a mais de vida.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Estragar as lembranças

É clichê, mas a internet e as tecnologias digitais encurtam distâncias e aproximam os distantes.
Você reencontra gente que não vê há muito tempo.
Por isso, os reencontros são um desafio e um risco.
Desafio para manter aquele sentimento bom de então.
Risco de descobrir que a distância promoveu transformações, que podem causar decepção mútua. 
Por isso, é melhor que algumas pessoas fiquem no passado para não estragar as lembranças.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Culpada! pelo estupro

__Também, ela usa cada roupa. Aqueles decotes provocam qualquer um.
__O que ela estava fazendo na rua tão tarde da noite?
__Mulher que se veste com decoro não é estuprada.
__Vai ver ela deu motivo para o estuprador.

Os comentários acima são fictícios e verdadeiros. Fictícios porque escrevi para esse texto. Verdadeiros porque representam uma parcela significativa da sociedade, homens e mulheres, que - na cultura do estupro - culpam a vítima pelo ato criminoso que sofreu.

Isso mesmo! Há um tendência de responsabilizar a mulher pelo estupro e amenizar a culpa do criminoso. Para isso, quem pensa dessa forma busca no comportamento da mulher os argumentos que considera verdadeiros para explicar a atitude do estuprador.

Neste sentido, a mulher não tem autonomia sobre o próprio corpo, afinal se ela se preservasse não seria estuprada; se vestisse roupas "comportadas" não atiçaria os homens, que apenas dão vazão aos seus instintos; se ela não estivesse na rua tarde da noite não correria o risco, como se em casa não fosse estuprada pelo pai, avô, tio, padrasto ou vizinho. 
  
O processo de culpabilização da vítima no estupro é duplamente amargo. Primeiro, está explícito, porque culpa a estuprada pelo acontecimento. Segundo, porque é expressão de uma sociedade machista que avaliza o homem a seguir seus instintos, mesmo que criminosos, e determina o "recato" à mulher.

Neste contexto, o homem tem vontade e deve fazer sexo, mesmo que forçadamente. A mulher deve se preservar para manter sua aura de pureza. Afinal, homem pegador é macho. Mulher pegadora é vadia. Os esterótipos sociais mostram muito sobre o tipo de igualdade que a sociedade constrói.  

Transferir a responsabilidade do estupro para a vítima é perverso e doentio. Perverso porque culpa exatamente quem deve ser protegida. Doentio porque mostra que a cultura do estupro vai demorar para ser destruída.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Listas de fim de ano

Dezembro está quase no fim e junto vai o ano de 2013. Para variar, os veículos de comunicação começam a fazer a retrospectiva. Parece que já vi isso em 2012, 2011, 2010, 2009, 2008, 2007... enfim...

Em vez de responder às listas da mídia como a celebridade que fez mais bonito ou a que deu o maior vexame; a melhor e a pior novela (como se atualmente existisse novela boa); o cantor ou a cantora que pegou mais e os que pegaram menos; ou qualquer outra coisa tão edificante quanto, poderíamos refletir mais para dentro e menos para fora. Tenho algumas sugestões. 

Quem eu fiz feliz esse ano? E por que?
Quem eu magoei esse ano? E por que?

Quem eu ajudei no momento que mais precisava?
A quem eu neguei ajuda no momento que mais precisava?


Qual o momento em que fui mais verdadeiro esse ano?
Qual o momento em que fui mais falso esse ano?


Qual o episódio que me deixou mais feliz? E por que?
Qual o episódio que me deixou mais triste? E por que?

Quando eu fiz algo por amor ao próximo?
Quando eu fiz algo por mero interesse?


Fazer retrospectiva de um ano olhando para fora é fácil demais. O desafio é fazer essa retrospectiva olhando para dentro. Essa é uma tarefa difícil. Afinal, poderemos não gostar do que vamos ver.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Inveja boa?

A Creide encontra aquela colega que não vê desde a adolescência.

__ Creide! Você não mudou nada. Está liiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinnnnnnnnnnnnnnnnda!
__ E você Suzete, como está?
__ Amiiiiiga, passei por cada uma, mas me fale de você. O que você faz para ter essa pele, esse cabelo.
__ Bom/ (/ = interrupção brusca)
__ Ai que inveja Creide, mas é uma inveja boa.

