quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Tem dono sim!


“Violências sexuais, trotes violentos, castigos físicos, humilhações, machismo, racismo e discriminação social.“ Esse é o ambiente descrito em uma das mais tradicionais escolas de Medicina do país, a Faculdade de Medicina da USP. 

A reportagem, que desnuda a violência praticada por alunos veteranos e abafada pela direção da instituição, é assinada por Tatiana Merlino, Igor Ojeda, Caio Palazzo/Vídeos e Rafael Bonifácio, no site Ponte.

“As violências se tornam rituais que se repetem a partir de uma ideia de tradição que querem manter, que não é exatamente do curso, mas uma tradição de algumas festas e instituições que se torna escandalosa”, afirmou - ao site Ponte - Heloísa Buarque de Almeida, coordenadora do programa USP Diversidade.

Para se ter uma ideia da gravidade da situação, em que estupro é registrado em festas organizadas por entidades de estudantes da faculdade, o grito de guerra de muitos estudantes revela-se abjeto.

– Buceta! Buceta! Buceta eu como a seco! No cu eu passo cuspe! Medicina é só na USP!

Espanta o grau de violência sexual e discriminação social cometidas por futuros médicos, os mesmos que cuidarão da minha e da sua saúde em pouco tempo. Serão profissionais da saúde pública e conveniados aos planos de saúde. Como lidarão com a violência contra a mulher, por exemplo?

Tão vil quanto a violência praticada por universitários, cuja formação profissional é paga com dinheiro público, é a tentativa de muitos e muitas machistas em explicar o comportamento predador, colocando a responsabilidade nas vítimas.

Há quem justifique tal brutalidade apenas como consequência das meninas que não se valorizam; das meninas que usam roupas “provocantes”; das garotas que não se dão ao respeito; das garotas que participam dessas festas; daquelas que se embebedam. Ao contrário do que muitos predadores gostariam, cu de bêbado tem dono sim. 

Bebida não é senha para violência sexual. Abusar de uma pessoa nessas circunstâncias mostra o caráter (mal e mau) do abusador, que aproveita da situação para satisfazer seus desejos mais primitivos e, ainda, colocar a culpa na vítima.

O processo de culpabilização da vítima é duplamente amargo. Primeiro, está explícito, porque culpa a estuprada pelo acontecimento. Segundo, porque é expressão de uma sociedade machista que avaliza o homem a seguir seus instintos, mesmo que criminosos, e determina o "recato" à mulher.

Ninguém tem o direito de violar o corpo de ninguém. E sexo consensual é muito diferente de sexo forçado. O combate à violência sexual passa pelo combate ao machismo e às técnicas para livrar os machistas das suas responsabilidades, mas nossa sociedade quer fazer isso?

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