sexta-feira, 28 de março de 2014

Percepção das cavernas

O trabalho "Tolerância social à violência contra as mulheres", do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), comprova o que os movimentos de mulheres e as feministas dizem há muito tempo. A vítima de estupro é culpada pelo crime que sofreu. 

O levantamento foi realizado em maio e junho de 2013 e foram ouvidas 3.810 pessoas, sendo 66,5% mulheres e 33,5% homens. Os dados integram o Sistema de Indicadores de Percepção Social, do Ipea. Alguns dados da tal percepção são estarrecedores.

- 42,7% dos entrevistados concordam totalmente com a frase: "mulheres que usam roupas que mostram parte do corpo merecem ser atacadas." Esse número sobe para 65,1% se forem somados os que concordam parcialmente.

- 35,3% concordam que "se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupro". Se somado o índice de quem concorda parcialmente, o percentual também sobe, desta vez para 58,5%.

A pesquisa não se resume a esses indicadores, mas esses números mostram uma percepção assustadora sobre a violência contra a mulher, uma percepção das cavernas. 
A questão é ainda mais complexa porque envolve aspectos culturais, de identidade sexual e de gênero. A percepção revelada pela pesquisa reforço os estereótipos da cultura do estupro. 

Ao concordar com a frase, os entrevistados (inclusive mulheres) e outros milhões legitimam o estupro e buscam culpar a vítima por causa do seu comportamento e de suas roupas. Para esses, mulheres que usam minissaia e blusinhas podem, devem e merecem ser estupradas; mulheres que se comportam mal, podem, devem e merecem ser estupradas.

Roupa curta, sensual e provocante não é cartão de visitas para agressores sexuais. Roupa curta, sensual e provocante não é aviso de disponibilidades para estupros. __Mas e o comportamento vulgar? __E o que é isso? 

Comportamento vulgar é se vestir como bem entender? É falar alto e rir demais? É beber com as amigas? É vomitar no boteco? É dar em cima de vários? Certamente, esse comportamento não é bonito, mas é um direito, uma liberdade individual, faz parte das escolhas de cada mulher. A vulgaridade das ruas é condenada, mas a vulgaridade das celebridades e das sub-celebridades é glamurizada. A mídia faz isso rotineiramente.

Se a garota de minissaia enche a cara e vomita na balada é sinal de que ela quer ser estuprada? O homem que estupra uma mulher alcoolizada é duplamente covarde porque se aproveita de um momento de vulnerabilidade. O desejo não está acima dos direitos e do respeito à mulher.

A pesquisa do Ipea diz muito sobre a percepção brasileira em relação à tolerância com a violência contra a mulher, mas diz muito mais sobre a índole dos homens e das mulheres deste país.

Imagem: Cena do filme O Albergue.

PS. O Ipea divulgou em 04/04/2014, uma errata na qual corrige dados da pesquisa. Não são 65,1% dos entrevistados que concordam (parcial ou integralmente) com a frase "mulheres que usam roupas que mostram parte do corpo merecem ser atacadas." O índice é de 26%. em abaixo dos 65,1%. No entanto, ainda é um índice alto e continua sendo uma percepção das cavernas. O machismo mata!

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