sexta-feira, 5 de setembro de 2014

A torcedora, o racismo e os justiceiros


Patrícia Moreira, a torcedora do Grêmio que chamou o goleiro Aranha, do Santos, de macaco - em ato explícito de racismo (neste caso tipificado no Código Penal como injúria racial), pediu perdão pela ofensa cometida. Tudo bem que o pedido é por causa da repercussão e pelo fato de a agressão ter sido registrada, coisa que ela não pode negar.

Lembram-se da professora da PUC do Rio de Janeiro, Rosa Marina, que ironizou - no Facebook - um passageiro no aeroporto Santos Dummont e publicou uma foto dele questionando se estava num aeroporto ou em uma rodoviária? Ela também pediu desculpas. E também porque a repercussão foi grande nas redes sociais.

Que esses casos sirvam de exemplo para prevenir novos episódios de racismo, de preconceito contra o pobre ou outros segmentos estigmatizados, tão corrente e recorrente em nossa sociedade. 

No caso da torcedora gaúcha, chama a atenção a repercussão do episódio em si. Li diversas barbaridades sobre gente que supostamente faz justiça. Cito dois exemplos que, infelizmente são muito comuns. Um internauta disse que a moça deveria ser "estuprada por um negão" e outro que ela "deveria ter um filho negro".

O primeiro caso. Quem desejou o estupro da moça, quer que seja com um "negão", ou seja, o internauta faz apologia ao crime (neste caso o estupro). A apologia é tipificada no artigo 287 do Código Penal. Além disso, o internauta reforça o estereótipo do homem negro bem dotado. Os estereótipos também não são alimentados pelo preconceito?

O segundo caso, aquele que deseja que Patrícia tenha um filho negro, mostra-se perversamente preconceituoso. Filho negro, por acaso, é sinal de condenação ou pena para crime cometido? Isso não é justiça. Essas falas revelam quanto o racismo está incrustrado socialmente e os racistas nem se dão conta, inclusive quando acham que combatem outros racistas. 

Os casos de racismo ou de injúria racial não conseguem nem ser pedagógicos para ensinar a prevenir novos casos. Exatamente porque a turba ensandecida, supostamente para fazer justiça, não reflete sobre os atos do outro e muito menos sobre os seus próprios.  

Fazer justiça não é rebaixar o agressor ao nível da agressão cometida. Quando se paga um crime com outro crime muda-se apenas a vítima.

Foto: Patrícia Moreira em entrevista coletiva depois de prestar depoimento. Crédito: Marinho Saldanha/UOL.

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