terça-feira, 11 de março de 2014

Desinformado. Conivente. Cúmplice.


O general da Brigada Paulo Chagas escreveu artigo, na revista Sociedade Militar, no qual afirma que os "militares da reserva diferem entre si na forma, na intensidade e na oportunidade de uma eventual intervenção militar que venha a dissuadir as pretensões mais ousadas dos dissimulados adeptos da versão “bolivariana” do comunismo de sempre (...)" 

Na prática, o general afirma que o Brasil pode sofrer um novo golpe e que os militares da reserva diferem sobre como e quando. Intervenção, neste caso, é um mero eufemismo. Aliás, os golpistas de 1964 gostam de rotular aquilo de revolução. O artigo de Paulo Chagas invoca muitas reflexões. Arrisco algumas.

1) É da natureza militar ser beligerante e pouco afeto às regras democráticas. Por exemplo, a truculência da PM nas abordagens de rua é uma herança da militarização da segurança pública. Então onde está a novidade do artigo que prega um novo golpe? No apoio de muitos setores da sociedade, incluindo, gente que se diz esclarecida.

2) O cidadão comum que acredita numa intervenção militar como resultado para restabelecer a ordem social é desinformado, conivente ou cúmplice. Desinformado porque não conhece a história do país. Conivente porque, se conhece a história, concorda com a violência praticada nos porões da ditadura. Cúmplice se participou ativamente da repressão nos chamados anos de chumbo.

3) Se alguém duvida do item 2, passeie pelos comentários ao final do artigo do general e verifique o nível da reflexão:
"__Peço fervorosamente que haja uma intervenção militar já, agora, se possível pra ontem!"
"__Fechem esse Congresso Nacional! Reforma nas leis de partidos! Convoquem novas eleições!"
"__Corruptos era arrancado do poder e se resmungasse levava um calaboca."
__“Estou aguardando a minha passagem para a reserva. Devemos usar força para expulsar esses comunista do Brasil. Preciso de contato, pois necessito de armamento, pois teremos que usar tática de guerrilha, pegar as cabeças (...)”
"__Eu não tenho estrutura para luta corpo a corpo, mas fé é o que não me falta. São Miguel Arcanjo, o Príncipe da Milícia Celeste, com certeza comandará a batalha, justa."

Isso é ou não é sinônimo de desinformação, conivência ou cumplicidade?

4) A argumentação sobre uma intervenção militar passa pela desordem do país, pela corrupção generalizada, pelo ataque aos valores morais que degradam a sociedade brasileira e pelo avanço do comunismo. Jesus! tem gente que acredita que o governo petista de Lula e Dilma é comunista. Quem acredita nisso, acredita também que não houve corrupção na Ditadura Militar e que o país estava em ordem.

5) A Comissão Nacional da Verdade mantém um site, no qual os interessados (tomara que os desinformados, coniventes e cúmplices acessem o conteúdo) podem saber mais sobre a violação dos direitos humanos na Ditadura Militar Brasileira. A comissão disponiliza o link "Mortos e desparecidos políticos", no qual se pode pesquisar o nome de muitas vítimas do regime. Nomes como os de Rubens Paiva, João Lucas Alves, Manoel Fiel Filho e Padre Antônio Henrique.

6) "O regime militar conviveu tanto com os corruptos, e com sua disposição de fazer parte do governo, quanto com a face mais exibida da corrupção, que compôs a lista dos grandes escândalos de ladroagem da ditadura. Entre muitos outros estão a operação Capemi (Caixa de Pecúlio dos Militares), que ganhou concorrência suspeita para a exploração de madeira no Pará, e os desvios de verba na construção da ponte Rio–Niterói e da Rodovia Transamazônica." Quem quiser saber um pouco mais sobre a corrupção nos governos militares pode acessar o artigo "Moralismo Capenga", de Heloisa Maria Murgel Starling, professora de História da Universidade Federal de Minas Gerais e co-autora de "Corrupção: ensaios e críticas" (Editora da UFMG, 2008).

7) Ainda sobre a complacência dos militares com a corrupção, Juremir Machado da Silva direciona em seu blog para uma reportagem do jornal O Globo "que mostra o que nós, historiadores, já sabíamos e já denunciávamos: o elo entre tortura e contravenção." O Globo é o mesmo jornal que publicou texto reconhecendo como erro o apoio editorial à ditadura. O reconhecimento foi em agosto de 2013, ou seja, quase 50 anos depois.

8) A democracia brasileira é recente. A reabertura data de 1985. Naturalmente muitos problemas ainda precisam ser enfrentados como a própria corrupção. Mas esta precisa ser atacada em todas as frentes, incluindo o famoso jeitinho brasileiro que abre as portas para corruptos e corruptores de toda sorte. Um governo corrupto nada mais é que um sintoma da sua própria sociedade.

9) Convocada para o próximo dia 22/03, a Marcha da Família com Deus e pela Liberdade relembra o apoio ao Golpe de 1964. Portanto, em sintonia com o general da Brigada, que prega um novo golpe. A atitude de quem apoia a marcha é clara. É pela família, aquela tradicional, cujo formato não cabem os núcleos familiares formados por quem não se encaixa no figurino de pai, mãe e filho. É por Deus. Aquele ser que pune quem não segue a moral e os bons costumes. É pela liberdade. Liberdade dos cidadãos de bem, aqueles que gostam de amarrar o marginalzinho no poste.

10) Nas últimas cinco eleições foram eleitos três presidentes. Fernando Henrique Cardoso foi eleito em 1994 e 1998, democraticamente pelas urnas. Luis Inácio Lula da Silva governou a partir de 2002 e 2006, eleito pelas mesmas urnas. Dilma Rousseff se elegeu em 2010, também pelo poder do voto direto. Ela é candidata à reeleição. Tirar um presidente eleito pelo voto direito, que não seja pelas urnas ou por processo legítimo de impeachment, é golpe. Simples assim.

11) Aliás, golpe é uma tradição da direita latino-americana. Não precisamos ir muito longe na linha do tempo para comprovar o asco que muitos têm por governos eleitos democraticamente. Os exemplos recentes vêm do Paraguai (2012) e de Honduras (2009).

12) Quando a sociedade democrática pede a volta do Regime Militar, ela chancela a violência praticada pela ditadura. Quando essa mesma sociedade dá carta branca à violência militar institucionalizada, qualquer um pode ser a vítima. Inclusive quem apoiou o golpe para ter mais ordem no país.


Foto: O jornalista Vladimir Herzog foi torturado e morto no Doi Codi de São Paulo. A foto que ilustra esse texto expõe a farsa para tratar do caso como suicídio. 

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