sábado, 22 de novembro de 2014

Corrupção Brasil


A corrupção – para existir – precisa de dois elementos fundamentais. O corrupto e o corruptor. O primeiro recebe dinheiro ilegal. O segundo paga dinheiro ilegal. No Brasil, os políticos são tidos como corruptos e, normalmente, quem paga propina é visto como vítima do agente público mauzinho.

Pego em delito flagrante, empresário corruptor costuma fazer-se de vítima e afirma que foi extorquido, que foi ameaçado de ser prejudicado em seus negócios se não pagasse propina a agentes públicos corruptos. Erton Medeiros Fonseca, da Galvão Engenharia, entre outros encarcerados na Lava Jato, seguem à risca tal cartilha.

O diretor da construtora pagou propina ao ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa e ao doleiro Alberto Youssef. O jornal Folha de S.Paulo afirma que “de acordo com Fonseca, o pagamento foi realizado depois de ameaças feitas por Costa e Youssef. Eles teriam afirmado que, se não fossem atendidos, a empresa seria prejudicada pela Petrobrás nos contratos em andamento.”

Não se duvida que bandidos-réus-confessos-delatores-premiados ameacem empresários a pagar propina para manter seus esquemas criminosos. O que se deve questionar é porquê empresários honestos se submetem ao pagamento de propina.

Fossem honestos pagariam mesmo? Fossem honestos não denunciaram o esquema às autoridades competentes? Fossem honestos não dariam um jeito de registrar a extorsão, a ameaça? Pagar propina e fazer pose de vítima são coisa de gente honesta?

A presidenta Dilma disse que em seu governo não abafa investigação alguma e que não vai ficar pedra sobre pedra. Independentemente do que a presidenta quis dizer, o fato é que parte dos deputados e senadores está apavorada com o rumo das investigações, porque também atingem o Congresso Nacional.

O esquema de corrupção da estatal, além, de irrigar partidos do governo e da base aliada (PT, PMDB, PP entre tantos) irrigou a oposição em outros tempos, como PSDB e o PSB. A sangria não é nova e mexe com a estrutura político-partidária do país.

Infelizmente o combate à corrupção no Brasil é seletivo. As instituições combatem os corruptos dos quais não gostam. Basta ver o tratamento dado ao tema pela Polícia Federal e pela
 imprensa.

O tratamento seletivo da PF e da justiça mostra que delegados da Polícia Federal no Paraná que comandam as investigações da Lava Jato, durante as eleições, atacaram o PT e Dilma, enaltecendo Aécio.

Isso coloca em xeque a credibilidade das investigações e reforçam as suspeitas do vazamento de informações durante o primeiro e o segundo turnos das eleições para beneficiar a campanha do tucano em detrimento da campanha petista. Tanto que – antes tarde do que nunca – o juiz Sérgio Moro quebrou o sigilo da investigação para conter os vazamentos seletivos.

O vazamento de informações por conveniência teria sido operado por um ex-tucano e ex-delegado da PF, o atual deputado paranaense Fernando Francischini. O advogado de Youssef tem estreitas ligações com o PSDB do Paraná. Antonio Figueiredo Basto foi indicado pelo governador tucano Beto Richa para o conselho da Sanepar.

"O advogado [Antonio Figueiredo Basto] começou a vazar coisa seletivamente. Eu alertei que isso deveria parar, porque a cláusula contratual diz que nem o Youssef nem o advogado podem falar (...) Se isso seguisse, eu não teria compromisso de homologar a delação." As afirmações são de ninguém menos que Rodrigo Janot, procurador-geral da República.

A imprensa

A imprensa tradicional – de modo geral – também não combate a corrupção, mas apenas os corruptos dos quais não gosta. Pesquise, por exemplo, a diferença editorial entre os mensalões do PT e do PSDB; o trensalão que investiga os desvios de dinheiro público nos trens e metrôs de São Paulo, sob a supremacia tucana há 20 anos.


Análise pertinente vem do jornalista Fernando Brito. Ele discute como a Folha de S.Paulo trata crimes iguais. Em manchete do último dia 20, o jornal escreveu na capa "Doações de investigadas na Lava Jato priorizam PP, PMDB, PT e oposição". Ou seja, o governo tem partido e a oposição não. 

A Folha, quando pode, esconde as siglas PSDB e DEM das investigações. À medida que as investigações implicam os tucanos, membros do partido silenciam sobre o escândalo, até então usado como arma contra os petistas na disputa eleitoral. Por onde anda Aécio Neves, que discursava fervorosamente contra Dilma?

Sim, meu caro internauta, você pode apontar que esse texto tem vários links da mídia tradicional. E tem mesmo. A mídia publica denúncias contra os tucanos, mas amplifica e martela as acusações de corrupção contra o PT, minimiza e suaviza as dos PSDB. 

Neste sentido, o herói atual da imprensa contra o governo vem da base aliada, rachada, mas aliada e atende pelo nome de Eduardo Cunha, deputado federal pelo Rio de Janeiro. Ele cumpre agora o papel que foi de Joaquim Barbosa nas críticas ao governo e, convenientemente, a mídia – por enquanto – não publica com destaque a biografia dele, por estar ao lado dos donos dos grandes veículos de comunicação.

Eduardo Cunha concorre ao posto de presidente da Câmara de Deputados e, mesmo sendo da base do governo, é um nome propício para enfrentar o governo federal. Cunha promete que se for eleito, projeto algum de regulamentação da mídia passará. Como se sabe, a regulação econômica é uma proposta da presidenta para seu segundo mandato.

O homem que promete não deixar projeto de regulação da mídia passar, se for presidente da Câmara, é o mesmo que moveu cerca de 50 processos contra jornalistas e veículos de comunicação. Como se vê, a liberdade de expressão – para Eduardo Cunha – tem conceitos bastante elásticos.

A corrupção não é uma invenção petista nem tucana; nem de esquerda nem de direita, nem na Petrobrás nem no metrô de São Paulo. É uma atividade humana - desprezível. Combater a corrupção é uma tarefa mais árdua do que combater apenas alguns grupos de corruptos. E o Brasil quer mesmo enfrentar esse problema?

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