sábado, 20 de setembro de 2014

Troféu Aranha


A negativa nesta semana do goleiro do Santos , o Aranha, de encontrar-se com a sua agressora, a torcedora do Grêmio Patrícia Moreira, que o chamou de macaco, é mais um capítulo do mito da democracia racial no Brasil. A repercussão do episódio é triste e lamentável.

Triste porque o encontro do goleiro, que disse ter perdoado Patrícia, é um espetáculo para amenizar a responsabilidade da agressora (e assim, de muitos que agem como ela) que chorou e pediu desculpas ao goleiro, ao Grêmio e à torcida gremista. Lembremos que o pedido foi feito depois de ter sido flagrada, em vídeo, na Arena do Grêmio, em Porto Alegre, no dia 28 de agosto.

Lamentável porque ao se recusar a encontrar Patrícia, o goleiro Aranha é alvo de críticas. Para muitos, a atitude do jogador se revela arrogante e até mesmo indigna. Afinal, o perdão é um ato de grandeza humana, certo?

O perdão não é um ato de grandeza humana se serve para mascarar a situação e deixar tudo como está. Perdoar quem conta piadas racistas, perdoar quem faz “brincadeiras com” o “cabelo ruim”, perdoar quem “zoa” a cor da pele não é sinônimo de grandeza. É sinal de fraqueza.

Parte da sociedade teima em pedir aos negros – vítimas de racismo – que deixem isso pra lá, que relevem, que ignorem. Ao agir assim, empurramos para debaixo do tapete o racismo e tornamo-nos cúmplices dos racistas, que ficam livres para continuar “brincando” e “zoando”.

Por que em vez de pedir ao negro que deixe isso pra lá, não censuremos o cara que conta piada racista?

Por que em vez de pedir ao negro que releve a “brincadeira” com o “cabelo ruim”, não repreendemos o menino que não respeita a menina negra?

Por que em vez de pedir ao negro que ignore, não chamemos a atenção de quem faz chacota com a cor da pele alheia?

Perdoar não é esquecer o que aconteceu. Promover a igualdade não é eliminar as diferenças. Pelo contrário, é ressaltá-las para que os diferentes possam viver em condições de igualdade. O conflito tem de ser reconhecido para ser combatido, prevenido.

O goleiro Aranha, ao não negar a existência do conflito, reconhece que o combate ao preconceito e à discriminação tem um longo caminho a ser percorrido. Os que negam o conflito preferem um caminho mais fácil, alegando não existir preconceito racial no Brasil.

Se persistir a vontade destes, esses casos serão deixados pra lá, relevados, ignorados. Pelo menos até aparecer outro caso de racismo (ou injúria racial) flagrado pelas câmeras e repercutido em nível nacional. E estaremos nesse mesmo lugar, discutindo – ainda – a mesma coisa.

Crédito da foto: Ricardo Rímoli/LANCE!Press.

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