quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Igualdade para manter a desigualdade

As políticas afirmativas como as cotas - seja para estudantes de escolas públicas seja para negros - são uma tentativa de melhorar o acesso à universidade para aquele segmento que não consegue concorrer com os que têm mais condições de se preparar para a vida.

As cotas são, assim, uma política de tratamento desigual para atingir a igualdade. Isso significa dizer que são ações que tratam os desiguais de forma desigual para que todos tenham condições de competir em igualdade. Não existe segredo nisso.

Desde que as cotas públicas foram adotadas por muitas universidades, os contrários atacam-nas com vários argumentos. O principal deles é que se trata de reserva de mercado para estudantes de escolas púbicas e negros. Assim, os branquinhos que deixam de entrar alegam ter perdido a sua vaga para as cotas. 

__Um cotista pegou a minha vaga, mesmo tendo feito menos da metade de pontos do que eu fiz. Reservar vagas, principalmente para negros, não é justo. 

Atualmente as universidades públicas reservam até 40% das vagas para estudantes cotistas. O dono dos argumentos individualistas e racistas acima esquece que ele e os seus iguais disputavam 100% das vagas. Hoje se a universidade reserva - para as cotas 40% - ele e os seus iguais disputam ainda 60%. É a maioria da oferta, não é mesmo?

Nesta linha de defesa, consolida-se como ataque à política de cotas a tal da meritocracia, o regime baseado no mérito, enquanto aptidão e capacidade. Ninguém nasce com tais valores e dispensa estímulos. Eles precisam ser desenvolvidos, incentivados. Para isso é preciso que o dono das aptidões tenha oportunidade. 

Ou alguém acredita que uma criança pobre vai disputar - em condição de igualdade - com uma criança rica? Além disso, a aptidão e a capacidade de uma criança estão ligadas às condições necessariamente financeiras que os país dela têm a oferecer. O princípio das cotas não é de capacidade, mas de oportunidade para desenvolver e mostrar essa capacidade.

A meritocracia para o ingresso ao ensino superior não deve ser a moeda corrente. Exatamente porque não é universal. No fundo, quem defende a meritocracia adota o princípio da igualdade para tratar os desiguais e assim perpetuar a desigualdade.

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