quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Inquietudes (198) do Rei

É impressionante o conteúdo de muitos comentários sobre os rolezinhos do jovem da periferia nos shoppings. Existem aqueles que os mandam carpir um terreno ao meio-dia. Outros afirmam que se tratam de adolescentes (negros) sem futuro que tumultuam a diversão da classe média (branca). Alguns ainda dizem que os rolezeiros não trabalham e não querem dar um rolezinho numa agência de emprego. Por isso, há quem classifique esses jovens de vagabundos. 

Qual a diferença de um jovem da periferia que não trabalha para um jovem de classe média que também não trabalha, quando ambos fazem nada em um shopping? A diferença é o tratamento social - e o preconceito que emerge da eterna luta de classes - dado aos dois. Filho de pobre que não trabalha é vagabundo. Filho de rico que não trabalha é um bom partido. Ah! então tá!

domingo, 26 de janeiro de 2014

Não quero Copa

Não quero Copa, por isso eu me rebelo.
Nos protestos, eu defendo o trabalhador brasileiro. 
Mas o fogo consome o fusca do serralheiro com a família dele dentro.

Não quero Copa, por isso eu me rebelo.
Na manifestação contra a passagem do ônibus, eu defendo o usuário do transporte.
Mas eu picho o ônibus, esvazio os pneus e depredo o abrigo.

Não quero Copa, por isso eu me rebelo.
Na passeata, eu defendo mais saúde, educação e segurança.
Mas eu quero o estado mínimo, com menos imposto.

Não quero Copa, por isso eu me rebelo.
Na avenida, eu defendo a liberdade de expressão.
Mas eu cubro meu rosto.

Não quero Copa, por isso eu me rebelo.
Nesse jogo, eu defendo os mais pobres.
Mas sou contra o rolezinho. 

Não quero Copa, por isso eu me rebelo.
O movimento é apartidário.
Mas eu tomo partido: Fora Dilma!

Não quero Copa, por isso eu me rebelo.
O movimento é apolítico.
Mas eu quero que as manifestações interfiram no resultado de outubro deste ano.

Não quero Copa, por isso eu me rebelo.
Minha rebeldia é para transformar o Brasil.

Transformar o Brasil para quem mesmo?

sábado, 25 de janeiro de 2014

Humor sem graça

Que a política acende paixões, ninguém duvida. Que as discussões ideológicas incendeiam os mais baixos sentimentos, ninguém duvida. Que a polêmica é necessária, ninguém duvida. No entanto ninguém duvida - também – que respeito mútuo vai bem, obrigado.

Está provado que as redes sociais tiraram o cidadão comum do papel de mero consumidor da informação para agente produtor de conteúdo. É bom lembrar que informação não deve ser confundida com opinião. E muitos teimam em misturar as duas, querendo ganhar a conversa no grito.

A montagem que ilustra esse texto ronda a internet e arranca risadas que deveriam amarelar o sorriso na medida em que o dono refletisse sobre o assunto. A imagem é mais uma das milhares que - diariamente - desqualificam pessoas como políticos, autoridades, celebridades e cidadão comum.

Já curti imagens politicamente incorretas, ri de piadas consideradas ofensivas, dei risadas de fotografias que ridicularizam pessoas e situações. Na maioria das vezes, tento refletir antes. Nem sempre consigo. Na frente do computador, o peso disso é um. Produzir e compartilhar esse tipo de conteúdo ao alcance de milhões tem outro peso. Maior, muito maior.

Antes que me rotulem de marineiro, ex-verde ou apoiador da Rede, um aviso. Não nutro nenhuma simpatia política por Marina Silva que pula de partido em partido para se viabilizar candidata a presidenta da República. Já critiquei a postura dela nas Letras Crônicas, no texto “Ex-vermelha. Ex-verde. Igual aos outros."

Ao comparar Marina Silva à vovó Zilda, personagem da Família Dinossauro, o autor da brincadeira, que não é brincadeira, desqualifica muita gente. Arrisco algumas considerações.

