sábado, 26 de abril de 2014

Sobre corrupção e corruptos

O vazamento seletivo de informações de investigações da Polícia Federal sobre as relações do doleiro Alberto Youssef com políticos (leia-se André Vargas, que se desfiliou ontem do PT e Alexandre Padilha, também do PT, candidato ao governo de São Paulo) dá uma dimensão importante do papel das instituições brasileiras no combate à corrupção.

O jornal Folha de Londrina, no último dia 20, publicou extensa reportagem sobre o doleiro londrinense, conhecido de políticos tradicionais do Paraná. Conhecido, aqui, é um eufemismo para parceiro de acusação em esquema de corrupção. O ex-governador Jaime Lerner e o ex-prefeito de Londrina Antonio Belinati figuram na listagem de camaradas do doleiro.

Outra figura conhecida dos paranaenses é o senador Álvaro Dias. Pois é, o parlamentar combativo também já andou no avião do doleiro. O nome do senador aparece nas investigações de corrupção na Prefeitura de Maringá, num esquema do final dos anos 1990. Dias foi envolvido pelo ex-secretário da Fazenda, Luís Antônio Paolicchi.

O ex-secretário, apontado com pivô do esquema, foi encontrado morto em 2011, dentro de um porta-malas de um carro na área rural de Maringá. 
A morte teria motivação passional. O assassinato teria sido encomendado pelo companheiro de Paolicchi.

Apesar de o doleiro manter relacionamento com políticos de vários partidos no Paraná, ele está marcado como o amigo de André Vargas.É que a Polícia Federal tem vazado sistematicamente informações que envolvem investigados que atuam no governo federal e políticos do PT e de partidos aliados do Palácio do Planalto. A repercussão da investigação contra o doleiro londrinense suscita algumas reflexões.

1) A Polícia Federal ao divulgar, seletivamente, informações de investigações em curso, o faz de forma política para atingir os investigados. Isso fica claro ao usar publicações, de repercussão nacional, para aumentar o impacto das "denúncias". Se elas não se comprovarem, problema dos suspeitos. O sistema fica invertido. Não é mais o acusador que tem de provar a acusação. É o acusado que tem de provar a inocência.

2) Por outro lado, as equipes de jornalistas dessas publicações deixam o rigor investigativo e a ética em segundo plano. Afinal, é uma fonte oficial que diz que fulano apontou ciclano como possível beneficiário do esquema. O comportamento jornalístico da chamada grande mídia mostra uma partidarização para atingir os grupos no poder, aos quais se faz oposição.

3) Se você duvida desse comportamento midiático, compare as acusações da mídia contra o PT e o PSDB. Busque informações sobre a corrupção no metrô de São Paulo. Mesmo envolvendo nomes do alto tucanato paulista, o esquema é chamado docilmente de cartel do metrô. Ou seja, quando o esquema envolve PT é corrupção. Quando envolve o PSDB é cartel das empresas. Até o combativo Ministério Público amacia para os tucanos. O promotor público Rodrigo de Grandis não respondeu pedido de informações da Justiça suíça e disse que o pedido foi parar na gaveta errada. Então quer dizer que o combate à corrupção é feito por gavetas? Grandis não apurou contratos suspeitos entre a multinacional Alston e o metrô de São Paulo.

4) A mesma Polícia Federal indiciou o tucano Andrea Matarazzo no esquema de corrupção do metrô de São Paulo... ops... cartel. A repercussão foi maior nas redes sociais, do que na chamada grande mídia. O link para a matéria é do jornal Brasil de Fato, um jornal que se declara de esquerda, que defende os movimentos sociais e pautas como a reforma agrária. 

5) A imprensa tradicional ainda desqualifica o indiciamento do tucano. O blogueiro da Veja e da Folha de S.Paulo Reinaldo Azevedo chegou a escrever que o indiciamento é "surrealismo jurídico", por não ter "nada" contra Matarazzo. Ele diz ainda que não há algo parecido na justiça brasileira, esquecendo-se que o petista... ops... mensaleiro José Dirceu, foi condenado sem provas. Isso não sou eu quem afirma, mas o jurista Ives Gandra.

6) Os exemplos citados neste texto, fartamente lincados, mostram que as instituições brasileiras, incluindo a imprensa, não combatem a corrupção, mas apenas alguns grupos de corruptos. Essa estratégia, sim porque não se trata de um processo inconsciente, é prejudicial ao sistema político brasileiro. Ganha não aquele que é honesto, mas o que parece honesto perante à opinião pública.

7) Por falar nesta entidade - a opinião pública - não há aprofundamento da leitura do processo. Essa entidade compra e vende o que lê na capa do jornal, na chamada do telejornal nacional, no compartilhamento da notícia no Facebook. Para a opinião pública, político não presta e todo partido é de ladrão. Ao criminalizar a política, criminaliza-se também os programas de governo e o alcance de suas ações. E tudo continua como está.

8) Em ano eleitoral, esquentam ainda mais as relações políticas entre os militantes e os simpatizantes de um e de outro grupo político. Isso reverbera até no Congresso Nacional. O combate à corrupção, que deve ser uma bandeira suprapartidária, fica centrado nos corruptos do outro. A queda de braço para definir o objeto da CPI da Petrobras (restrito para oposicionistas e geral para governistas)  é a prova de que cada lado olha apenas o umbigo corrupto do outro.

9) Tudo isso revela que a reforma política é urgente e a sociedade brasileira não pode ficar mais refém do atual modelo. Afinal se político nenhum presta, por extensão, o eleitor também vale pouca coisa. Afinal, é ele quem escolhe os dígitos e os confirma na urna eletrônica.

Nenhum comentário: