sábado, 6 de dezembro de 2014

Sexo, internet e suicídio


Um vereador de uma cidade do interior do Rio Grande do Norte do Norte foi flagrado fazendo sexo com outro homem em um banheiro. O caso ganhou repercussão em blogs e sites do nordeste, que exibiram a imagem do ato sexual. 


Algumas publicações divulgaram que o cidadão teria se suicidado por não ter aguentado a pressão por causa da divulgação das imagens. Outros dizem que ele tentou o suicídio, mas não teria tido êxito. De qualquer forma, o vereador virou chacota na cidade e caiu no mundo obscuro das redes sociais. O episódio suscita algumas reflexões. Arrisco algumas.

1) Com ou sem suicídio, a repercussão do caso ainda fica centrada no fato do cidadão ter feito sexo com outro homem. A discussão é moral e muita gente condena não o ato não sexual, mas homossexual. Se fosse flagrada uma relação hetero, para a maioria certamente o homem seria pegador e a mulher vagabunda. Isso revela muito sobre os preconceitos e os preconceituosos. 

2)  A exposição on-line levou o vereador a tentar o suicídio. Isso é fato. Se ele conseguiu se matar ou não, pouco importa. A pessoa que fez as imagens e as divulgou é responsável por isso, assim como quem reproduziu em seus blogs e sites. A responsabilidade deve ser compartilhada por quem ajudou a propagar o episódio.

3) No imaginário coletivo da cultura machista – aquela mesma em que a mulher dona de seu nariz é vadia -  viado é o homem que faz sexo passivo, ou seja, o que dá. O homem que come é macho, mesmo comendo outro homem. Na repercussão desse caso, o homossexual ativo nem é citado. Na internet, você percebe o nível dessa realidade nos comentários de leitores dos blogs e sites, que reproduziram as imagens do banheiro indiscreto.

4) A intimidade de uma pessoa interessa somente a ela e a quem faz parte da sua intimidade. Se o vereador – como pessoa pública - não patrocinou sexo com dinheiro público, o fato de transar com outro homem interessa a ninguém. Se a amante de uma autoridade não é notícia, porque está na esfera privada, também não são notícia as preferências sexuais de um vereador. Essa percepção é reforçada pelo fato de o cidadão ser vereador em Janduís e a cidade onde foi feita a imagem de sexo no banheiro ser outra: Caraúbas. O vereador não estava em missão oficial da Casa que representa.

5) Ninguém nasce preconceituoso. As pessoas aprendem a discriminar. E se aprendem a discriminar podem também a aprender a aceitar as diferenças. Isso se chama educação, mas como educar para a diversidade se pais, mães, outros familiares e também a igreja e a escola oprimem e reprimem as minorias?

6) A violência contra homossexuais é gritante. Em 2013, segundo pesquisa do Grupo Gay da Bahia, um homossexual/lésbica/travesti foi assassinado a cada 28 horas no Brasil. O que isso tem a ver com o vereador que se suicidou no RN? Gravar a intimidade um homem fazendo sexo com outro homem e expor na rede não é uma violência que o levou ao suicídio?

7) A onda conservadora que tomou conta do Brasil, impulsionada pela radicalização política nas campanhas presidenciais de 2010 e 2014, revela a violência contra esses grupos. Todo mundo sabe quem são os políticos, os religiosos e as autoridades/celebridades homofóbicas. O
país tem a obrigação moral de criminalizar a homofobia. E o governo Dilma tem a obrigação política de gestionar para que esse projeto seja aprovado no Congresso Nacional.

A sexualidade humana é muito mais complexa do que gostariam os rótulos simplistas dos preconceituosos de plantão. A repercussão de um episódio como esse, que para a maioria foge às regras da “normalidade”, mostra como as pessoas lidam com a sexualidade alheia e, principalmente, com a sua própria sexualidade.

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