terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Violência, morte e desmilitarização da polícia


É chocante a morte do surfista catarinense Ricardo dos Santos, baleado por um policial militar (Brentano), que deveria proteger a vida, independente de estar em expediente ou de folga. Uma morte estúpida, sem explicação nem justificativa.

Agora quantos jovens da periferia são mortos pela PM todos os dias e ninguém se comove? E o pior, ainda há quem ache natural porque a violência contra o pobre está banalizada. A violência da polícia não é novidade para ninguém.

Muitos podem argumentar que o policial preso, por disparar contra o surfista três vezes, não estava em serviço (estava em férias) e que consumia drogas em frente à casa da vítima. Isso isentaria a PM
 da responsabilidade porque não seria uma morte em serviço. Não é bem assim. O que leva um policial, que tem formação para proteger - mesmo em férias - a sacar a arma e atirar três vezes contra alguém?

Segundo reportagem do site Ponte, "no primeiro semestre de 2014, PMs de São Paulo mataram 424 pessoas, uma média de 5 mortos a cada 2 dias; no mesmo período do ano passado (2013), a média era de 3 mortes a cada 2 dias. Número de PMs mortos também subiu, de 33 para 44."

Há quem vai argumentar que esses são suspeitos ou bandidos e, se foram assassinados, estavam envolvidos com o crime. Primeiro, ocorre que nem todo suspeito é culpado e, mesmo culpado, existem trâmites processuais que devem ser respeitados para se provar a culpa. Amarildo não é um caso isolado.

Segundo, quando se dá aval para a Polícia matar, qualquer um pode ser a vítima, inclusive um parente, um amigo ou um conhecido. Policiais podem muito, mas não podem tudo. Eles não têm o poder da vida de ninguém nas mãos.

A sociedade brasileira precisa se debruçar sobre os projetos de leis que tramitam no Congresso Nacional que preveem a desmilitarização da polícia. A proposta é unificar a militar e a civil numa só corporação. Justificativas para isso existem aos montes.

Conforme reportagem da EBC, "a proposta de desmilitarização consiste na mudança da Constituição, por meio de Emenda Constitucional, de forma que polícias Militar e Civil constituam um único grupo policial, e que todo ele tenha uma formação civil."

Para o professor de Direito Penal Túlio Vianna, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ouvido pela EBC, “essa divisão atual é péssima para o país do ponto de vista operacional, pois gasta-se em dobro, e é ruim para o policial, que precisa optar por uma das carreiras”.

Vianna ainda afirma que “as forças armadas são treinadas para combater o inimigo externo, para matar inimigos. Treinar a polícia assim é inadequado, pois o policial deve respeitar direitos, bem como deve ser julgado como um cidadão comum e não por uma Justiça Militar”.


Por dia, 82 jovens são mortos no Brasil, sendo 77% deles negros. Os números são de um levantamento feito pela Anistia Internacional. Os números foram divulgados em dezembro passado pela revista Carta Capital. Entre 2004 e 2007, 192 mil brasileiros foram mortos. Esse número é superior ao registrado em países em guerra como Iraque, Sudão e Afeganistão, quando 170 mil pessoas morreram no mesmo período.

A Anistia Internacional não tem estatísticas sobre assassinatos cometidos pelo Estado, ou seja, pela polícia. Atila Roque, diretor-executivo da base brasileira da Anistia Internacional, admite que "estamos bastante mal na coleta de dados de letalidade provocada pelo Estado. Nós sabemos muito pouco sobre quem foi morto pela polícia. A coleta é imperfeita. A maior parte dos estados não coleta, coleta mal ou não divulga. Isso no País que tem uma das polícias que mais matam no mundo. E, para fazer justiça, é uma das polícias que mais morrem também". 

Roque cita uma pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas, em 2012, e que chegou à conclusão de que o policial também quer uma reforma no sistema de segurança pública. "Ele é a favor da desmilitarização, ele se manifesta a favor da reforma da polícia, ele está insatisfeito por não ter uma carreira única."

Como se vê, o debate sobre a desmilitarização da polícia no Brasil encontrou um terreno fértil para prosperar. Basta não perder o momento. Para isso, é preciso identificar os setores que são contra, apontando o dedo para os interesses que impedem a proposta de sair do papel.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Aí, as drogas

Aí, o meu conhecido diz que achou bem feito a morte do brasileiro, por fuzilamento, executado na Indonésia por tráfico de drogas.

