sábado, 17 de janeiro de 2015

Ah... o politicamente (in)correto


Na esteira da repercussão do atentado ao jornal francês Charlie Hebdo, condenável em todos os aspectos, estão a defesa e o ataque ao comportamento politicamente correto. O debate, neste caso, fica por conta dos limites - ou não - da liberdade de expressão. Já fizeram muitas análises das causas e consequências do atentado. Por isso, vou me ater neste texto ao politicamente (in)correto.

Normalmente quem ataca diz que o politicamente correto torna as relações sociais monótonas. Normalmente quem defende diz que o politicamente correto é uma forma de respeito às minorias.

Há quem garanta, por exemplo, que a simples troca de palavras não acaba com o preconceito e a discriminação. Isso é verdade! E usar palavras com sentidos pejorativos, do ponto de vista social, mantem os preconceitos de sempre. Isso também é verdade.

Desde que o mundo é mundo, umas partes valem mais do que as outras; uns povos são melhores do que outros; uns são mais bovinos que os outros; alguns são locomotivas e a maioria vagão; uns mandam e a maioria obedece. Não é assim que se move a humanidade?

Se a liberdade de expressão aceita tudo, como defendem por aí, então podemos voltar a usar termos que foram sendo substituídos pela língua em uso. Por que não voltar a usar o termo retardado para quem tem síndrome de down? E o termo aidético para quem tem aids? E o termo leproso para os pacientes de hanseníase? 

A palavra rotula e só quem é rotulado sabe o que isso significa. A velha do primeiro andar conhece bem essa história. Afinal, velho é descartável, substituível, não presta mais para uso. E aquela neguinha que não se enxerga? Mas aí já é racismo. Racismo porque, neste caso, a lei criminalizou a liberdade de expressão. Onde fica o direito universal de "brincar" com a cor da pele? do outro.

Não ria viado! Falar da velha pode e falar da sua viadagem não? Vai dizer que é homofobia? Mas e a liberdade de expressão? Se o viado for pobre, então, a coisa fica preta. Olha aqui a cor mais uma vez. E isso é um processo construído historicamente. Lembra-se da ovelha negra? A magia negra? O mercado negro? entre tantos. Essa sociedade gosta de judiar dos negros, associando ao que é negativo. 

Judiar não! Use maltratar, escarnecer, zombar. São sinônimos aceitos pelos dicionários da Língua Portuguesa. Judiar lembra judeu maltratado. E a memória do holocausto ainda está fresquinha. Associar judeus com coisas negativas é antissemitismo. E isso, o mundo não perdoa. Ué, mas o politicamente incorreto não vale para todo mundo?

Charge: Benett. Reprodução do blog do autor.

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