1) A imagem rotula Marina Silva de feia, resultado de uma cirurgia plástica feita em vovó Zilda. Esse rótulo reforça o mito da beleza das passarelas. Marina Silva não é loira, não é branca, tem origem pobre. 

2) A imagem desqualifica os médicos cubanos. Vovó Zilda (Antes) virou Marina (Depois). A montagem ataca, ao mesmo tempo, a medicina de Cuba e uma das possíveis candidatas ao Palácio do Planalto. Você sabia que 60% dos médicos formados nas escolas paulistas de Medicina, em 2013, não passaram no exame do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo

3) Levante a mão aí quem tem o padrão de beleza das passarelas. A imagem reforça o coro dos que não consideram outras formas de beleza, além da padronizada pelos veículos de comunicação, gerando sofrimento para quem não corresponde ao figurino vendido como ideal.

4) A exemplo de Marina Silva, a presidenta Dilma Rousseff foi comparada ao boneco assassino Chuck. Neste caso, a foto de Dilma é de quando ela usava uma peruca por fazer tratamento contra um câncer. O “humor” que desqualifica tudo e todos não tem limites nem respeito. Invade a intimidade, expõe até a doença. Isso não é humor.

5) Quando o debate político descamba para o lado pessoal, atingindo as pessoas na sua intimidade, fica mais claro o porquê da existência do ditado popular de que política não se discute. É mais difícil argumentar com seriedade.

6) 2014 é um ano eleitoral. O Brasil vai escolher candidatos e candidatas para os cargos de presidente da República, senador, governador, deputados federais e estaduais. Poderemos aproveitar a oportunidade para discutir e fazer política de forma séria ou fazer humor sem graça, de gosto duvidoso. Se você optar pela segunda, não reclame depois do resultado das eleições.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

A máscara e o dedo do meio

A fotografia do jornal odiario.com, que ilustra este texto, feita ontem (dia 22), em Londrina, durante o terceiro protesto contra o aumento da tarifa do transporte coletivo é bastante significativa. A imagem integra um álbum na reportagem de Juliana Leite sobre a manifestação que fechou algumas vias centrais da cidade. Arrisco algumas considerações sobre o tema.

1) O mascarado que esvazia o pneu do ônibus, ao mostrar o dedo do meio ao fotógrafo de odiario.com, não desrespeita apenas o profissional que fez a imagem.

2)  O mascarado, ao mostrar o dedo do meio, desrespeita também os manifestantes que não escondem a cara e que defendem uma causa justa.

3) O mascarado que depreda o patrimônio de uso público, ao mostrar o dedo do meio, desrespeita também quem usa o transporte coletivo, a quem o mascarado supostamente defende.

4) O mascarado que protesta vandalizando a cidade, desrespeita também a direção do movimento que tem poder de mobilização já que ele pega carona na manifestação.

5) O mascarado que protesta mascarado, ao mostrar o dedo do meio, mascara suas reais intenções, que não podem ser confundidas com o objetivo do movimento.

6) O mascarado que radicaliza nos protestos, em nome da sua máscara, coloca em xeque a credibilidade das manifestações.

Todo protesto é legítimo e o cidadão tem a garantia legal de poder manifestar-se. No entanto, a máscara não pode ser instrumento para cobrir a própria identidade e muito menos para camuflar a coragem de lutar pelo que é necessário.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Inquietudes (197) do Rei

Em um debate, a desqualificação pura e simples nunca será fundamentada, porque não se trata de crítica. Apenas de adjetivos. A desqualificação do interlocutor (as redes sociais proliferam esse tipo de comportamento) é típica dos autoritários que não usam argumentos, mas rótulos cheios de pré-conceitos, preconceitos e estereótipos. A desqualificação diz muito sobre quem adota essa como estratégia de convencimento.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

A cara feia do Brasil

__Essa negrada do rolezinho que apanhou da polícia, eu achei pouco foi pouco.
__Coisa de pobre favelado [...]
__Chega de rolezinho moçada, vamos trabalhar negrada!
__Vai fazer rolezinho na cadeia [...]
__Veio me chamar pra participar de um Rolezinho. Ahh vai te catar.  Eu tenho cara de favelado [?]
__Rolezinho de cu é rola.