__É pouco! As drogas destroem muitas famílias porque nossos jovens entram nessa vida. Todo traficante deveria morrer porque ele arrasta milhares de pessoas para esse abismo.

Eu tive de provocar.

__Então a culpa de um jovem consumir drogas é do traficante, mas e os jovens que não consomem droga mesmo com tanta cocaína ou maconha disponível? Então a culpa é do traficante, mas e a responsabilidade da família em prevenir essa situação?

Aí, pergunta um outro conhecido sentindo o cheiro da droga da discussão.

__Alguém quer mais cerveja ou uma branquinha?

E o debate morre regado a uma droga legalizada.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Inquietudes (241) do Rei

A execução do brasileiro na Indonésia atiçou os demônios que vivem em muita gente que se diz santa ou ungida. Você não é um cristão de verdade se vai à missa, ao culto; reza, ora e depois prega, nas redes sociais, a pena de morte. Ser cristão é mais do que exibir a roupinha nova na igreja ou no templo. 

Inquietudes (240) do Rei

O caso do brasileiro executado na Indonésia, juntamente com outras pessoas, é de uma crueldade sem tamanho. Abominável. O que me revolta ainda mais é que duvido ser esse cidadão o dono dos 13 kg de cocaína que tentava inserir por aquelas bandas. Matam os pequenos para deixar os grandes livres. Alguma novidade nisso?

Anjos (III)


sábado, 17 de janeiro de 2015

Ah... o politicamente (in)correto


Na esteira da repercussão do atentado ao jornal francês Charlie Hebdo, condenável em todos os aspectos, estão a defesa e o ataque ao comportamento politicamente correto. O debate, neste caso, fica por conta dos limites - ou não - da liberdade de expressão. Já fizeram muitas análises das causas e consequências do atentado. Por isso, vou me ater neste texto ao politicamente (in)correto.

Normalmente quem ataca diz que o politicamente correto torna as relações sociais monótonas. Normalmente quem defende diz que o politicamente correto é uma forma de respeito às minorias.

Há quem garanta, por exemplo, que a simples troca de palavras não acaba com o preconceito e a discriminação. Isso é verdade! E usar palavras com sentidos pejorativos, do ponto de vista social, mantem os preconceitos de sempre. Isso também é verdade.

Desde que o mundo é mundo, umas partes valem mais do que as outras; uns povos são melhores do que outros; uns são mais bovinos que os outros; alguns são locomotivas e a maioria vagão; uns mandam e a maioria obedece. Não é assim que se move a humanidade?

Se a liberdade de expressão aceita tudo, como defendem por aí, então podemos voltar a usar termos que foram sendo substituídos pela língua em uso. Por que não voltar a usar o termo retardado para quem tem síndrome de down? E o termo aidético para quem tem aids? E o termo leproso para os pacientes de hanseníase? 

A palavra rotula e só quem é rotulado sabe o que isso significa. A velha do primeiro andar conhece bem essa história. Afinal, velho é descartável, substituível, não presta mais para uso. E aquela neguinha que não se enxerga? Mas aí já é racismo. Racismo porque, neste caso, a lei criminalizou a liberdade de expressão. Onde fica o direito universal de "brincar" com a cor da pele? do outro.

Não ria viado! Falar da velha pode e falar da sua viadagem não? Vai dizer que é homofobia? Mas e a liberdade de expressão? Se o viado for pobre, então, a coisa fica preta. Olha aqui a cor mais uma vez. E isso é um processo construído historicamente. Lembra-se da ovelha negra? A magia negra? O mercado negro? entre tantos. Essa sociedade gosta de judiar dos negros, associando ao que é negativo. 

Judiar não! Use maltratar, escarnecer, zombar. São sinônimos aceitos pelos dicionários da Língua Portuguesa. Judiar lembra judeu maltratado. E a memória do holocausto ainda está fresquinha. Associar judeus com coisas negativas é antissemitismo. E isso, o mundo não perdoa. Ué, mas o politicamente incorreto não vale para todo mundo?

Charge: Benett. Reprodução do blog do autor.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Aí, a ostentação

Aí, a minha conhecida posta no Facebook que tem horror de gente invejosa.