Nessa hora, a Creide cala-se e fica escutando a Suzete falar, falar, falar... e um pensamento ronda as reflexões de Creide.

-- Se existir inveja boa, minha luxúria, então, é casta! De uma pureza só.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

sábado, 7 de dezembro de 2013

Lições da morte

A morte tem o poder de transformar o que foi vivo maltratado em morto idolatrado.
A morte tem o poder de transformar o que foi vivo esquecido em morto envaidecido.

A morte apaga, 
recicla, 
transforma, 
aviva, 
principalmente, os mortos famosos.
Vivo ídolo vira morto mito.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A droga tem cor

A escandalização da sociedade é seletiva conforme os envolvidos nos fatos. A indignação depende também do tratamento noticioso dado pelos veículos de comunicação. 

Esses veículos são a expressão da elite. Jornais, TVs, rádios e portais on-line fazem a opção preferencial pelos ricos. 

E isso confere cor aos acontecimentos. Para ser mais exato, duas: preta e branca. O varejo e o atacado das drogas ensinam muito sobre essas cores.

No varejo, o tráfico de drogas ocorre no morro, que é preto. Traficantes desfilam armamento pesado, desafiando o poder policial.  O espetáculo precisa de um vilão no morro.

No atacado, a droga é branca. A apreensão de 450 kg de cocaína é feita em um helicóptero. O dono da aeronave é deputado estadual. A fazenda onde a droga foi apreendida é de um senador. 

No varejo, a "mansão" na favela tem jacuzzi para deleite do traficante e dos seus. As regalias do crime no morro são amplificadas em jornal nacional para um espanto também seletivo. 

No atacado, a mansão está em nome de laranja. Os lucros conferidos vão parar nas contas dos paraísos fiscais. As regalias do suposto crime são amenizadas em jornal nacional.

A droga, no varejo, é consequência da produção em atacado. O morro preto está ligado ao helicóptero branco. São as duas pontas do mesmo crime.

Combater o tráfico vai muito além da apreensão de papelotes, do estouro das bocas de fumo no morro ou da prisão dos consumidores de pó. 

É preciso combater a droga em sua origem, no início da cadeia de produção, no atacado branco, mas quem tem helicóptero tem poder, seja econômico seja político.  

A droga, no atacado, passa pelos poderes constituídos. Portanto, combater o tráfico de drogas é uma tarefa muito maior que combater apenas os traficantes do morro.

Crônica inspirada na charge de Latuff para o "Brasil 247".

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A tecnologia é recurso

Nos últimos anos ganharam força as tecnologias em vários setores da sociedade, do processo de ensino aprendizagem à relação interpessoal; do comércio eletrônico à carreira profissional. Isso tudo porque os nativos digitais, aqueles seres que nascem colados em celular com mil funções, tablets, computadores, recursos com fios ou sem fio, dispositivos on-line, enfim... têm uma nova forma de ver e de se relacionar com o mundo. 

Neste contexto, os imigrantes digitais – euzinho por exemplo – têm de se virar para acompanhar o ritmo desses nativos que estão dando o enfoque para o resto do mundo. Na educação, esse processo veio para ficar. Tanto que as escolas estão implantando essas tecnologias, destinando parte da sua carga horária para atividades a distância. É um caminho sem volta. É uma trilha a ser explorada. E como novidade, o tema suscita muitas reflexões. Arrisco algumas.

1) A tecnologia usada pela molecada das gerações Y, Z ou sei lá o que, é direcionada principalmente para o lazer. Crianças e adolescentes usam os recursos, às vezes todos juntos, para assistir vídeos, compartilhar fotografias, postar informações úteis e inúteis, bater papo e também praticar bullying cibernético. O domínio dessas ferramentas não é a garantia que a geração vai usá-las para a produção do conhecimento responsável.

2) Como a tecnologia digital é ágil, as novas gerações desenvolveram um comportamento efêmero. A novidade perde seu caráter de ineditismo rapidamente. Por isso, são crianças e adolescentes que se entediam muito facilmente. Como lidam com vários recursos ao mesmo tempo, podem ser tidos como distraídos e pouco concentrados.