O assunto ainda é o rolezinho dos jovens pobres da periferia de São Paulo que tanto incomoda, denuncia e se alastra pelo país.

As falas acima ilustram a imagem deste texto, que foi copiada do Blog da Cidadania, mantido por Eduardo Guimarães.

No twitter, a mensagem do grupo é representativa de um segmento que cada vez mostra mais a sua verdadeira face.

É a cara do individualismo, como se esses jovens brancos de roles nos shoppings de todos os dias fossem alguma coisa sem a conta bancária dos pais.

É a cara do preconceito que se releva em três frentes: contra o pobre, contra o negro e contra o morador da periferia.

É a cara da discriminação contra o pobre, o negro e o morador da periferia, que não aceita integrar esses como um igual.

É a cara do conservadorismo retrógrado que não permite o avanço das políticas sociais como instrumento de combate à desigualdade.

É a cara da meritocracia que adota o princípio da igualdade para tratar os desiguais e, assim, perpetuar a desigualdade. 

É a cara da calúnia, da injúria e da difamação disfarçadas em suposta liberdade de expressão e direito à manifestação do pensamento.

Essa cara também se manifesta em várias ocasiões por conta de programas como as cotas públicas, o Bolsa Família e a lei que ampliou os direitos dos empregados domésticos.

Essa cara é mantida por partidos políticos de direita, parte da classe média e média alta, e reverberada por veículos de comunicação sem compromisso com a maioria.

Raves, boates e avenidas centrais sempre foram pontos de rolezinhos do jovem branco da classe média, que não perdoa o jovem negro e pobre ter ousado deixar a periferia.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Incômodo, denúncia e proliferação


O rolezinho incomoda

porque a periferia resolveu sair da periferia.
porque o jovem pobre ousou divertir-se no espaço da classe média e da elite.
porque a classe média e a elite são intolerantes e discriminam.
porque a periferia, além de pobre, também é negra.

O rolezinho denuncia
a desigualdade social.
a concentração de renda. 
o preconceito racial.
a indiferença humana.

O rolezinho se prolifera pelo país
por causa da repressão da polícia.
por causa da discriminação dos frequentadores de shoppings.
por causa da proibição da direção dos shoppings.
por causa da incompetência do estado em dialogar com a periferia.

O rolezinho incomoda, denuncia e se prolifera pelo país.
Se quiser, o Brasil pode aprender muito sobre o Brasil com o rolezinho.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Igualdade para manter a desigualdade

As políticas afirmativas como as cotas - seja para estudantes de escolas públicas seja para negros - são uma tentativa de melhorar o acesso à universidade para aquele segmento que não consegue concorrer com os que têm mais condições de se preparar para a vida.

As cotas são, assim, uma política de tratamento desigual para atingir a igualdade. Isso significa dizer que são ações que tratam os desiguais de forma desigual para que todos tenham condições de competir em igualdade. Não existe segredo nisso.

Desde que as cotas públicas foram adotadas por muitas universidades, os contrários atacam-nas com vários argumentos. O principal deles é que se trata de reserva de mercado para estudantes de escolas púbicas e negros. Assim, os branquinhos que deixam de entrar alegam ter perdido a sua vaga para as cotas. 

__Um cotista pegou a minha vaga, mesmo tendo feito menos da metade de pontos do que eu fiz. Reservar vagas, principalmente para negros, não é justo. 

