segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

As lições de Charlie



O assassinato dos cartunistas do jornal francês Charlie Hebdo apresenta ao mundo muitas lições. Arrisco algumas.

1) A liberdade de expressão não é um valor absoluto para todos. A mesma França que defende agora com unhas e dentes a livre expressão do jornal é a mesma que proibiu, em 2014, manifestações em favor da Palestina; é a mesma que proibiu o véu islâmico em público, cuja medida foi referendada pelo Tribunal Europeu.

2) A liberdade de expressão é um valor sagrado, mas tem limites. Charge não mata, mas pode fazer discurso de ódio, a ponto de levar fanáticos a matarem seja em nome do que for. Portanto, o dono da charge tem responsabilidade sobre o que projetou coletivamente.

3) A islamofobia na Europa é crescente e as comunidades árabes serão cada vez mais hostilizadas. A extrema-direita na Europa tende a ganhar mais força. Os Le Pen, infelizmente, não são apenas um efeito colateral.

4) O ataque ao jornal francês recebe o nome de terrorismo e é associado ao Islamismo. Quando assassinatos são cometidos por ultranacionalistas, o mundo não classifica de terror, mas de ataque. Lembram-se do branquelo norueguês Anders Behring Breivik que matou 76 pessoas, em 2011? O militante da extrema- direita não virou terrorista, mas atirador; ele não cometeu ato de terrorismo, mas matança.

5) A equipe de Charlie não pediu nem mereceu morrer. Nada justifica a violência. Mesmo assim, os cartunistas não eram simples figuras inocentes e sabiam exatamente o que faziam nesse jogo de poder. Tanto que Charb, o chefe, disse tempos atrás que preferia morrer em pé a viver de joelhos.

6) A comoção mundial mais uma vez não vem só da violência empregada no episódio, mas do pedigree das vítimas: brancas, europeias e bem posicionadas financeiramente. Neste final de semana, uma menina-bomba de 10 anos explodiu e levou com ela 20 pessoas num mercado na Nigéria. A notícia mereceu pé de página, nenhuma rede de TV faz plantão 24h em frente ao mercado. Quem virou, nas redes sociais, “Je suis Nigeria”?

7) O estado israelense, na figura de Benjamin Netanyahu, determinou que a inteligência de Israel – o Mossad – vai ajudar na luta contra o terrorismo na França. Isso aí, o mesmo Israel que toca o terror contra os palestinos e que é investigado pela ONU por crimes de guerra. Em 2014, as ofensivas de Israel – vejam bem não são ataques terroristas – mataram milhares de civis em Gaza.

8) Em nome da luta pela paz, o estado francês com o apoio de várias potências amigas vai promover ainda mais violência e morte. Infelizmente, os milhares de civis mortos no Afeganistão e no Iraque na invasão norte-americana não são exceção. A paz para esses líderes mundiais precisa da guerra para continuar alimentando a economia dos países ricos.

As lições de Charlie Hebdo são muitas, mas o mundo – infelizmente – fará questão de continuar errando os mesmos erros. 

PS. A imagem é uma reprodução do filme "O Grande Ditador" (1940), de Charles Chaplin, em alusão a Adolf Hitler. O mundo depois de sete décadas ainda tem vários candidatos ao grande ditador, mesmo que - aparentemente - muitos defendam a democracia.