sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A droga tem cor

A escandalização da sociedade é seletiva conforme os envolvidos nos fatos. A indignação depende também do tratamento noticioso dado pelos veículos de comunicação. 

Esses veículos são a expressão da elite. Jornais, TVs, rádios e portais on-line fazem a opção preferencial pelos ricos. 

E isso confere cor aos acontecimentos. Para ser mais exato, duas: preta e branca. O varejo e o atacado das drogas ensinam muito sobre essas cores.

No varejo, o tráfico de drogas ocorre no morro, que é preto. Traficantes desfilam armamento pesado, desafiando o poder policial.  O espetáculo precisa de um vilão no morro.

No atacado, a droga é branca. A apreensão de 450 kg de cocaína é feita em um helicóptero. O dono da aeronave é deputado estadual. A fazenda onde a droga foi apreendida é de um senador. 

No varejo, a "mansão" na favela tem jacuzzi para deleite do traficante e dos seus. As regalias do crime no morro são amplificadas em jornal nacional para um espanto também seletivo. 

No atacado, a mansão está em nome de laranja. Os lucros conferidos vão parar nas contas dos paraísos fiscais. As regalias do suposto crime são amenizadas em jornal nacional.

A droga, no varejo, é consequência da produção em atacado. O morro preto está ligado ao helicóptero branco. São as duas pontas do mesmo crime.

Combater o tráfico vai muito além da apreensão de papelotes, do estouro das bocas de fumo no morro ou da prisão dos consumidores de pó. 

É preciso combater a droga em sua origem, no início da cadeia de produção, no atacado branco, mas quem tem helicóptero tem poder, seja econômico seja político.  

A droga, no atacado, passa pelos poderes constituídos. Portanto, combater o tráfico de drogas é uma tarefa muito maior que combater apenas os traficantes do morro.

Crônica inspirada na charge de Latuff para o "Brasil 247".

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