Atualmente as universidades públicas reservam até 40% das vagas para estudantes cotistas. O dono dos argumentos individualistas e racistas acima esquece que ele e os seus iguais disputavam 100% das vagas. Hoje se a universidade reserva - para as cotas 40% - ele e os seus iguais disputam ainda 60%. É a maioria da oferta, não é mesmo?

Nesta linha de defesa, consolida-se como ataque à política de cotas a tal da meritocracia, o regime baseado no mérito, enquanto aptidão e capacidade. Ninguém nasce com tais valores e dispensa estímulos. Eles precisam ser desenvolvidos, incentivados. Para isso é preciso que o dono das aptidões tenha oportunidade. 

Ou alguém acredita que uma criança pobre vai disputar - em condição de igualdade - com uma criança rica? Além disso, a aptidão e a capacidade de uma criança estão ligadas às condições necessariamente financeiras que os país dela têm a oferecer. O princípio das cotas não é de capacidade, mas de oportunidade para desenvolver e mostrar essa capacidade.

A meritocracia para o ingresso ao ensino superior não deve ser a moeda corrente. Exatamente porque não é universal. No fundo, quem defende a meritocracia adota o princípio da igualdade para tratar os desiguais e assim perpetuar a desigualdade.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Congresso versus STF

O Congresso Nacional avalia Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que transforma os poderes do Supremo Tribunal Federal (STF). A PEC 275, de autoria da deputada Luiza Erundina (PSB/SP), quer que o STF seja transformado em Corte Constitucional. “Segundo o texto [da proposta], o STF seria responsável apenas por julgar causas relativas à interpretação e aplicação da Constituição Federal.” A afirmação é do site “Última Instância”.

Pela proposta, o STF teria aumentado de 11 para 15 o número de ministros. Mudaria também a forma de escolher os ministros. Hoje quem nomeia é o/a presidente da República e o nome deve ser aprovado pelo Senado Federal. Pelo projeto, a escolha seria de responsabilidade do Congresso Nacional e a aprovação dos ministros para a Corte deve ocorrer pela maioria absoluta dos deputados e senadores. 

Ao “Última Instância”, Erundina afirmou que a função principal atribuída ao STF (“guardar a Constituição”) foi esquecida pelo acúmulo de processos sem relevância constitucional. Para ela, a transformação do Supremo em uma “autêntica” Corte Constitucional, “corrigiria esses graves defeitos no funcionamento”.

Entre o que a deputada Erundina atesta como “graves defeitos”, está o fato de o STF legislar no lugar do Congresso Nacional, invadindo competências e podendo comprometer a relação dos dois poderes. Nos últimos anos, os ministros decidiram sobre temas caros aos brasileiros, empacados nas comissões da Câmara dos Deputados e do Senado.

Dois exemplos podem ser citados na legislação criada pelo STF: a decisão que autoriza o casamento civil de pessoas do mesmo sexo e o aborto para os casos de anencefalia. A regulamentação desses dois temas poderia ter sido operada no Congresso Nacional, a quem cabe fazer leis, e por que não foi?

Exatamente pelo teor explosivo dos dois projetos. Ambos estão ligados a aspectos que fazem surtar os religiosos radicais: a vida e a sexualidade. Ambos têm grande poder de mobilização social (pró e contra). Soma-se a isso a bancada religiosa que atua para derrubar qualquer projeto que lide com os dogmas das igrejas, jogando no lixo o princípio constitucional da laicidade do estado brasileiro. 

Além disso, a regulamentação pelo Congresso de projetos como esses esbarra na relação do político com seu eleitor. O parlamentar mede os riscos que corre ao apoiar um projeto polêmico e, assim, ter eventuais prejuízos eleitorais num processo de reeleição. 

Portanto, os congressistas também atuam em bando, por omissão e por covardia. Em bando, porque o poder das bancadas fundamentalistas pode tripudiar sobre o direito do cidadão. Por medo da repercussão. Por covardia de assumir uma posição em projetos polêmicos: favorável ou contrário. 

Neste sentido, o STF não corre esse risco porque os magistrados não são submetidos ao julgamento das urnas. Eles podem decidir conforme os preceitos constitucionais e sua própria consciência (seja consciente ou não). Mesmo assim, os ministros acabam legislando sem terem sido eleitos para isso.

A proposta de alterar as funções do STF traz um debate importante. No entanto, a discussão terá validade ampliada se – junto das competências do maior órgão do Judiciário brasileiro – vier a público a forma como se posicionam e votam deputados e senadores. E que o eleitor aprenda a acompanhar a vida dos parlamentares que ajudou a eleger.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Rede de ridicularização

__Ah! mas é só uma brincadeira.
__Então faça essa brincadeira com a foto da sua mãe, da sua esposa, da sua filha e veja se elas gostam.

As redes sociais são pródigas em ridicularizar as pessoas, situações e os ridicularizadores vão dizer que é apenas uma brincadeira.

Não é.
A mulher da foto é ridicularizada três vezes por quem compartilha esse tipo de "brincadeira".
Primeiro, por ser mulher.
Segundo, por ser negra.

Terceiro, por ser gorda.
Não necessariamente nesta ordem.

E o pior, a imagem foi publicada no Facebook, na página da rádio "Jovem Pan Londrina".
Um veículo de comunicação que explora um serviço público - concessão de rádio - ridicularizando a mulher, o negro e o gordo.

Na esteira do preconceito, haverá muitos internautas reproduzindo a "brincadeira".
E assim, vão tirar o nome de Tiago e colocar outro nome e enviar para um amigo: o Bruno, o Eduardo, o Carlos. 


__Ah! mas é só pra sacanear o amigo, alguns vão argumentar.
Sacanear? 
Viu só como a imagem da mulher, negra e gorda é usada como objeto de ridicularização?

Até agora pouco, às 11h10, eram mais de 210 compartilhamentos e dezenas de curtidas e comentários.
Bem, os comentários é melhor não reproduzir o conteúdo para não dar vazão a mais preconceito. 

__Ah! mas é só uma brincadeira.
__Então faça essa brincadeira com a foto da sua mãe, da sua esposa, da sua filha e veja se elas gostam.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Sobre a Copa e áreas essenciais

2014 é um ano eleitoral e o Brasil, além de escolher novos representantes estaduais e nacionais, vai sediar a Copa do Mundo, alvo da ira de parte da população que não concorda com os investimentos nas arenas e nas cidades que sediarão os jogos. Nem por isso, essa parte deixará de assistir os jogos, seja no estádio seja pela TV, enforcando o expediente ou parte dele. 

De todos os debates sobre a realização da Copa no Brasil: capacidade de o país sediar um mega evento, investimentos públicos em obras, submissão aos padrões da Fifa, política do pão e circo, alienação do brasileiro e manifestações de rua, protestos para influenciar as eleições de outubro – um me chama a atenção. Trata-se do discurso de que o país não precisa de Copa (portanto, esporte), mas de investimentos em áreas essenciais.

Para parte dos críticos da Copa do Mundo no Brasil, por áreas essenciais entende-se saúde, educação e infraestutura. Parte da parte dos críticos é aquela que quer tudo isso com estado mínimo, ou seja, redução de impostos. Estado mínimo combina com políticas sociais mínimas, ou seja, menos educação, menos saúde, menos infraestrutura e mais mercado. Muitos países da Europa conhecem bem essa fórmula. Não é mesmo Grécia?

No discurso de que o Brasil não precisa da Copa, um dos argumentos é que para se investir nessa área seria preciso resolver – primeiramente – as essenciais. Investiria em estádios depois de construir hospitais, escolas e rodovias.  É o mesmo que questionar: os recursos para a construção de um Teatro Municipal dariam para construir quantos postos de saúde e quantas escolas? 

