quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A tecnologia é recurso

Nos últimos anos ganharam força as tecnologias em vários setores da sociedade, do processo de ensino aprendizagem à relação interpessoal; do comércio eletrônico à carreira profissional. Isso tudo porque os nativos digitais, aqueles seres que nascem colados em celular com mil funções, tablets, computadores, recursos com fios ou sem fio, dispositivos on-line, enfim... têm uma nova forma de ver e de se relacionar com o mundo. 

Neste contexto, os imigrantes digitais – euzinho por exemplo – têm de se virar para acompanhar o ritmo desses nativos que estão dando o enfoque para o resto do mundo. Na educação, esse processo veio para ficar. Tanto que as escolas estão implantando essas tecnologias, destinando parte da sua carga horária para atividades a distância. É um caminho sem volta. É uma trilha a ser explorada. E como novidade, o tema suscita muitas reflexões. Arrisco algumas.

1) A tecnologia usada pela molecada das gerações Y, Z ou sei lá o que, é direcionada principalmente para o lazer. Crianças e adolescentes usam os recursos, às vezes todos juntos, para assistir vídeos, compartilhar fotografias, postar informações úteis e inúteis, bater papo e também praticar bullying cibernético. O domínio dessas ferramentas não é a garantia que a geração vai usá-las para a produção do conhecimento responsável.

2) Como a tecnologia digital é ágil, as novas gerações desenvolveram um comportamento efêmero. A novidade perde seu caráter de ineditismo rapidamente. Por isso, são crianças e adolescentes que se entediam muito facilmente. Como lidam com vários recursos ao mesmo tempo, podem ser tidos como distraídos e pouco concentrados.

3) Ainda sobre os imigrantes digitais. Eles adaptam-se a essa nova realidade, geralmente, resistentes às mudanças causando muita angústia porque o processo de ensino aprendizagem deixa de ser vertical e torna-se horizontal. O papel do professor sofreu alterações significativas e ele precisa se achar neste cenário. 

4) Essa perspectiva é defendida pelo criador do termo imigrantes digitais Marc Prensky. Para ele, o professor deixa “de ser apenas o de transmissor de conteúdo, disciplinador e juiz da sala de aula para se tornar o de treinador, guia, parceiro.” Prensky falou à Folha de S.Paulo, em outubro de 2011

5) Ok. O professor mudou de papel, mas não será substituído. A máquina não fará esse papel porque é um instrumento, uma técnica. A máquina é um recurso pedagógico. Tanto que Prensky afirma que o aprendizado não mudou. “Você pode usar um programa para ajudar a pensar criticamente, mas o aprendizado continua o mesmo.”

6) Nessas mudanças, as escolas privadas – pelo poder econômico que confere grande mobilidade – saem na frente mais uma vez dando sorte a todo tipo de interesse, dos mais legítimos aos aos mais fraudulentos. E a escola pública, pela morosidade e reação, muitas vezes, do seu corpo funcional, fica para trás. Esse processo ocorreu com a educação a distância. O mercado foi tomado pelas particulares porque as públicas, em dado momento, se recusaram a aderir ao sistema por posições ideológicas. Por isso, o mercado atropelou os projetos públicos. Isso pode se repetir agora.

As tecnologias digitais para facilitar o aprendizado estão incorporadas ao processo da educação. Isso é fato. Gostando ou não, o futuro chegou e não pediu licença. Instalou-se e ponto. Neste cenário, o poder público tem responsabilidade dupla. Primeira: fiscalizar as particulares para corrigir as distorções típicas de quem promove mudanças apenas para aumentar seus lucros. Segunda, implantar políticas para garantir esse processo nas escolas públicas beneficiando alunos e professores. Portanto, depende de toda a sociedade para que a tecnologia sirva ao ser humano. E não o contrário. 

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