quarta-feira, 28 de maio de 2014

Aborto, desinformação e manipulação


Mais uma vez uma onda de desinformação toma conta das redes sociais, estimulada por desinformação. O tema é o polêmico de sempre, o aborto. Na semana passada, o Ministério da Saúde incluiu a interrupção da gravidez como procedimento a ser pago pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O procedimento custará R$ 443,40. A medida está publicada no Diário Oficial da União do último dia 22.

O aborto no Brasil é reconhecido como direito da mulher em dois casos: gravidez em decorrência do estupro e risco de vida para a mãe. Essas duas situações são reconhecidas pelo Código Penal Brasileiro de 1941. Há ainda outra possibilidade que é a interrupção da gravidez em casos de anencefalia, medida foi regulamentada pelo Supremo Tribunal Federal, em 2012.


O direito à interrupção da gravidez previsto em lei – o aborto – não confere a nenhuma gestante, seja vítima de estupro seja em risco de morte - a obrigatoriedade em realizar o procedimento. Essa é a garantia de que ela pode se quiser fazê-lo. Assim, como – se quiser – levar a gravidez adiante e vir a morrer no parto ou não e ainda criar seu filho, mesmo vítima de uma violência sexual. A decisão deve ser exclusivamente da mulher que vive tal situação. O resto é interpretação dos envolvidos.

No entanto, há quem teime em misturar legislação com dogmas religiosos, crenças pessoais e política partidária. Nenhum problema em fazer isso se houvesse honestidade intelectual. A imagem, que ilustra esse texto, corre o Facebook e é um exemplo de desinformação e manipulação.

Desinformação porque a afirmação de que em 22/05/2014, a presidenta “Dilma aprova o aborto no Brasil” não é verdadeira. O aborto está aprovado no país há exatos 73 anos e são poucos os serviços estruturados neste sentido. Os governos federal, estaduais e municipais não têm a coragem necessária para oferecer o serviço às mulheres pobres – por questões mais eleitorais e menos dogmáticas – já que as ricas contratam o médico de sua preferência e pagam caro por isso; seja em casos legais seja em casos ilegais.

Manipulação porque a mensagem que acompanha a imagem afirma “que esta data também seja lembrada nas eleições de outubro. Quem é a favor da vida, não pode se esquecer.” Ou seja, é a desinformação a serviço da política partidária. Que o autor não queira Dilma na Presidência da República é um direito dele, mas constitui má fé usar informação falsa é manipular a audiência, que – passiva – reproduz e compartilha qualquer coisa sem checar a veracidade.

O velho ditado diz que política e religião não se discutem. Talvez seja por isso que tanta gente manipula o discurso para vender uma informação mentirosa como verdadeira. Quando aprendermos a lidar com a informação de forma honesta, aumentará o nível de politização das pessoas. Assim, qualquer um poderá formar sua opinião, em um processo transparente, guiando suas próprias atitudes, sem depender dos outros.

5 comentários:

Sil disse...

A ignorância das pessoas é uma coisa constrangedora. Infelizmente não é a primeira e nem será a ultima vez em que redes sociais são usadas para "influenciar" a todos e compartilhar coisas sem sentido. É o mal de todo ser humano em querer arrumar um "bode espiatório" isso cabe a mulher que sofre algum desses casos decidir e não a sociedade. É apenas uma maneira de tornar legal um direito há muito aprovado, e que sabemos que é realizado em MUITOS lugares de maneira ilegal.

Norberto Filho disse...

Uma perguntinha apenas, já que o aborto previsto em Lei já existe há mais de 70 anos: o procedimento nunca constou da tabela do SUS? Só agora resolveram pagar os hospitais que o realizam?
Entendo que a grande mancada do governo, que deu brecha para essa boataria toda é não explicar direito o que está fazendo, principalmente em ano de eleição e de copa.

Norberto Filho disse...

Apenas complementando o comentário da Sil: Infelizmente a maioria das pessoas compartilha, comenta e divulga muita coisa sem saber as fontes... Isso era verdade antes da era da Internet e está mais forte agora. No futuro, salve-se quem puder...

Reinaldo César Zanardi disse...

Norberto, no Brasil existem 65 hospitais em 26 estados, que realizam a interrupção da gravidez em casos previstos pela lei. O SUS já pagava, mas com outras denominações. Os prestadores não deixam de receber. Muitas vezes, os procedimento como a curetagem são realizados mais em decorrência de abortos feitos clandestinamente. Segue um link do Estadão que fala sobre isso. A notícia é velha, mas não acredito que tenha mudado muito.

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,curetagem-apos-aborto-e-a-cirurgia-mais-realizada-no-sus-revela-estudo,580854,0.htm

Adriana Alves disse...

Facilitar o acesso ao aborto é complicado. Mulheres que não quiserem ter o filho por algum motivo conseguiriam realizar na rede pública de saúde com facilidade, uma vez que não será exigido registro ( boletim de ocorrência) do estupro. Quero dizer que será possível o acesso ao aborto além dos casos de estupro e anencefalia que são previstos na lei.