terça-feira, 8 de julho de 2014

Vagões femininos


A Assembleia Legislativa de São Paulo aprovou projeto de lei que cria vagões exclusivos para mulheres em trens e metrôs. A medida existe, desde 2013, no Distrito Federal, com o chamado vagão rosa. Reservar vagões exclusivos para as mulheres é uma tentativa de coibir casos de abuso sexual no transporte coletivo.

Para variar o tema é polêmico e levanta opiniões diversas, inclusive contrárias, até nos movimentos de mulheres. Inicialmente, a medida previne casos de abuso sexual, não porque ataca a origem do problema - o machismo, mas porque isola as mulheres dos aproveitadores do transporte coletivo.

Andar de ônibus, trem e metrô não é uma atividade agradável dada a lotação dos veículos. Imagine então, ser roçada por marmanjos que acham poder se esfregar nas mulheres ao seu redor. Muita coisa está em jogo nessa atitude que revela o poder que muitos homens acham ter sobre a mulher.

Poder de se esfregar. Poder de fantasiar no trem lotado. Poder de sentir-se superior. Esse poder atribuído ao homem é construído histórica e socialmente. Bem ou mal, o vagão rosa ameniza a situação, mas adia a solução definitiva (se é que existe) porque não ataca a sua raiz, ou seja, a educação. 

Na cultura machista, o homem pode tudo e a mulher não. E a mulher que "ousar" pegar vagões não exclusivos? Darão elas a chancela para serem bolinadas pelos "machos" do metrô? Ao entrar no vagão não exclusivo muitos pensarão ter carta branca para assediar?

E o pior é que o machismo é inclusive institucionalizado. A empresa que administra o metrô de São Paulo, ou seja, o próprio governo do estado (administrado pelo PSDB), em março, investiu numa campanha publicitária sugerindo que vagão lotado do metrô é bom para "xavecar a mulherada". Abordei o tema nas Letras Crônicas, no texto "Entre o cinismo e o grotesco".

É por essas e muitas outras, que o problema está longe de ser resolvido.Como o machismo é cultural, é preciso construir uma nova cultura. Enquanto isso, a adoção de medidas paliativas continuarão sendo o que são: paliativas. Nada mais. Nada menos.

Charge de Latuff, 2013.

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