sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O Brasil no poste


Amarrar suspeitos e acusados de assaltos em poste virou moda no Brasil. Depois de um adolescente nu, amarrado pelo pescoço, por um grupo de justiceiros no Rio de janeiro; e de outro caso registrado na Bahia; foi a vez de um jovem de 26 anos, na catarinense Itajaí. 

A Folha de S.Paulo relata que o rapaz foi amarrado por um grupo moradores, depois de um assalto a uma da padaria. Conforme o jornal, o delegado Gilberto Cervi Silva disse que não abrirá inquérito para investigar quem amarrou o rapaz.

“Ele é um vagabundo, já tem um monte de passagens [na polícia]”, disse, sem detalhar os crimes pelos quais o preso já teria respondido”. O delegado afirmou ainda à Folha que o rapaz estava machucado ao ser resgatado. “Mas é só coisa leve.”

Pode-se até buscar explicação sociológica e psicológica para um grupo de justiceiros ou um monte de moradores revoltados que amarram ao poste um acusado. Pode-se justificar o ato com base no estado omisso, na polícia desacreditada e na justiça falha.

Explicação e justificativa vão ao encontro das convicções de cada um que concorda e aplaude a ação, mas isso não tira o caráter violento da atitude. É barbárie combatendo barbárie. A vítima igualou-se ao bandido. A vítima virou bandido.

No caso do poste de Itajaí, uma coisa não tem explicação nem justificativa. É a fala do delegado Gilberto Cervi Silva, um agente público pago com o dinheiro do contribuinte. Ele afirmou que não abrirá inquérito porque o amarrado “é um vagabundo, já tem um monte de passagens”.

Esse discurso sugere várias interpretações. Arrisco duas. Primeira, um delegado, homem da lei, chancela a ação dos amarradores porque se trata de um vagabundo. Então, qualquer pessoa com passagem pela polícia pode ser amarrada a um poste? Mas vagabundo rico com passagem pela polícia tem advogado caro e vai passar longe dos postes, certo? Então, quem vai acabar amarrado?  

Segunda interpretação, mesmo que instaurasse processo para investigar quem amarrou o jovem ao poste, daria em nada porque – provavelmente – seria mais um inquérito a engordar as estatísticas. Informações do site Consultor Jurídico dão conta que, no início de 2013, quase 4 milhões de inquéritos estavam sem conclusão. As causas são muitas e diversificadas, como aponta o Consultor.

A fala do delegado é de um perigo extremo num Brasil que assiste atônito e entusiasmado à onda de contra-ataque de “cidadãos de bem” a “cidadãos do mal”. Atônito porque há brasileiros que condenam a política do olho por olho. Entusiasmado porque há brasileiros que defendem a política do dente por dente.

A continuar assim, muitos acabarão cegos e desdentados. Se a sociedade brasileira adotar a estratégia de amarrar aquele que considera vagabundo em um poste, para fazer justiça, então, vai faltar poste no Brasil.

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