__Você não pode nem trocar de carro, comprar uma casa ou fazer uma viagem internacional e postar fotos no face... tem um monte de gente morrendo de inveja!
Eu tive de comentar no post.

__Fofa, você sabia que o gatilho da inveja é a ostentação? Por que você não ostenta menos para ter menos gente cobiçando o que é seu?

Anjos (II)


Anjos


Anjos são figuras enigmáticas.
Dizem que há diferentes hierarquias.
De anjos a arcanjos; de serafins a querubins.
Papel e função definidos e na base de tudo, a proteção.
Anjos são mensageiros, guardiões.

No alto, um anjo anuncia que ali mora alguém.
Moradia eterna.
As feições lapidadas na pedra variam.
Paz em uma hora; inquietação em outra.
Luz e sombra.
Vida e morte.

No cemitério, o anjo guarda o que sobrou.
E guia o espírito.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

As lições de Charlie



O assassinato dos cartunistas do jornal francês Charlie Hebdo apresenta ao mundo muitas lições. Arrisco algumas.

1) A liberdade de expressão não é um valor absoluto para todos. A mesma França que defende agora com unhas e dentes a livre expressão do jornal é a mesma que proibiu, em 2014, manifestações em favor da Palestina; é a mesma que proibiu o véu islâmico em público, cuja medida foi referendada pelo Tribunal Europeu.

2) A liberdade de expressão é um valor sagrado, mas tem limites. Charge não mata, mas pode fazer discurso de ódio, a ponto de levar fanáticos a matarem seja em nome do que for. Portanto, o dono da charge tem responsabilidade sobre o que projetou coletivamente.

3) A islamofobia na Europa é crescente e as comunidades árabes serão cada vez mais hostilizadas. A extrema-direita na Europa tende a ganhar mais força. Os Le Pen, infelizmente, não são apenas um efeito colateral.

4) O ataque ao jornal francês recebe o nome de terrorismo e é associado ao Islamismo. Quando assassinatos são cometidos por ultranacionalistas, o mundo não classifica de terror, mas de ataque. Lembram-se do branquelo norueguês Anders Behring Breivik que matou 76 pessoas, em 2011? O militante da extrema- direita não virou terrorista, mas atirador; ele não cometeu ato de terrorismo, mas matança.

5) A equipe de Charlie não pediu nem mereceu morrer. Nada justifica a violência. Mesmo assim, os cartunistas não eram simples figuras inocentes e sabiam exatamente o que faziam nesse jogo de poder. Tanto que Charb, o chefe, disse tempos atrás que preferia morrer em pé a viver de joelhos.

6) A comoção mundial mais uma vez não vem só da violência empregada no episódio, mas do pedigree das vítimas: brancas, europeias e bem posicionadas financeiramente. Neste final de semana, uma menina-bomba de 10 anos explodiu e levou com ela 20 pessoas num mercado na Nigéria. A notícia mereceu pé de página, nenhuma rede de TV faz plantão 24h em frente ao mercado. Quem virou, nas redes sociais, “Je suis Nigeria”?

7) O estado israelense, na figura de Benjamin Netanyahu, determinou que a inteligência de Israel – o Mossad – vai ajudar na luta contra o terrorismo na França. Isso aí, o mesmo Israel que toca o terror contra os palestinos e que é investigado pela ONU por crimes de guerra. Em 2014, as ofensivas de Israel – vejam bem não são ataques terroristas – mataram milhares de civis em Gaza.

8) Em nome da luta pela paz, o estado francês com o apoio de várias potências amigas vai promover ainda mais violência e morte. Infelizmente, os milhares de civis mortos no Afeganistão e no Iraque na invasão norte-americana não são exceção. A paz para esses líderes mundiais precisa da guerra para continuar alimentando a economia dos países ricos.

As lições de Charlie Hebdo são muitas, mas o mundo – infelizmente – fará questão de continuar errando os mesmos erros. 

PS. A imagem é uma reprodução do filme "O Grande Ditador" (1940), de Charles Chaplin, em alusão a Adolf Hitler. O mundo depois de sete décadas ainda tem vários candidatos ao grande ditador, mesmo que - aparentemente - muitos defendam a democracia.