As fontes de financiamento das áreas essenciais e as outras são diferentes e os investimentos devem ser feitos de forma paralela. Os envolvidos em cada setor devem garantir mecanismos da aplicação dos recursos e ter planos para a utilização de cada obra ou projeto. Um estádio pode ficar vazio depois da Copa, assim como um hospital após a inauguração. A construção desse hospital – por si só – não é garantia de que vai funcionar. O investimento em recursos humanos e materiais, ou seja, manutenção, é muito maior que o da própria construção.

Parece que muitos argumentos contrários à Copa do Mundo do Brasil estão banhados em preconceito com a área esportiva, no caso o futebol, assim como a cultura também sofre com cortes de gastos por não ser considerada uma área essencial. Eleger uma área de investimento como prioritária não é garantia de que todos terão acesso aos serviços oferecidos.

Lembro aqui a medida, alguns anos atrás, do Ministério da Saúde em oferecer pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a cirurgia de transgenitalização. Na época, a repercussão foi negativa e muitos atacaram a decisão do Governo Federal. Recursos públicos para mudança de sexo foram considerados desperdício, provavelmente, por muitos que hoje são contrários a Copa no Brasil. Decididamente o preconceito não é a melhor companhia para estabelecer as políticas públicas, independentemente da área: saúde, cultura, educação, esporte, entre outras.

Em novembro passado, o ministério anunciou que vai ampliar o acesso às cirurgias e tratamentos para adequação sexual pelo SUS. A medida segue determinação judicial que obriga o governo a fazer o que for necessário para atender transexuais e travestis na rede de atenção básica de saúde. O anúncio do Ministério da Saúde para atender esse segmento não causou alvoroço como o registrado alguns anos atrás. Isso significa que a compreensão das políticas públicas para os segmentos atendidos evolui com a própria prática.

É inevitável que a Copa do Mundo seja realizada no Brasil, até porque transferir a sede – a essa altura – é jogar no ralo todo o investimento (público e privado) já realizado. A não ser que as manifestações tenham mais por objetivo atacar a imagem de Dilma, para tentar mudar os rumos das eleições presidenciais de 2014, e menos para protestar por aumento de recursos nas tais áreas essenciais.

Esses estádios serão um elefante branco? Independentemente da Copa do Mundo, é preciso que a sociedade fique de olho e acompanhe o planejamento da utilização das arenas. Vai depender da administração de cada uma e sua capacidade para torná-la rentável, seja nos campeonatos estaduais ou outros eventos.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Um dia depois

A roupa branca vai ficar de molho para expulsar as manchas da comida.
O glamur da mesa arrumada cedeu lugar à pia cheia de pratos sujos.
Os copos e as taças arrumadas estão espalhados pela casa inteira.
Juro que o próximo réveillon será na casa de outro.
Caroços cuspidos de azeitonas podem entupir os ralos.
Latas bebidas de cerveja decoram o tanque.
As festas da véspera e do dia primeiro terminaram.
Alguns restos congelados servirão a mesa no próximo final de semana.
Pedimos em som alto amor e paz e saúde e felicidade e amor.
Desejamos bem baixinho sexo e dinheiro e dinheiro e sexo.
Que o ano novo nos ouça tanto no som alto quanto no baixo.
Um ano se foi e o outro se aconchegou.
E se 2014 não for o que desejamos?
Tudo bem, faremos tudo de novo para 2015.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

2014 chegou

2014 chegou.
Não se importou com minhas roupas brancas.
Nem ligou para a taça de brinde.
Ignorou as sete sementes de romã.
Passou por cima das três primeiras ondas.

2014 chegou.
Não se importou com o prato de lentilha.
Nem ligou para os fogos barulhentos de artifício.
Ignorou a preparação da casa.
Passou por cima do show da virada.

2014 chegou.
Não se importou com a casa cheia.
Nem ligou para quem veio de longe.
Ignorou as simpatias da passagem.
Passou por cima, simplesmente.

2014 chegou.
E promete ficar apenas um ano.