quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O selfie nosso de cada dia


As fotos de Marina Silva, com um sorriso sobre o caixão de Eduardo Campos, e de anônimos amontoados sobre o caixão do político, que varreram a internet causando a repulsa dos adversários e a justificativa dos apoiadores do pernambucano, dizem muita coisa, não só sobre o espetáculo no qual foi transformado o enterro.


Até semana passada Eduardo Campos era Eduardo Campos e, agora, foi transformado em... Eduardo Campos. Quem o transformou em mártir o faz por questões políticas. Quem o desmerece também o faz por questões políticas. Eduardo Campos morto não é melhor nem pior do que Eduardo Campos vivo. 

A morte é a coisa mais natural da vida, sendo a sua a única certeza. Mas a sociedade costuma demonizar ou glamurizá-la. Toda morte trágica é lamentável e dolorosa, mas não é a morte quem transforma o falecido em referência ou o reverencia. Quem o faz são os vivos que passam a dar novos valores ao morto, aliás, muitos não o faziam quando o morto era vivo.

Décadas atrás, Guy Debord criava a expressão sociedade do espetáculo, na qual as relações sociais são mediadas por imagens. Esse conceito está ligado à sociedade capitalista e refere-se também ao processo de consumo, no qual a produção de imagens tem relação com o poder e a dominação.

Se associado o conceito de sociedade de espetáculo à espetacularização midiática, a produção de imagens alcança, hoje, níveis antes inimagináveis, consequência da democratização da tecnologia. Os selfies feitos no showmício... digo no velório... do político pernambucano, referem-se à espetacularização da própria imagem na qual, inclusive, o cidadão comum deixa a coadjuvância e assume o protagonismo.

Assim, as celebridades - que não podem ficar no mesmo patamar dos mortais alçados à condição de celebridade efêmera - sobem mais um degrau e passam à condição de olimpianos modernos, cujo termo tomo emprestado de Edgar Morin.

Assim, a cidadã comum vira meme ridicularizada na internet, por sua condição de estrela momentânea; e Marina Silva, de celebridade à olimpiana, arrasta críticos e apoiadores que, respectivamente, atacam e defendem seu momento estive no velório e 'posei-me' para a foto.

Em essência, os selfies criticados no velório de Campos não diferem do processo da foto feita com o celular na frente do espelho para mostrar a barriga sarada com a marca da cueca exposta, o biquíni cravado nos glúteos, o tórax construído a ferro de academia, os seios remodelados em bisturi. Aquele selfie é mais mórbido; esse é mais palatável, mas a autoexibição é a mesma. Portanto, os nossos selfies dizem muito sobre nós mesmos.

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