segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Sobre a Copa e áreas essenciais

2014 é um ano eleitoral e o Brasil, além de escolher novos representantes estaduais e nacionais, vai sediar a Copa do Mundo, alvo da ira de parte da população que não concorda com os investimentos nas arenas e nas cidades que sediarão os jogos. Nem por isso, essa parte deixará de assistir os jogos, seja no estádio seja pela TV, enforcando o expediente ou parte dele. 

De todos os debates sobre a realização da Copa no Brasil: capacidade de o país sediar um mega evento, investimentos públicos em obras, submissão aos padrões da Fifa, política do pão e circo, alienação do brasileiro e manifestações de rua, protestos para influenciar as eleições de outubro – um me chama a atenção. Trata-se do discurso de que o país não precisa de Copa (portanto, esporte), mas de investimentos em áreas essenciais.

Para parte dos críticos da Copa do Mundo no Brasil, por áreas essenciais entende-se saúde, educação e infraestutura. Parte da parte dos críticos é aquela que quer tudo isso com estado mínimo, ou seja, redução de impostos. Estado mínimo combina com políticas sociais mínimas, ou seja, menos educação, menos saúde, menos infraestrutura e mais mercado. Muitos países da Europa conhecem bem essa fórmula. Não é mesmo Grécia?

No discurso de que o Brasil não precisa da Copa, um dos argumentos é que para se investir nessa área seria preciso resolver – primeiramente – as essenciais. Investiria em estádios depois de construir hospitais, escolas e rodovias.  É o mesmo que questionar: os recursos para a construção de um Teatro Municipal dariam para construir quantos postos de saúde e quantas escolas? 

As fontes de financiamento das áreas essenciais e as outras são diferentes e os investimentos devem ser feitos de forma paralela. Os envolvidos em cada setor devem garantir mecanismos da aplicação dos recursos e ter planos para a utilização de cada obra ou projeto. Um estádio pode ficar vazio depois da Copa, assim como um hospital após a inauguração. A construção desse hospital – por si só – não é garantia de que vai funcionar. O investimento em recursos humanos e materiais, ou seja, manutenção, é muito maior que o da própria construção.

Parece que muitos argumentos contrários à Copa do Mundo do Brasil estão banhados em preconceito com a área esportiva, no caso o futebol, assim como a cultura também sofre com cortes de gastos por não ser considerada uma área essencial. Eleger uma área de investimento como prioritária não é garantia de que todos terão acesso aos serviços oferecidos.

Lembro aqui a medida, alguns anos atrás, do Ministério da Saúde em oferecer pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a cirurgia de transgenitalização. Na época, a repercussão foi negativa e muitos atacaram a decisão do Governo Federal. Recursos públicos para mudança de sexo foram considerados desperdício, provavelmente, por muitos que hoje são contrários a Copa no Brasil. Decididamente o preconceito não é a melhor companhia para estabelecer as políticas públicas, independentemente da área: saúde, cultura, educação, esporte, entre outras.

Em novembro passado, o ministério anunciou que vai ampliar o acesso às cirurgias e tratamentos para adequação sexual pelo SUS. A medida segue determinação judicial que obriga o governo a fazer o que for necessário para atender transexuais e travestis na rede de atenção básica de saúde. O anúncio do Ministério da Saúde para atender esse segmento não causou alvoroço como o registrado alguns anos atrás. Isso significa que a compreensão das políticas públicas para os segmentos atendidos evolui com a própria prática.

É inevitável que a Copa do Mundo seja realizada no Brasil, até porque transferir a sede – a essa altura – é jogar no ralo todo o investimento (público e privado) já realizado. A não ser que as manifestações tenham mais por objetivo atacar a imagem de Dilma, para tentar mudar os rumos das eleições presidenciais de 2014, e menos para protestar por aumento de recursos nas tais áreas essenciais.

Esses estádios serão um elefante branco? Independentemente da Copa do Mundo, é preciso que a sociedade fique de olho e acompanhe o planejamento da utilização das arenas. Vai depender da administração de cada uma e sua capacidade para torná-la rentável, seja nos campeonatos estaduais ou outros eventos.

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