sábado, 25 de janeiro de 2014

Humor sem graça

Que a política acende paixões, ninguém duvida. Que as discussões ideológicas incendeiam os mais baixos sentimentos, ninguém duvida. Que a polêmica é necessária, ninguém duvida. No entanto ninguém duvida - também – que respeito mútuo vai bem, obrigado.

Está provado que as redes sociais tiraram o cidadão comum do papel de mero consumidor da informação para agente produtor de conteúdo. É bom lembrar que informação não deve ser confundida com opinião. E muitos teimam em misturar as duas, querendo ganhar a conversa no grito.

A montagem que ilustra esse texto ronda a internet e arranca risadas que deveriam amarelar o sorriso na medida em que o dono refletisse sobre o assunto. A imagem é mais uma das milhares que - diariamente - desqualificam pessoas como políticos, autoridades, celebridades e cidadão comum.

Já curti imagens politicamente incorretas, ri de piadas consideradas ofensivas, dei risadas de fotografias que ridicularizam pessoas e situações. Na maioria das vezes, tento refletir antes. Nem sempre consigo. Na frente do computador, o peso disso é um. Produzir e compartilhar esse tipo de conteúdo ao alcance de milhões tem outro peso. Maior, muito maior.

Antes que me rotulem de marineiro, ex-verde ou apoiador da Rede, um aviso. Não nutro nenhuma simpatia política por Marina Silva que pula de partido em partido para se viabilizar candidata a presidenta da República. Já critiquei a postura dela nas Letras Crônicas, no texto “Ex-vermelha. Ex-verde. Igual aos outros."

Ao comparar Marina Silva à vovó Zilda, personagem da Família Dinossauro, o autor da brincadeira, que não é brincadeira, desqualifica muita gente. Arrisco algumas considerações.

1) A imagem rotula Marina Silva de feia, resultado de uma cirurgia plástica feita em vovó Zilda. Esse rótulo reforça o mito da beleza das passarelas. Marina Silva não é loira, não é branca, tem origem pobre. 

2) A imagem desqualifica os médicos cubanos. Vovó Zilda (Antes) virou Marina (Depois). A montagem ataca, ao mesmo tempo, a medicina de Cuba e uma das possíveis candidatas ao Palácio do Planalto. Você sabia que 60% dos médicos formados nas escolas paulistas de Medicina, em 2013, não passaram no exame do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo

3) Levante a mão aí quem tem o padrão de beleza das passarelas. A imagem reforça o coro dos que não consideram outras formas de beleza, além da padronizada pelos veículos de comunicação, gerando sofrimento para quem não corresponde ao figurino vendido como ideal.

4) A exemplo de Marina Silva, a presidenta Dilma Rousseff foi comparada ao boneco assassino Chuck. Neste caso, a foto de Dilma é de quando ela usava uma peruca por fazer tratamento contra um câncer. O “humor” que desqualifica tudo e todos não tem limites nem respeito. Invade a intimidade, expõe até a doença. Isso não é humor.

5) Quando o debate político descamba para o lado pessoal, atingindo as pessoas na sua intimidade, fica mais claro o porquê da existência do ditado popular de que política não se discute. É mais difícil argumentar com seriedade.

6) 2014 é um ano eleitoral. O Brasil vai escolher candidatos e candidatas para os cargos de presidente da República, senador, governador, deputados federais e estaduais. Poderemos aproveitar a oportunidade para discutir e fazer política de forma séria ou fazer humor sem graça, de gosto duvidoso. Se você optar pela segunda, não reclame depois do resultado das eleições.

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