terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Indignação seletiva

A indignação é capaz de gerar transformação. Pode ser para o mal. Para o bem Indignar-se é uma capacidade e uma atitude. Uma capacidade porque está ligada às habilidades de cada um para enxergar o que gera a indignação. Uma atitude porque desperta uma reação ao incômodo. 

A indignação costuma assinar contrato com a seletividade. Isso significa afirmar que as pessoas costumam escolher o que deve causar indignação. Agora, a visibilidade dos indignados ocorre no plano virtual. As redes sociais são a tela principal para a exposição da indignação seletiva.

A queima de fogos no centro de uma cidade que espocam nos ouvidos caninos e matam umas poucas pombas causa mais indignação do que o morador de rua incendiado na rodoviária da mesma cidade.

O usuário de drogas e suas perturbações causam mais indignação do que o ciclo de produção e de distribuição da droga, cujo controle passa inclusive pelos poderes constituídos e pela falta de atuação do estado.

A importação de médicos estrangeiros – principalmente os cubanos – causam mais indignação do que a falta de médicos brasileiros para atender ou o mau atendimento prestado na rede pública de saúde.

As regalias de uns presos famosos de um partido causam mais indignação do que a apreensão de um helicóptero com 450 quilos de cocaína, cujo dono da aeronave também é político e amigo de tantos outros.

A sociedade que sustenta a audiência com a vulgaridade na TV, com apelo sexual exacerbado e erotização precoce é a mesma que fica indignada com a pílula do dia seguinte e as políticas para o aborto.

A sociedade que cultua o jeitinho brasileiro na conversão proibida, na fila dupla, na fila furada com o gerente de banco, que molha a mão do policial é a mesma que fica indignada com a corrupção dos políticos.

A sociedade que abandona seus filhos em lares provisórios (que se tornam eternos enquanto duram) é a mesma que fica indignada com o casamento gay e a adoção por casais homossexuais. 

A indignação pode gerar transformação, mas quando é seletiva segundo os preconceitos de cada um, a mudança ocasionada vira uma distorção, uma deformação, sendo – portanto – a base da desigualdade. 

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