sexta-feira, 25 de abril de 2014

Tratamento desigual para desiguais


A imagem que ilustra esse texto circula pela internet e compara o conceito de igualdade com o de justiça. O seu conteúdo é extremamente significativo e vale refletir sobre o que propõe.  O conceito de igualdade (imagem da esquerda) - pelo senso comum - determina o mesmo tratamento para pessoas diferentes. 

Isso significa que todos receberiam os mesmos recursos, independente de sua condição. Ocorre que esse conceito – já tratei nas Letras Crônicas – é a base da cultura da meritocracia. No fundo, tratar os diferentes de forma igual não gera igualdade. Pelo contrário, promove-se ainda mais a desigualdade. 

A imagem da direita chama de justiça outro conceito: igualitarismo, ou seja, o sistema que tem por objetivo criar condições de igualdade social. Neste caso, a igualdade pressupõe tratar os diferentes de forma desigual para criar condições de gerar a igualdade.

Esses conceitos estão ligados - direta e profundamente - com as políticas públicas. Tanto que as ações afirmativas e as de transferência de renda levam em conta s situação pessoal e familiar dos beneficiados.  As cotas públicas para estudantes de escola pública e negros, o Bolsa Família, o Prouni e outros programas atuam nesta perspectiva.

Fazer justiça, promovendo a igualdade, é dar mais para quem tem menos. Reparem bem na imagem da direita e vejam que o terceiro menino (mais baixo) recebe mais recursos (dois caixotes) que o do meio (um caixote) e ainda mais do que o primeiro (nenhum). Isso é tratar os diferentes de forma desigual para promover a igualdade.

O que chama a atenção nesta imagem é a sua repercussão nas redes sociais. Muitos internautas sensibilizam-se com a situação do menino que não consegue ver o jogo. Esses chamam de justiça o fato dele receber dois caixotes para acompanhar a partida com os outros meninos. Milhares curtem e compartilham a imagem, fazendo justiça aos diferentes.

No entanto, muitos desses internautas são os mesmos que, diariamente, atacam impiedosamente as cotas públicas, o Bolsa Família, o Prouni, o Fies (financiamento estudantil), entre outros mecanismos de promoção da igualdade social. O que leva alguém a curtir e a compartilhar o conceito de justiça social e, na mesma Linha do Tempo, no Facebook por exemplo, atacar as políticas públicas que promovem essa justiça?

Preconceito de classe? Discriminação racial? Deficiência no ensino formal? Falta de reflexão? Individualismo? Competitividade? Medo da concorrência? Enfim, os questionamentos sobre as causas desse processo são muitos e as respostas devem considerar aspectos multifatoriais, ou seja, a resposta é complexa.

Mas um fato se destaca em meio à rapidez, à fragmentação, à superficialidade da internet. O debate pode e deve existir, refletindo a realidade social. Que venham, portanto, as transformações necessárias. A sociedade e aqueles que mais precisam agradecem.  

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