sábado, 14 de dezembro de 2013

Culpada! pelo estupro

__Também, ela usa cada roupa. Aqueles decotes provocam qualquer um.
__O que ela estava fazendo na rua tão tarde da noite?
__Mulher que se veste com decoro não é estuprada.
__Vai ver ela deu motivo para o estuprador.

Os comentários acima são fictícios e verdadeiros. Fictícios porque escrevi para esse texto. Verdadeiros porque representam uma parcela significativa da sociedade, homens e mulheres, que - na cultura do estupro - culpam a vítima pelo ato criminoso que sofreu.

Isso mesmo! Há um tendência de responsabilizar a mulher pelo estupro e amenizar a culpa do criminoso. Para isso, quem pensa dessa forma busca no comportamento da mulher os argumentos que considera verdadeiros para explicar a atitude do estuprador.

Neste sentido, a mulher não tem autonomia sobre o próprio corpo, afinal se ela se preservasse não seria estuprada; se vestisse roupas "comportadas" não atiçaria os homens, que apenas dão vazão aos seus instintos; se ela não estivesse na rua tarde da noite não correria o risco, como se em casa não fosse estuprada pelo pai, avô, tio, padrasto ou vizinho. 
  
O processo de culpabilização da vítima no estupro é duplamente amargo. Primeiro, está explícito, porque culpa a estuprada pelo acontecimento. Segundo, porque é expressão de uma sociedade machista que avaliza o homem a seguir seus instintos, mesmo que criminosos, e determina o "recato" à mulher.

Neste contexto, o homem tem vontade e deve fazer sexo, mesmo que forçadamente. A mulher deve se preservar para manter sua aura de pureza. Afinal, homem pegador é macho. Mulher pegadora é vadia. Os esterótipos sociais mostram muito sobre o tipo de igualdade que a sociedade constrói.  

Transferir a responsabilidade do estupro para a vítima é perverso e doentio. Perverso porque culpa exatamente quem deve ser protegida. Doentio porque mostra que a cultura do estupro vai demorar para ser destruída.

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