3) Ainda sobre os imigrantes digitais. Eles adaptam-se a essa nova realidade, geralmente, resistentes às mudanças causando muita angústia porque o processo de ensino aprendizagem deixa de ser vertical e torna-se horizontal. O papel do professor sofreu alterações significativas e ele precisa se achar neste cenário. 

4) Essa perspectiva é defendida pelo criador do termo imigrantes digitais Marc Prensky. Para ele, o professor deixa “de ser apenas o de transmissor de conteúdo, disciplinador e juiz da sala de aula para se tornar o de treinador, guia, parceiro.” Prensky falou à Folha de S.Paulo, em outubro de 2011

5) Ok. O professor mudou de papel, mas não será substituído. A máquina não fará esse papel porque é um instrumento, uma técnica. A máquina é um recurso pedagógico. Tanto que Prensky afirma que o aprendizado não mudou. “Você pode usar um programa para ajudar a pensar criticamente, mas o aprendizado continua o mesmo.”

6) Nessas mudanças, as escolas privadas – pelo poder econômico que confere grande mobilidade – saem na frente mais uma vez dando sorte a todo tipo de interesse, dos mais legítimos aos aos mais fraudulentos. E a escola pública, pela morosidade e reação, muitas vezes, do seu corpo funcional, fica para trás. Esse processo ocorreu com a educação a distância. O mercado foi tomado pelas particulares porque as públicas, em dado momento, se recusaram a aderir ao sistema por posições ideológicas. Por isso, o mercado atropelou os projetos públicos. Isso pode se repetir agora.

As tecnologias digitais para facilitar o aprendizado estão incorporadas ao processo da educação. Isso é fato. Gostando ou não, o futuro chegou e não pediu licença. Instalou-se e ponto. Neste cenário, o poder público tem responsabilidade dupla. Primeira: fiscalizar as particulares para corrigir as distorções típicas de quem promove mudanças apenas para aumentar seus lucros. Segunda, implantar políticas para garantir esse processo nas escolas públicas beneficiando alunos e professores. Portanto, depende de toda a sociedade para que a tecnologia sirva ao ser humano. E não o contrário. 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Indignação seletiva

A indignação é capaz de gerar transformação. Pode ser para o mal. Para o bem Indignar-se é uma capacidade e uma atitude. Uma capacidade porque está ligada às habilidades de cada um para enxergar o que gera a indignação. Uma atitude porque desperta uma reação ao incômodo. 

A indignação costuma assinar contrato com a seletividade. Isso significa afirmar que as pessoas costumam escolher o que deve causar indignação. Agora, a visibilidade dos indignados ocorre no plano virtual. As redes sociais são a tela principal para a exposição da indignação seletiva.

A queima de fogos no centro de uma cidade que espocam nos ouvidos caninos e matam umas poucas pombas causa mais indignação do que o morador de rua incendiado na rodoviária da mesma cidade.

O usuário de drogas e suas perturbações causam mais indignação do que o ciclo de produção e de distribuição da droga, cujo controle passa inclusive pelos poderes constituídos e pela falta de atuação do estado.

A importação de médicos estrangeiros – principalmente os cubanos – causam mais indignação do que a falta de médicos brasileiros para atender ou o mau atendimento prestado na rede pública de saúde.

As regalias de uns presos famosos de um partido causam mais indignação do que a apreensão de um helicóptero com 450 quilos de cocaína, cujo dono da aeronave também é político e amigo de tantos outros.

A sociedade que sustenta a audiência com a vulgaridade na TV, com apelo sexual exacerbado e erotização precoce é a mesma que fica indignada com a pílula do dia seguinte e as políticas para o aborto.

A sociedade que cultua o jeitinho brasileiro na conversão proibida, na fila dupla, na fila furada com o gerente de banco, que molha a mão do policial é a mesma que fica indignada com a corrupção dos políticos.

A sociedade que abandona seus filhos em lares provisórios (que se tornam eternos enquanto duram) é a mesma que fica indignada com o casamento gay e a adoção por casais homossexuais. 

A indignação pode gerar transformação, mas quando é seletiva segundo os preconceitos de cada um, a mudança ocasionada vira uma distorção, uma deformação, sendo – portanto – a base da desigualdade. 

domingo, 1 de dezembro de 2013